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31/05/2005 -
As contas secretas da Igreja Universal |
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IstoÉ - Gilberto
Nascimento |
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Documentos mostram que o
bispo/senador Crivella (PL-RJ) seria responsável por empresas que lavam
dinheiro em paraísos fiscais. |
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Desde 1999, um inquérito
na Procuradoria da República investigava as relações de líderes da Igreja
Universal do Reino de Deus com duas empresas – a Cableinvest Limited e a
Investholding Limited –, ambas com sede nas Ilhas Cayman, paraíso fiscal
britânico localizado no Caribe. Seis anos depois, a quebra do sigilo
fiscal da igreja é pedida ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo
procurador-geral da República, Cláudio Fonteles. O objetivo é investigar a
existência de um esquema nos moldes da lavanderia montada por PC Farias.
Para a Procuradoria da
República, há indícios de que o esquema foi utilizado para a compra da TV
Record do Rio, em 1992, e de outras emissoras. As duas offshore (as
subsidiárias criadas em paraísos fiscais para fugir da cobrança de
impostos) enviaram dinheiro ao Brasil, por meio de operações irregulares,
para a conta bancária de bispos da Universal e também de “laranjas”.
Documentos da Receita Federal comprovam essas transações. As remessas e
recebimentos totalizam US$ 18 milhões (R$ 44,6 milhões) e comprovariam a
evasão de divisas.
ISTOÉ teve acesso a parte
da documentação que deu início às investigações e levou o procurador
Fonteles a pedir a quebra de sigilo. A revelação mais explosiva é a
identidade de um dos donos das empresas Cableinvest e Investholding. Por
trás da operação em Cayman estaria Marcelo Crivella, um economista carioca
de 43 anos, filho de Matilde Bezerra, irmã de Edir Macedo, o principal
líder da igreja. Crivella é bispo da igreja e foi eleito senador pelo PL
do Rio, em 2002. Segundo o relatório da Procuradoria Geral da República de
maio de 2003, ao encaminhar o caso para o STF, as investigações realizadas
pela Interpol constataram que um dos acionistas da Cableinvest é Crivella.
Agora, com a quebra de sigilo, os bancos podem liberar extratos que
comprovarão quem é o dono das empresas. Nos papéis obtidos por ISTOÉ,
aparecem a assinatura do senador, reconhecida por um cartório de São
Paulo.
Esses documentos foram
recolhidos por ex-dirigentes que tinham acesso à contabilidade da igreja,
a contratos de compra e venda (de emissoras de rádio e tevê, imóveis e até
de uma aeronave), além de declarações de Imposto de Renda de líderes da
Universal. Crivella já depôs este ano na Polícia Federal do Rio e negou
ser dono das empresas.
O império –
A Igreja Universal está hoje em mais de 80 países, de acordo com seus
líderes. Mas, para alcançar esse crescimento, deixou rastros pelo caminho:
enriquecimento ilícito, lavagem de dinheiro, compra da Record através de
laranjas, acusações de curandeirismo e charlatanismo, chutes na imagem de
uma santa e dissidências. Mas nada se compara a essas denúncias. Segundo a
Procuradoria, há evidências de como funciona o esquema de lavagem de
dinheiro da igreja. Ele passa por uma triangulação entre doleiros no
Brasil, as empresas de offshore nas Ilhas Cayman e bancos de investimento
no Uruguai. Numa pequena mostra do esquema, ISTOÉ comprovou que, em 76
contratos, entre fevereiro e outubro de 1992, as duas empresas emprestaram
US$ 6,3 milhões aos bispos, pastores e seletos simpatizantes da Universal.
Entre outros negócios, esse dinheiro serviu para justificar a compra da TV
Rio. Os empréstimos têm um prazo de cinco anos para ser quitados, mas não
há definição quanto ao número de parcelas nem data do início de pagamento.
