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CRUZ
DAS ALMAS - O lançamento da pedra fundamental da Universidade
Federal do Recôncavo Baiano (UFBR), uma solenidade feita para o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciar a sua campanha à
reeleição na Bahia, terminou ontem provocando uma saia-justa para o
presidente, em Cruz das Almas, no recôncavo baiano.
Convidado para falar em nome da classe estudantil, o aluno do curso
de agronomia, Jason Ferreira, acabou fazendo mais críticas ao
governo federal e à situação das instalações da nova universidade do
que os organizadores do evento previam. Lula tentou minimizar a
contundente indignação do jovem dizendo que os problemas seriam
solucionados. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, na hora de
discursar, saudou os estudantes dizendo que eles "puxavam a brasa
para a própria sardinha, coisa típica da juventude". Mas o estrago
já estava feito.
Jason
Ferreira foi ovacionado por grande parte do público presente na
Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia, prédio que
deve funcionar como a sede da UFRB. Ele começou sua fala agradecendo
a emancipação da faculdade para uma universidade multicampi, com
unidades em outras cidades da região, proposta do ex-senador Waldeck
Ornelas, do PFL.
Depois de ganhar confiança com os aplausos dos colegas, Ferreira
começou a apontar, na frente do presidente, que foi a Cruz das Almas
lançar a pedra fundamental da universidade, a série de deficiências
que não foram solucionadas antes dele tentar capitalizar a idéia.
"Nossa instituição tem sérios problemas estruturais. Na parte
física, as instalações elétricas estão degradadas. As máquinas
agrícolas são sucateadas, a segurança é precária e a prática de
esportes, inexistente", disparou o estudante. Os militantes
petistas, que compareceram para fazer número e aplaudir Lula,
ficaram atônitos. Enquanto isso, os alunos da Escola de Agronomia
deliravam, com gritos e aplausos. Alguns deles chegaram a levar
faixas com os dizeres: "Presidente, nós, estudantes, queremos ser
ouvidos".
Com o
discurso, de menos de 10 minutos, Jason Ferreira conseguiu estragar
os planos dos petista baianos. "Queremos uma reforma universitária
democrática e socialmente referendada", bradou, criticando o projeto
de reforma universitária do governo de Lula. Ele também cobrou
assistência médica e odontológica para os alunos, e a liberação de
vagas na Residência Universitária em Cruz das Almas, atualmente
ocupada por professores. "Tudo isso tem provocado a desistência dos
estudantes", afirmou Ferreira.
O
ministro da Educação, Fernando Haddad, ouviu constrangido todo o
discurso do jovem e, na sua fala, disse que iria subscrever todas as
palavras do estudante. Ele apenas se recusou a aceitar a proposta de
expulsão dos professores para a entrada de alunos na residência
universitária. "O que precisamos fazer é criar novas vagas para
todos". O ministro Gilberto Gil tentou minimizar as críticas dizendo
que "puxar a brasa para a própria sardinha é coisa típica da
juventude".
No
momento em que tomou a palavra, Lula disse que iria falar pouco,
"até porque, toda vez que eu falo, um partido entra com um processo
contra mim, dizendo que eu estou fazendo campanha". Ele procurou
justificar as reclamações de Jason Ferreira garantindo que verbas
totalizando R$4,5 milhões devem ser liberadas este mês justamente
para sanar esses problemas. "Não tem sentido fazer uma universidade
nova com as instalações totalmente deterioradas", reconheceu.
Só
que as reprimendas dos discentes não foram as únicas exibidas
durante a passagem do presidente por Cruz das Almas. Entre as quase
cinco mil pessoas presentes à solenidade, alguns integrantes do
Sindicato do Fumo levaram uma faixa em tom de questionamento: "Lula,
você está na terra do fumo e como vão ficar os 110 mil empregados?"
A presidente do sindicato, Josenita Souza Salomão, reclamou do
aumento de impostos para os produtores do setor e disse que os
trabalhadores também precisavam de benefícios.
De
forma indireta, Lula respondeu ao questionamento dizendo que a
cidade de Cruz das Almas "além de exportar tabaco para o mundo, vai
exportar a inteligência do povo baiano, vai exportar o conhecimento
do povo baiano, e é isso que vai mudar a cara desta região"".
Já o
empresário André Dias, 65 anos, carregou uma réplica de um charuto
com quase 2m para chamar a atenção do presidente. Ele também levou
uma caixa de charutos que batizou como "Dom Lula". "Eu quero que ele
fume charuto baiano e não cubano. É preciso fazer propaganda do
nosso produto e gerar emprego para os baianos", pediu. |