Pelo crescimento sustentável da internet
O Código de Ética Anti-Spam procura estruturar uma cultura
digital ética, com uso adequado dos meios eletrônicos para construir valor e não
apenas cliques e métricas de navegação predatórias.
Patrícia Peck
Parece uma contradição, mas a internet e o supermercado têm muito em comum. A
internet é um supermercado de informação. E o supermercado é cada vez mais
interativo.
Analisando do ponto de vista comportamental e de antropologia do consumo, ambos
são corredores de acesso à informação, onde marcas e produtos estão dispostos de
modo a exigir uma interatividade com o consumidor. A interatividade representa o
primeiro contato, onde se pega no produto da prateleira. Com mais alguns passos
ou cliques, o produto pode ser colocado no carrinho de compra e alcançar uma
venda efetiva.
A disputa por presença na prateleira se equipara à disputa por visibilidade e
acessibilidade digital, em que não basta mais apenas estar exposto – é preciso
provocar uma experiência com o consumidor. Assim como o desafio de fazer com que
ele volte, e volte sempre, no mesmo lugar, no mesmo domínio, sendo um cliente
fiel, que tem não apenas um cadastro mas sim um cartão de relacionamento, uma
identidade de fidelidade e afinidade.
Como se não bastasse toda essa afinidade, cada vez mais as marcas estão se
varejizando, ou seja, estão se tornando lojas, ambientes de experiência de
compra, física e virtual. Nesse movimento, o desafio é como as grandes redes de
varejo, que são multimarcas e multiprodutos, podem tirar proveito da tecnologia,
da interatividade e do digital para gerar diferenciais e experiências de valor
para reter seus clientes e ainda aumentar o ticket médio de compra.
Mas o que é virtual? Segundo Pierre Lévy, a virtualização é um processo de
transformação de um modo de ser no outro, com uma nova sensibilidade estética,
que nem é boa, nem é má, nem tampouco neutra, é um movimento mesmo do “devir do
outro”, ou melhor, heterogênese do humano. Essa mutação não é apenas
tecnológica, é social, comportamental.
O virtual permite a existência legítima do estar não-presente. Do manifestar-se
por intermédio de sistemas de comunicação telemática através de encontros móveis
e transitórios de mensagens, com a desconexão em relação a um meio particular,
com diversos meios de registro e transmissão oral, escrita e audiovisual em
redes digitais.
A necessidade de mobilidade física impulsionou a construção dos transportes, a
interligação de cidades, países. Desde o barco a vapor ao avião a jato e à
espaçonave, o homem quer estar libertado de um limite físico e territorial. Há
uma tensão de sair de uma “presença”. A revolução dos transportes complicou,
encurtou o espaço, mas isso foi pago com importantes degradações do ambiente
tradicional. Há também um preço a ser pago pela virtualização informacional. Há
paisagens de dados devastadas? Há lixo virtual intoxicando a rede? Há excluídos?
O virtual é reflexo do real.
É isso que ocorre com o spam, que é reflexo da falta de ética com bancos de
dados de consumidores que já ocorre no mundo real. Por isso a iniciativa que
reuniu nove entidades para lançar o
Código de Ética Anti-Spam
é um marco para estruturar uma nova cultura empresarial, uma cultura digital
ética, com uso adequado das ferramentas tecnológicas, dos meios eletrônicos para
construir valor, relacionamento, gerar riqueza e empregos e não apenas cliques e
métricas de navegação.
A marca virtual é aquela capaz de estar na vida do consumidor 24 horas de modo
não invasivo, e sim permissional, através de uma presença multicanal que oferece
serviço, entretenimento, conteúdo relevante, e acima de tudo, na hora em que o
cliente quer.
Esta convivência positiva, sem custos, através de interfaces gráficas e
transmissões de telemática, gera ações de oportunidade atrativas para trazer o
cliente para loja, via cupom interativo, via gincana, via promoção e faz com que
a loja seja um grande ambiente de lazer, como se fosse um videogame, com seus
corredores pensados para captar os sentidos do odor, olhar, paladar, tato e
audição, acrescido de um sexto, o da interatividade. É esse o caminho. O
comportamento e a linguagem interativa multimídia são um caminho sem volta.
Vamos fidelizar o cliente um a um, e não apenas fidelizar o meio. A internet já
é um meio fiel de compra para muitas pessoas, que entram e saem de uma loja para
outra em questão de cliques. Vamos andar por ele de modo ético, seguro e em prol
do crescimento sustentável da economia digital. [Webinsider]
Fonte: Uol Digital