BRASÍLIA - O médico Gustavo Arantes, diretor do
Hospital de Base do Distrito Federal à época em que o presidente Trancredo
Neves foi internado, disse ontem que "a família do ex-presidente sempre
viveu de mentiras". Segundo ele, que está em férias em Porto de Galinhas
(PE), "Tancredo morreu porque era um paciente morredor, um paciente grave,
que iria morrer de qualquer jeito".
A primeira mentira, segundo ele, foi o pedido para
fazer um laudo afirmando que o ex-presidente estava com uma diverticulite
aguda perfurada, quando, na verdade, o diagnóstico era de leiomioma, um
tumor benigno. Além da maquiagem do laudo, os médicos montaram uma outra
farsa.
Na versão de Arantes, "a pedido do establishment da
chamada Nova República", foi montada a foto em que Tancredo aparece,
visivelmente inchado e ladeado pelo grupo médico que o tratava, como se a
situação estivesse absolutamente sob controle. Em condições normais, um
paciente com o quadro do ex-presidente não posaria para fotografias.
"Agora, a família ficou incomodada porque saiu a verdade. Essa foto só foi
feita porque o establishment da Nova República pediu", disse.
Os boletins médicos com informações falsas eram
redigidos pelo médico Renault de Mattos, segundo informou o ex-diretor. E
depois eram referendados por todos, inclusive, o cirurgião Pinheiro da
Rocha. Ali, as informações falsas tinham como objetivo evitar que uma
crise institucional se instalasse. Ele confidenciou que, na ocasião,
chegou a pensar em não assinar os boletins. Disse que só os assinou após
consulta ao Conselho Regional de Medicina (CRM), que teria lhe informado
que sua assinatura como diretor responsável era obrigatória. Em 1985,
mesmo ano em que Tancredo morreu, os médicos foram advertidos pelo CRM por
terem fornecido informações falsas sobre o real estado de saúde do
presidente.
"Nós fomos repreendidos porque não dissemos a verdade
desde o primeiro momento", confessou. Os médicos paulistas, chefiados pelo
cirurgião Henrique Walter Pinotti, também sabiam da farsa, mas acabaram
absolvidos pelo CRM paulista, segundo relato de Arantes. "Eles sabiam de
tudo desde o começo", contou.
Arantes disse que os médicos resolveram contar o que
aconteceu 20 anos depois porque foram procurados pela equipe do
"Fantástico", da Rede Globo de Televisão. "Eu padeci com isso durante
muitos anos e agora vou escrever um livro contando toda a história",
avisou.
O governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), neto
de Tancredo, afirmou sobre a polêmica dos médicos do avô: "O único
sentimento que nos ocorre agora é de tristeza profunda por ver essa
questão ser tratada dessa forma. Não vamos mais comentar essas declarações
dos médicos todos."