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EUNÁPOLIS (DA
SUCURSAL EXTREMO SUL) - “É uma humilhação”, disse a aposentada
Maria da Lapa, de 64 anos, que é obrigada a colocar a sua carteira
de identidade na frente de uma câmera filmadora todas as vezes que
pega um ônibus no município de Eunápolis, a 760 km de Salvador.
Como a câmera fica presa na parte superior do coletivo, dona Maria é
obrigada a ficar na ponta dos pés e esticar o máximo possível o
braço, mesmo assim, não consegue alcançar o aparelho. “Se não
obrigarmos os idosos e os deficientes a colocarem a carteira na
frente da câmera teremos que pagar a passagem deles”, revelou um
funcionário da empresa Eunapolitana, que preferiu não se
identificar. A empresa é responsável por toda a linha urbana do
município.
Depois de várias denúncias de aposentados e deficientes, o
Ministério Público Estadual, através da promotora de justiça Karine
Campos Espinheira, entrou com uma ação civil (protocolada em 18 de
janeiro) contra a Eunapolitana, solicitando que o estatuto dos
idosos e a lei orgânica do município (lei no 545 de abril de 2005)
sejam obedecidos.
“Tentei uma conciliação com eles antes de entrar com a ação, mas não
consegui”, disse a promotora, afirmando ainda que a exigência da
empresa de que os aposentados e os deficientes apresentem a carteira
a uma câmera é nitidamente uma atitude para dificultar o acesso ao
transporte urbano para as pessoas que têm direito ao passe-livre.
Humilhações – O deficiente físico Inácio Pereira da Silva,
que necessita do auxílio de duas muletas para se locomover, chegou a
se emocionar ao lembrar das diversas humilhações que já passou ao
utilizar os ônibus da empresa.
“Tenho passe-livre. Já tive vários problemas, recebi ameaça dos
motoristas. Muitas vezes tenho que viajar em pé”, contou Silva, que
se nega a mostrar a carteira à câmera. Tarefa, que na situação dele
é visivelmente impossível, mas que mesmo assim é exigida pelos
funcionários da empresa.
“Vocês têm que ver como ficam os ônibus no dia de pagamento dos
idosos. Eles viajam amontoados aqui na frente”, contou um
funcionário da empresa Expresso Brasileiro, que também não quis se
identificar.
Como a catraca fica na frente dos coletivos e a entrada de todos os
usuários é pela mesma porta, as pessoas que têm passe-livre
(aposentados com mais de 60 anos, policiais, funcionários da empresa
e portadores de deficiência) não podem passar pela roleta e acabam
viajando num espaço apertado, onde existem poucos bancos
disponíveis.
Na ação civil, a promotora pede ainda, que a catraca retorne a seu
local de origem (na parte de trás dos ônibus) e que seja feito o
cadastramento de todos os portadores de deficiência. “Existem
deficientes da Apae que estão indo a pé para a escola porque não
estão tendo acesso ao transporte gratuito”, revelou a promotora.
PUNIÇÃO – Segundo o advogado Antonio Apóstolo de Lima,
responsável pela área jurídica da Eunapolitana, não há nenhum tipo
de orientação para que os funcionários da empresa exijam que idosos
e portadores de deficiência mostrem a identificação as câmeras. “Se
está ocorrendo isso, não é com autorização da empresa. Alguns
funcionários excedem, vamos orientá-los melhor”, garantiu Apóstolo.
As câmeras foram colocadas nos coletivos com o objetivo para
defender o patrimônio da empresa inibindo os assaltos, que ocorrem
com constância, revelou o advogado. Quanto ao retorno da catraca
para a parte de trás dos veículos o advogado afirmou que não existe
nenhuma determinação legal em relação a isso e que a empresa cumpre
a exigência de 10% dos assentos reservados e devidamente
identificados para idosos e deficientes.
Promotor quer anular concessão
Com base em denúncias de irregularidades na concessão de transporte
coletivo em Eunápolis e de má qualidade dos serviços oferecidos à
população, o promotor de justiça Dinalmari Mendonça Messias
protocolou, em 10 de novembro de 2005, uma ação civil em que pede a
nulidade dos contratos e a abertura de processo licitatório para a
contratação de uma empresa de transporte urbano.
A Empresa Eunapolitana, responsável pelo serviço de transporte
urbano no município, recebeu o repasse da concessão da Expresso
Brasileiro, no início de agosto de 2005, cujo contrato foi firmado
antes da emancipação de Eunápolis (em 1988), quando o município
ainda era distrito de Santa Cruz Cabrália.
Segundo Messias, o contrato não teria sido validado com a
emancipação do município, mas, ainda assim, foi renovado por mais 10
anos em 1988, “em desconformidade com o artigo 26 da Lei Orgânica do
Município, de abril de 1990, que afirma ser de competência exclusiva
da Câmara Municipal apreciar os atos de concessão e renovação de
concessão de serviços de transporte coletivo”.
Análise – “A procuradoria jurídica do município ainda está
analisando a situação”, disse Omar Reiniero, secretário de
Infra-Estrutura de Eunápolis, em relação às irregularidades
apontadas pelo Ministério Público na concessão sobre o transporte
urbano no município.
O advogado da empresa Eunapolitana, Antônio Apóstolo de Lima,
contesta a existência de irregularidades na concessão. “Estamos em
dia, trabalhando dentro da legalidade. Se não a Justiça já teria nos
barrado”, diz ele,acrescentando que a empresa está fazendo o
cadastramento dos portadores de deficiência, apesar disso não ser
obrigado por lei.
Para o cadastramento, os candidatos que têm direito ao passe-livre
devem procurar o escritório da empresa e pegar a lista de documentos
necessários para a retirada da carteirinha, que segundo o advogado
está sendo distribuída gratuitamente.
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