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13/02/2006 - Correio Ba

Tribunais resistem em acabar com nepotismo

 

Bahia é um dos exemplos onde, dos 150 casos, apenas três foram demitidos
 

O presidente do Judiciário baiano deve divulgar balanço do nepotismo na terça-feira.

BRASÍLIA - Pelo menos 1.148 parentes de magistrados ocupam cargos de confiança na Justiça estadual de todo o Brasil. A prática, conhecida como nepotismo, está proibida há três meses, quando foi editada uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), órgão criado para fiscalizar a atividade dos juízes. O prazo para as exonerações desses parentes é a terça-feira. No entanto, 40% dos casos detectados não serão atingidos pela norma: já somam 449 os funcionários que garantiram, por meio de liminar judicial, a permanência no emprego.

Até sexta-feira, apenas 253 parentes de juízes identificados haviam sido demitidos. Os números foram obtidos por levantamento feito pelo jornal O Globo nos 27 tribunais de Justiça do país. Em sete estados, as cortes recusaram-se a divulgar dados. Do total, 25 tribunais disseram que realizaram um estudo em seus quadros de pessoal para detectar quantos funcionários precisariam ser demitidos. Mesmo sem a conclusão do estudo, os presidentes dos tribunais prometem exonerar todos os parentes até terça-feira.

"Devo cumprir a resolução. Não concordamos que pessoas tenham cargos em comissão por causa de parentesco", disse o presidente do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, desembargador José Gerônimo Bezerra de Souza. Nos tribunais de Justiça do Piauí e do Rio Grande do Sul, a norma do CNJ não será cumprida. O presidente da corte do Piauí, desembargador João Batista Machado, alega que existem ações no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a resolução e só fará as demissões após o julgamento, se for mantida a norma.

O número de liminares concedidas no país foi recorde em Minas, onde 177 funcionários conseguiram manter-se no cargo. No Paraná, chegam a 82 e no Rio de Janeiro, 79. As ações foram propostas aos tribunais de Justiça com o argumento de que as exonerações só poderão ocorrer se o STF considerar a norma constitucional. O STF tem seis ações contra a resolução aguardando julgamento. Uma proposta da Associação dos Magistrados do Brasil (AMB) pede que ela seja declarada constitucional. Assim, todas as liminares perderiam a validade e as demissões seriam incontestáveis. Esse julgamento poderá ocorrer esta semana.

"Considero essas liminares uma situação transitória", aposta o presidente da Comissão de Combate ao Nepotismo da Ordem dos Advogados do Brasil, Vladimir Lourenço. Até sexta-feira, Minas tinha o maior número de casos de nepotismo, com 177 funcionários, seguido de Goiás, com 166, Pernambuco, 157, e Bahia, com 150. Em Goiás, todos os parentes identificados foram demitidos e na Bahia, apenas três, com possibilidade de chegar a 45 servidores, contratados por tempo determinado para atender necessidade temporária de excepcional interesse público (Reda).

Em termos percentuais, o destaque negativo é para o Rio Grande do Norte, onde 28% dos cargos de confiança são ocupados por parentes de magistrados. São 400 cargos, dos quais 115 preenchidos de forma irregular. Desses, 69 garantiram a permanência por liminar. O presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargador José Jurandir de Lima, disse que vai cumprir a norma do CNJ. Mas, para ele, o fim do nepotismo teria de ser imposto por lei. A Assembléia Legislativa do estado ajuizou uma das ações no STF contra a resolução: "Não sou contra o fim do nepotismo".

Nos tribunais superiores, há nove casos de nepotismo. No Superior Tribunal de Justiça, cinco parentes de magistrados e de diretores têm cargo de confiança. A ministra Eliana Calmon vai analisar os casos e disse que demitirá aqueles que se enquadram na resolução até terça-feira. No Tribunal Superior do Trabalho, há quatro parentes de diretores em cargos de comissão.

O cumprimento da resolução abriu um cisma na magistratura brasileira, opondo os juízes de primeiro grau aos colegas de segunda instância. A briga pode provocar uma ruptura na representação de classe, com a criação de uma entidade destinada a defender os interesses dos desembargadores, muitos dos quais interessados no descumprimento da medida, à revelia da AMB. Uma de suas filiadas, a Associação dos Magistrados do Piauí, criou uma primeira fissura ao entrar com um pedido de liminar, em nome de seus desembargadores, pela manutenção do nepotismo naquele estado.

 

         

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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