Nesses contratos, por exemplo, Alba Maria da Costa, então diretora de
várias empresas do grupo Universal, recebeu um total de US$ 843 mil em dez
contratos. Outros R$ 56 milhões (valores atualizados), em operações já
comprovadas pela Receita Federal, foram parar nas contas de chefes da
igreja, como os bispos Honorilton Gonçalves, responsável pela
superintendência executiva da Rede Record; João Batista Ramos da Silva,
deputado federal (PFL-SP) e ex-presidente da Record; e Carlos Rodrigues,
deputado federal (PL-RJ) e hoje rompido com a Universal. Rodrigues chegou
a ter um aumento em seu patrimônio de 15.000%. |
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O senador Crivella é figurinha fácil em processos
que correram na Receita e no Ministério Público. Em 1990, ele e outros
testas-de-ferro da Universal compraram a TV Record de Franca (SP), oficialmente,
por Cr$ 45 milhões (hoje cerca de R$ 1,2 milhão). O dinheiro, como em outras
aquisições do tipo, foi emprestado pela própria igreja. Na investigação de
sonegação de impostos, a Receita, depois de quatro anos de trabalho, registra em
seu relatório que os “empréstimos (foram) efetuados sem qualquer acréscimo,
configurando-se em verdadeira doação”. |
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As provas do esquema de
lavagem de dinheiro mostram o poder de Crivella sobre as ações das duas
empresas de Cayman. Em um comunicado enviado aos diretores da Cableinvest,
em nome dos “proprietários beneficiários” da empresa, Crivella autoriza o
então presidente do Banco de Crédito Metropolitano (que pertencia à igreja
e passou a chamar-se Credinvest), o executivo Ricardo Arruda Nunes, a
movimentar “uma nova conta bancária com o Union Chelsea National Bank”.
Crivella não está sozinho nesta operação. Outro brasileiro que aparece
como sócio das empresas de Caymam é Álvaro Stievano Júnior. A trajetória
de Stievano no reino da Universal é pouco sutil. Depois de passar pela
diretoria do banco de Macedo, tornou-se diretor da New Tour Turismo,
também de propriedade da igreja. Em comum com os dois cargos, o manuseio
de dólares.
A dupla dinâmica assina,
como acionistas e diretores da Investholding Ltd., outros dois documentos
importantes, nos quais revelam suas relações com a empresa. “Eu,
abaixo-assinado, sendo acionista e diretor da Companhia, por meio deste,
designo Robert E. Axford ou, na sua ausência, Richard E. Douglas ou, na
sua ausência, Ian A. N. Wight, ou, na sua ausência, Anne Mervyn para ser
meu procurador (a ter minha procuração) para votar por mim e em meu
interesse, para me representar em toda reunião anual da diretoria”, dizia
a procuração. “Em cada compromisso permanecerá com totais poderes até
revogação por parte do designador (abaixo-assinado) por escrito à
companhia.” O documento dava poderes para votação na aprovação do balanço
anual, reeleição de diretores e “outros assuntos sobre os quais o
designado tenha recebido instruções expressas do designador”. Na ata da
primeira reunião dos diretores da Investholding, no escritório da sede da
empresa, em George Town, capital das Ilhas Cayman, ficou registrado que os
dirigentes da empresa Robert Axford e Adrian Hammond seriam detentores de
uma única ação da companhia cada um. Também que Axford ficaria como
presidente, Crivella como diretor-vice-presidente e Stievano,
diretor-secretário. Posteriormente, foi registrado o pedido de demissão
dos diretores Axford e Hammond. O curioso é que o nome de Crivella aparece
acima do nome do presidente da Investholding num relatório de reunião da
empresa. Pelo menos até 1995, a mesma Investholding detinha cerca de 50%
das ações do banco de Macedo.
Vaivém –
O caminho de volta do dinheiro ao Brasil também está esmiuçado: os
recursos transferidos para Cayman vinham sendo depositados em agências do
Banco Holandês, em Montevidéu no Uruguai. Os dólares eram depositados em
agências do Holandês nos Estados Unidos que repassavam o montante à
agência de Montevidéu, além de uma operadora de câmbio uruguaia, a Cambio
Val. Lá, os dólares eram convertidos em cruzeiros, com isenção de
impostos, e enviados à filial brasileira, nas contas das duas empresas.
Pelo menos US$ 7,5 milhões chegaram ao Brasil através do Banco Holandês e
outros US$ 10 milhões por intermédio da Cambio Val, conforme registram
dezenas de boletos. O certo é que o dinheiro recolhido em mais de dois mil
templos da Universal voltaram ao Brasil sem pagar imposto e foram para a
conta de alguns poucos escolhidos. Essas irregularidades serão apuradas
agora pelo STF. E podem abalar o império do bispo.
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*Valores convertidos pelo dólar de agosto de 1998, quando surgiram as
denúncias |
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Fonte:
ISTOÉ
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Os assuntos assinados são de responsabilidade dos
autores |
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