Sem-terra desocupam terras da Veracel em Porto
Seguro-Bahia
LUIZ FRANCISCO
da Agência Folha, em Porto Seguro (BA)
MANUELA MARTINEZ
da Agência Folha, em Salvador
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) começou
hoje por volta das 18h a desocupar propriedade da Veracel
Celulose, em Porto Seguro (705 km ao sul de Salvador), invadida
pelo movimento na última segunda-feira.
A saída ocorreu após acordo firmado em reunião no início da
tarde, em Salvador, entre representantes do MST, do Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e do
governo baiano.
Pelo acordo, o Incra se compromete a acelerar a desapropriação
de áreas já vistoriadas e a montar um escritório no sul da Bahia
para aumentar as vistorias de áreas possivelmente improdutivas.
Já MST deixa a área, mas promete montar acampamentos às margens
da estrada que liga Porto Seguro a Eunápolis.
A invasão ocorreu na madrugada de segunda-feira. Cerca de 3.000
famílias de sem-terra (12 mil pessoas) invadiram área da Veracel
Celulose e iniciaram a derrubada de eucaliptos plantados pela
multinacional para produção de celulose. Em quatro dias, os
sem-terra destruíram 25 ha de eucaliptos. Depois, plantaram
milho, feijão e mandioca.
Para construir a maior fábrica de celulose do Brasil, a
multinacional Veracel (empresa de capital finlandês e sueco)
está investindo US$ 1,250 bilhão no sul da Bahia. Dos 95 mil ha
comprados pela multinacional em nove cidades da região, 65 mil
ha têm eucaliptos plantados.
Acordo
Depois de quase quatro horas de negociações, o MST aceitou a
proposta apresentada pelo governo baiano, que também foi
referendada pelo Incra. De acordo com o que ficou estabelecido
na reunião, realizada no prédio da Secretaria da Agricultura da
Bahia, o Incra vai recomendar ao presidente Luiz Inácio Lula da
Silva a desapropriação imediata de seis fazendas (6.000 ha) em
Porto Seguro, Itabela e Eunápolis, no extremo sul do Estado.
"Todas as áreas já foram vistoriadas. Agora, só falta mesmo o
presidente assinar o decreto de desapropriação", disse o
superintendente do Incra na Bahia, Marcelino Galo.
O superintendente disse também que outras 46 áreas (totalizando
40 mil ha) estão com os seus processos de desapropriação "bem
adiantados".
Ontem, o governador Paulo Souto (PFL) disse que o Estado tem
cerca de 156 mil ha que poderão ser ocupados pelos sem-terra. O
Incra também se comprometeu a montar em Itamaraju (BA) um
escritório do órgão.
"Vamos dotar o escritório de funcionários e equipamentos.
Queremos acelerar as vistorias", disse Galo. De acordo com o
superintendente, o novo escritório do Incra na Bahia vai começar
a funcionar na próxima terça-feira.
Walmir Assunção, o principal líder do MST baiano, disse que o
acordo foi favorável aos sem-terra. "Conseguimos chamar a
atenção das autoridades para a nossa causa. E, rapidamente,
vamos receber mais 6.000 hectares, o suficiente para assentarmos
500 famílias." De acordo com Assunção, 35 mil famílias de
sem-terra na Bahia estão à espera de um lote.
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