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por Claudio Julio Tognolli
A Polícia
Federal deflagrou às 5 horas da manhã, desta terça-feira (17/8), a
Operação Faroleiro -- conhecida também como Operação Polvo. São mais de
750 homens distribuídos em sete estados brasileiros, a maioria em São
Paulo e Rio de Janeiro. Só em São Paulo, foram alocados num hotel no
centro da cidade cerca de 230 agentes federais oriundos de Brasília. Até
às 11 horas, 90 doleiros foram presos nos estados. Entre eles, o doleiro
Antônio Oliveira Claramunt, o Toninho da Barcelona. Todos os doleiros
presos serão ouvidos pelo Ministério Público Federal e pela PF.
A Operação Faroleiro leva
este nome em decorrência do banco Beacon Hill, cuja tradução literal é
"farol". O Beacon Hill é apontado como um dos maiores lavadores de
dinheiro no esquema do Banestado de Foz do Iguaçu, agência acusada de ter
lavado em 4 anos, junto com o Banestado de Nova York, cerca de US$ 30
bilhões.
A Operação Faroleiro visa
buscar computadores e documentos dos investigados por lavagem de dinheiro.
A Beacon Hill Service Corporation foi indiciada pelo do promotor distrital
(district attorney) de Manhattan, Robert Morgenthal. É acusada de ser
intermediária na abertura de contas em paraísos fiscais e em esquemas de
lavagem de dinheiro. Segundo o MP americano, entre 2001 e 2002 a Beacon
Hill teria movimentado remessas num total de US$ 3,2 bilhões -- em apenas
40 contas que tiveram quebra de sigilo pelas autoridades americanas.
A Beacon Hill foi a
responsável pela abertura da conta camuflada "Tucano" (número 310035), no
banco J.P. Morgan Chase, que recebia transferências ilegais de dinheiro.
Segundo a CPI mista do Banestado saiam remessas, em nome da Beacon Hill,
para contas de políticos brasileiros, como Ricardo Sérgio Oliveira --
ex-caixa da campanha do PSDB, e João Bosco Costa -- ex-diretor do Previ.
A Beacon Hill também é
acusada de ter agenciado 18 remessas para contas em paraísos fiscais
feitas pelo presidente da Ponte Preta de Campinas, Sérgio Carnielli, que
somam US$ 615 mil. Na conta Tucano, segundo a CPI, a Beacon Hill teria
movimentado cerca de US$ 28 milhões, entre 1996 e 1998.
O senador Antero Paes de
Barros (PSDB-MT), presidente da CPI Mista do Banestado, afirmou que já
foram feitas diligências em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e São José
do Rio Preto (SP), no Brasil. “De Washington e Nova York, nos Estados
Unidos, trouxemos imenso volume de documentos sobre empresas off shore,
entre elas a Beacon Hill, considerada a holding dos doleiros
sul-americanos, em cujas contas circularam cerca de 10 bilhões de dólares
retirados ilegalmente do Brasil. Na documentação da Beacon Hill
descobrimos a off shore Pai Capital Corp., de cujo suntuoso escritório em
São Paulo foram remetidos para as Ilhas Virgens britânicas mais de 200
milhões de dólares".
Balanço
Nesta terça, ainda devem ser
cumpridos 91 mandados de prisão em São Paulo. Depois de São Paulo, onde
foram presas 20 pessoas, o recorde de prisões, até às 13h desta terça, foi
o Pará: oito mandados de prisão foram executados. Entre os presos
paraenses, estão Fernando Yamada, empresário e dono de casa de câmbio,
Marcos Marcelino, que revende automóveis, e a família Haber, do ramo de
casas de câmbio (Gustavo, Michel Meg e Elza Haber).
Em Recife, foram presos
Edmundo Gurgel, de 41 anos, e Arthur Tillman Maia Neto, sócios da empresa
Norte Câmbio. No Rio, desde às 14h, uma equipe de oito agentes agentes
iniciou investigações no 19º andar da Torre do Rio Sul, em Botafogo, em
uma empresa do ramo de informática.
A operação acontece nos
estados de São Paulo, Rio de
Janeiro, Minas Gerais, Paraíba, Pernambuco, Amazonas e Pará. Segundo o
Ministério Público Federal, há 18 procuradores da República atuando na
operação. A força-tarefa CC5 do MPF e da Polícia Federal conta com o apoio
de procuradores da República em cada estado e do procurador-geral da
República, Claudio Fonteles.
Histórico
Procuradores que investigam
o escândalo do Banestado receberam um CD de autoridades dos Estados Unidos
com mais de um milhão de movimentações financeiras da Beacon Hill, empresa
que geria contas no exterior alimentadas por brasileiros. Os
investigadores brasileiros também tiveram acesso a 300 caixas com
documentos da Promotoria de Nova York. Rastreando os US$ 3,2 bi que a
Beacon Hill movimentou entre 2001 e 2002, os procuradores esperam chegar
aos beneficiários.
Já fechada, a Beacon Hill
ficava em Nova York e era registrada como prestadora de serviços de
telefonia. Seu presidente, o guatemalteco Anibal Contreras, é o dono da
conta no Chase Manhattan em que se encontra a Outras 30 subcontas estavam
em nome da Beacon Hill. Só a "Flamingo" somou créditos de US$ 6,3 milhões
em 1996.
Muita gente fez uso dos
serviços da Beacon Hill. O doleiro Antônio Oliveira Claramunt, o Toninho
da Barcelona, movimentou US$ 500 milhões entre 1996 e 2002, segundo a CPI
do Banestado, que investiga crimes de evasão de divisas e decidiu
requisitar toda a documentação da Operação Anaconda.
Para os integrantes da CPI,
o doleiro pode ter sido um dos caminhos para a remessa de dinheiro ao
exterior pela suposta quadrilha investigada pela operação, que segundo a
Polícia Federal, negociava decisões judiciais. As operações do doleiro
foram feitas por meio de uma conta-mãe, no banco Chase Manhattan em Nova
York, pertencente à empresa Beacon Hill, o principal foco das
investigações sobre lavagem de dinheiro da CPI.
O nome de Barcelona,
inclusive com cópia de seu passaporte, está relacionado à documentação
usada para abrir três subcontas da Beacon Hill. Na apuração da CPI mista
do Banestado, surgiu o poder da Beacon Hill: movimentou US$ 10 bilhões até
ser fechada, em fevereiro. A CPI do Banestado pediu a quebra do sigilo
bancário, fiscal e telefônico do doleiro, que já está sendo investigado
pelo Ministério Público Federal em São Paulo.
Revista Consultor
Jurídico, 17 de agosto de 2004 |