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Permitida mudança de
sexo
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Conselho Federal de Medicina
autoriza a polêmica cirurgia,
enquanto o Ministério Público
quer operações custeadas por
verbas do SUS
A polêmica sobre as cirurgias
para mudança de sexo está
novamente em pauta. Depois que o
Conselho Federal de Medicina (CFM)
confirmou a autorização para que
operações do tipo
transgenitalização (alteração do
órgão genital), o assunto voltou
ao centro dos debates
científicos e éticos em todo o
País. Através da resolução nº
1.652/2002, o CFM autorizou a
prática de cirurgia - de
masculino para feminino e
vice-versa - somente para os
casos em que os candidatos à tal
intervenção demonstrarem ¨desejo
expresso de eliminar os
genitais, perder as
características primárias e
secundárias do próprio sexo e
ganhar as do sexo oposto¨. São
casos como o da Disforia de
Gênero, distúrbio psiquíco
provocado pela ansiedade e
inquietação do indivíduo que não
se adaptou ao seu tipo físico.
O Conselho Federal de Medicina
considera a operação para
mudança de sexo parte de um dos
possíveis tratamentos para o
paciente classificado como
¨transexual portador de desvio
psicológico permanente de
identidade sexual¨. Uma das
características desse distúrbio
psíquico é a ¨rejeição do
fenótipo (identidade física e
social de cada indivíduo) e
tendência à automutilação e ao
auto-extermínio (suicídio)¨.
Em conformidade com a posição
tomada pelas autoridades
médicas, reconhecendo a
transgenitalização como parte de
uma terapia necessária à
recuperação de um portador de
disfunção psicossocial, o
Ministério Público está
preparando um pedido para que a
cirurgia seja oferecida
gratuitamente pelo serviço
público de saúde através do SUS.
Dez mil pacientes estão na fila
para a cirurgia em todo o
Brasil. No Rio de Janeiro,
existem 50 pessoas participando
das terapias oferecidas pelo
Laboratório de Disforia de
Gênero do Instituto de
Endocrinologia e Diabetes do
Estado (Iede). Alguns estão em
tratamento há mais de cinco
anos.
A resolução do CFM recomenda que
o procedimento cirúrgico seja
indicado apenas àqueles
pacientes que apresente
¨permanência desses distúrbios
de forma contínua e consistente
por, no mínimo, dois anos¨. O
acompanhamento por uma equipe
médica multidisciplinar, formada
por cirurgiões, psicólogos e
assistentes sociais por dois
anos é uma das exigências do
tratamento.
- Há muito tempo o Conselho
Federal de Psicologia (CFP) não
considera mais como doença ou
patologia a orientação sexual
das pessoas. Por isso que é
acertada a determinação do
Conselho Federal Medicina de
exigir o acompanhamento de
equipes de psicólogos e
psiquiatras para os casos em que
a cirurgia para mudança de sexo
é colocada como opção para o
tratamento da Disforia de Gênero
- comentou José Novaes, membro
da Comissão Gestora do Conselho
Regional de Psicologia do Rio de
Janeiro (CRP-RJ) e professor
titular de Psicologia Teórica e
Experimental da Universidade
Federal Fluminense (UFF).
Minimizar o sofrimento
Para José Novaes, o mais
importante é minimizar o
sofrimento e as seqüelas que uma
intervenção cirúrgica tão
radical possa vir a causar
naqueles que apresentem tais
distúrbios.
- A redução dos traumas e
seqüelas que advêm dos
tratamentos tem sido uma busca
permanente dos agentes de saúde.
No caso das operações para
mudança de sexo a coisa é ainda
mais delicada e exige muita
pesquisa. O risco que se tem de
um possível arrependimento logo
após uma cirurgia de tal impacto
é real. O acompanhamento
recomendado é de dois anos no
período que antecede à possível
operação. Na minha opinião, a
terapia deve ser complementada
com outro período maior após a
cirurgia - opinou Novaes.
Outros especialistas convergem
quando o assunto é o
acompanhamento pós-operatório.
Para muitos, os pacientes
submetidos aos tratamentos
clínico e psicológico que
apresentem alguma tendência à
automutilação ou ao suicídio
devem ter atenção especial.
Apesar de não se ter registrado
nenhum caso de processo
autodestrutivo de alguém que
tenha feito a operação de
transgenitalização, o impacto
pós-operatório pode até piorar o
distúrbio conhecido como
Disforia de Gênero.
- Esse é um distúrbio
configurado pela rejeição do
paciente ao seu corpo. Como em
todo tratamento desse porte, não
está descartada a possibilidade
de que, mesmo depois da
operação, o paciente continue
insatisfeito com o seu corpo.
Mas, em sua maioria, as técnicas
e terapias aplicadas têm
resultado satisfatório -
informou o cirurgião plástico
Antônio Gonçalves Pinheiro,
membro do Conselho Federal de
Medicina.
As limitações
A resolução do CFM reconhece a
cirurgia de transgenitalização
de um órgão sexual feminino para
o masculino, mas recomenda a
intervenção apenas em caráter
experimental. A técnica
conhecida como neofaloplastia
(criação de um novo falo) ainda
é, segundo os especialistas,
pouco eficaz.
- Por isso, o CFM resolveu
autorizar esse tipo de cirurgia
apenas como parte de pesquisas e
em situações especiais -
confirma Antônio Pinheiro.
Para que não seja considerada um
tipo de mutilação ou lesão
corporal grave, a operação para
mudança de sexo recebeu a
autorização do CFM para casos
excepcionais como os da Disforia
de Gênero. O Artigo 129 do
Código Penal, em seu parágrafo
2º, cita como uma das agravantes
da Lesão Corporal quando ela
resulta em ¨perda ou
inutilização de membro, sentido
ou função (Inciso III)¨.
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