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A oposição
tem denunciado a quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo
Costa com uma indignação inversamente proporcional à que tem quando
ela própria revela segredos fiscais e bancários de pessoas do PT ou
ligadas ao governo. Um levantamento feito pela Liderança do PT na
Câmara mostra que nos últimos meses a oposição tem vazado
freqüentemente para a imprensa documentos confidenciais e
informações sigilosas.
Esse
comportamento contraditório da oposição tem sido criticado pelos
pelos líderes do governo na Câmara, deputado Arlindo Chinaglia
(PT-SP), e do PT, deputado Henrique Fontana (RS). Para Chinaglia, a
oposição tem uma "indignação seletiva" e tenta explorar política e
eleitoralmente a crise em nome da suposta "defesa do direito à
privacidade".
Fontana,
por sua vez, entende que a oposição, no momento, mira no ministro da
Fazenda Antonio Palocci, mas quer mesmo é desestabilizar o governo
do presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa atitude de desespero
diante das últimas pesquisas eleitorais.
Elas
colocam o presidente Lula com larga vantagem à frente de seus
eventuais adversários. "O zelo do PSDB e do PFL pela preservação de
dados confidenciais e da privacidade devia ser republicano e valer
nos 365 dias do ano, e não apenas agora, de forma seletiva e
oportunista, para tirar proveito político e eleitoral", diz Fontana.
O líder
petista condenou a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo
Costa. "Somos totalmente contra qualquer quebra de direito
constitucional, e, portanto, do sigilo bancário do caseiro. Isto tem
que ser investigado profundamente e o governo já determinou esta
apuração. A quebra do sigilo é ilegal, e isto não pode ocorrer. O
nosso governo e a nossa bancada não concordam em nenhuma hipótese
com este tipo de conduta”, disse.
O
levantamento feito pela Liderança do PT na Câmara mostra diferentes
casos de violação de sigilo. Um deles aconteceu em agosto de 2004,
quando revista de circulação nacional divulgou dados fiscais e
patrimoniais do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.
Esses dados deviam estar protegidos, mas foram violados com fins
eleitorais e políticos, na expressão de Chinaglia.
Ainda em
2004, a Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab)
teve suas informações bancárias e fiscais – protegidas por lei –
divulgadas por dois jornais de circulação nacional. Essas
informações estavam sob proteção da CPI da Terra. As reportagens
faziam menção explícita ao relatório parcial de dados fiscais e
bancários da Concrab, elaborado pela assessoria do presidente da
CPMI, senador Álvaro Dias (PSDB-PR), agora integrante da CPI dos
Bingos, a chamada CPI do Fim do Mundo.
No ano
passado, os deputados federais petistas Devanir Ribeiro (SP),
Sigmaringa Seixas (DF), Vicentinho (SP),Wasny de Roure (DF) e Zezéu
Ribeiro (BA) tiveram seus nomes associados a saques no Banco Rural
em decorrência de vazamento atribuído ao líder do PFL na Câmara,
deputado Rodrigo Maia (RJ). Nada se provou contra eles, e dias
depois comprovou-se que as pessoas apontadas não tinham nenhuma
relação com os deputados.
Nas
palavras do desembargador federal Walter do Amaral, da 3ª Região, em
artigo publicado no site Consultor Jurídico: "O fato mais
emblemático da prática do crime de violação do sigilo bancário e
segredo de justiça foi de responsabilidade do líder do PFL na Câmara
dos Deputados que convocou a imprensa para a apresentação de
documentos sob sigilo legal, onde foram revelados para o escárnio de
toda a nação os nomes de pessoas que teriam sacado recursos
supostamente repassados pelas empresas do senhor Marcos Valério,
algumas das quais homônimas e outras absolutamente inocentes, como
se comprovou depois".
Ainda no
ano passado, o deputado Onyx Lorenzoni (PFL-RS) vazou à imprensa
documentos de posse da CPMI dos Correios que continham dados
protegidos pelo sigilo bancário e fiscal do ex-deputado José Dirceu
(PT-SP). Por isso, o PT entrou com representação contra o pefelista,
por quebra de decoro parlamentar. Há denúncias de que documentos
desapareceram na CPMI dos Correios, por envolverem parlamentares da
oposição. Já se denunciou também que parlamentares fotografaram
documentos com seus celulares, conforme lembrou no plenário da
Câmara o líder Arlindo Chinaglia.
A mais
recente violação aconteceu na última terça-feira (20), desta vez
envolvendo a estatal Petrobras. Um relatório confidencial e
provisório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre a estatal foi
divulgado com grande destaque pela imprensa. Outro caso claro de
violação foi o vazamento do depoimento secreto do funcionário dos
Correios, Maurício Marinho, ao Ministério Público. O vazamento é
atribuído a integrantes da CPMI dos Correios.
Banestado
A CPMI do Banestado também foi acusada de divulgar informações
confidenciais. O presidente da comissão, senador Antero Paes de
Barros (PSDB-MT) pediu ao Banco Central a quebra do sigilo bancário
de 220 pessoas sem ao menos identificá-las.
Além disso,
vários nomes foram divulgados para a imprensa, fato que fez com que
os Estados Unidos se recusassem a passar dados para CPMI dos
Correios. Depois de instalada a CPMI dos Correios, o sigilo bancário
do publicitário Duda Mendonça foi completamente devassado ao ser
inteiramente divulgado para a imprensa.
Senado – O
senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), hoje uma das vozes que se
levantam em defesa do caseiro, foi protagonista, no governo FHC, de
um dos maiores escândalos da República. ACM, juntamente com o hoje
deputado (licenciado) José Roberto Arruda (PFL-DF), foi responsável
pela violação do sigilo do painel do Senado, sem qualquer
autorização judicial.
Por causa
do escândalo, e para evitar processo de cassação, ambos renunciaram
aos mandatos, em 2001. ACM também foi acusado de promover escutas
telefônicas ilegais na Bahia. O caso de violação de sigilo do
deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), sem autorização judicial, foi
investigado pelo Conselho de Ética do Senado.
Okamotto
O jornal Estado de S.Paulo publicou no último dia
2 de março matéria devassando o sigilo fiscal, bancário e telefônico
do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto. Impedidos pelo Supremo
Tribunal Federal (STF) de ter acesso ao sigilo de Okamotto, técnicos
das CPIs dos Correios e dos Bingos combinaram esforços secretamente
e descobriram 161 ligações trocadas entre Okamotto e alguns dos
investigados pelas duas CPIs. A maior parte das ligações foi feita
em 2002, durante a campanha eleitoral à Presidência da República.
O próprio
Okamottto disse que, como foi coordenador de infra-estrutura da
campanha de 2002, "nada mais natural que se relacionasse com
freqüência com pessoas envolvidas na campanha", como o então
tesoureiro do PT, Sílvio Pereira, o presidente do partido, José
Dirceu, e o publicitário Duda Mendonça. Porém, houve exploração
política do caso, porque algumas ligações foram feitas em 2003.
No site da
revista Veja, no dia 16 de agosto de 2005, publicou-se
denúncia do doleiro Antonio Oliveira Claramunt, o Toninho da
Barcelona, que, em depoimento em São Paulo aos integrantes da CPMI
dos Correios, disse "saber coisas" de operações financeiras ilegais
que teriam sido realizadas pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz
Bastos, pelo deputado federal e ex-ministro-chefe da Casa Civil,
José Dirceu, pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, pelo
presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, e pelo deputado
federal José Janene (PP-PR).
Não havia
provas e nada foi provado depois, mas mesmo assim integrantes da
comissão vazaram o depoimento à imprensa. |