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10/12/2003
Anaconda:
policial que ganhava salário de R$ 2 mil
movimentou R$ 500 mil

Cristina Christiano - Diário de
S.Paulo
SÃO PAULO - O agente federal César Herman
Rodriguez - apontado pelas investigações do
Ministério Público Federal (MPF) como um dos
chefes do esquema de venda de sentenças
judiciais favoráveis a traficantes,
contrabandistas e doleiros - movimentou R$
500.222,00 em quatro contas bancárias em
1999. No mesmo ano, declarou à Receita
Federal rendimentos totais de R$ 22.234,15,
ou seja, salário inferior a R$ 2 mil.
O Diário de S.Paulo teve acesso ao sigilo
fiscal de Herman e do advogado Affonso
Passarelli Filho, que teria sido sócio do
agente policial em um escritório de
advocacia e também é acusado de receber
benefícios com o esquema de venda de
sentenças. Nos últimos cinco anos, ambos
apresentaram movimentações financeiras
incompatíveis com os rendimentos declarados
no Imposto de Renda. No caso de Passarelli,
a discrepância é ainda mais evidente porque,
em 2002, por exemplo, declarou renda bruta
R$ 10.500,00 e, no mesmo ano, movimentou R$
749.578,76.
Segundo o consultor tributário Eledino
Garcia, do IOB Thomson, com a renda
declarada em 1999, Herman teria de esperar
pelo menos 30 anos para conseguir juntar os
R$ 500.222,00 que movimentou. Garcia fez a
análise das contas de Herman e Passarelli a
pedido do Diário, sem saber de quem se
tratava.
O consultor observou que Herman tentou
regularizar sua situação a partir de 2001,
quando declarou no Imposto de Renda
rendimentos totais de R$ 409.040,52.
- Mesmo assim, ele caiu em erro, declarando
que o valor da variação patrimonial foi de
R$ 280.940,72 e que os seus recursos
disponíveis antes da variação eram de R$
279.659,79. Isso significa que, naquele ano,
sobreviveu durante 12 meses com apenas R$
1.280,93 - comentou.
O advogado de Herman, Hermínio Alberto
Marques Porto Filho, explicou que em 2001
seu cliente recebeu cerca de R$ 500 mil em
salários atrasados referentes ao período de
1992 a 1996, quando ficou sem receber por
ter sido demitido administrativamente dos
quadros da Polícia Federal.
- Esse valor refere-se ao total do que teve
direito com sua reintegração à Polícia
Federal - disse.
Marques Porto acrescentou que Herman ainda
deve receber cerca de R$ 1 milhão em ação
judicial, por conta de reajustes salariais
que não teve durante o período de seu
afastamento. O advogado explicou que o
dinheiro extra recebido pelo seu cliente foi
aplicado na compra de bens.
O consultor tributário Eledino Garcia
avaliou que, de acordo com a declaração de
2000, Herman não tinha saldo para comprar os
bens que declarou em 2001. Já em 2002 o
agente voltou a relaxar com o Imposto de
Renda. Declarou rendimentos totais de R$
78.468,37 e movimentou no banco R$
173.684,31.
- Os bens que ele alegou ter adquirido de um
ano para outro são poucos em relação ao
valor que consta da conta corrente -
comentou.
Já o advogado Affonso Passarelli Filho faz,
desde 1998, declaração de renda
simplificada, com tabela de isenção. Seu
patrimônio manteve-se estável nesse período.
Mesmo assim, conseguiu movimentar no banco
quantias altíssimas, como R$ 532.475,01, em
1998.
- Se não fosse feita a quebra do sigilo
fiscal, ele nunca chamaria a atenção da
Receita - comentou o consultor Garcia.
O advogado de Passarelli foi procurado, mas
não retornou a ligação.
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