A maior prova do envolvimento de
ambos, PT e oposição nos malfeitos que a CPI dos Correios apura
é o fato de as partes se reunirem para negociar a versão do
relatório final da comissão que irá prevalecer. Alguém já viu um
inquérito ser objeto de acertos, exceto quando o investigador é
corrupto?
Ora, uma investigação lida com
indícios, testemunhas, provas materiais, confissões, etc., logo,
dentro daquilo que é apurado não há espaço para se deixar de
mencionar este ou aquele fato ou pessoa. Tal prática, se
admitida, leva o nome de prevaricação.
Após nove meses de gestação, com
exames de documentos, oitiva de testemunhas – de resto inúteis,
porque desobrigadas pelo Supremo Tribunal Federal de dizerem a
verdade -, chega-se a esta ridícula situação de seus integrantes
negociarem a verdade.
O relator, deputado Osmar
Serraglio (PMDB-PR) “resolveu” que irá aceitar (a pedido do PT)
pedir o indiciamento do banqueiro Daniel Dantas. Quer dizer
então que se criou um motivo para pedir seu indiciamento, um ato
de exceção, a bem dizer, ou havia uma razão, conscientemente
desconsiderada pelo relator?
Dentro de seu pacote de bondosas
concessões, Serraglio também disse que vai tirar do relatório a
menção à filha do ex-ministro Jacques Wagner. Ela trabalhou na
empresa GDK, aquela que trabalha para a Petrobrás e presenteou o
ex-secretário do partido dos Trabalhadores, Sílvio Pereira, com
um Jipão importado Land Rover.
A reunião de negociação ganha ares
de comicidade por ser presidida pelo presidente do Senado, Renan
Calheiros (PMDB-AL), que não faz parte da CPI, mas isto é apenas
um insignificante detalhe, num convescote onde o importante é
agradar a todos (menos o eleitor; para este o verbo é enganar).
Os petistas usam e abusam de sua
cota de negociação nesta peça de teatro, querendo impor um
relatório paralelo isentando de indiciamento José Dirceu e Luiz
Gushiken, e afirmando que não houve nenhum Mensalão. Assim como
as oposições, o pessoal do PT também faz concessões à parte
contrária, subvertendo ou omitindo a verdade em benefício do
PMDB, entre outros.
O presidente da CPI, senador
Delcídio Amaral (PT-MS) recomenda cuidado nestas, digamos,
tratativas, pois “infelizmente, nossa imagem (do parlamento) já
está no chão. Seria mais sábio e honesto dizer que está já no
subsolo. Diz ele ainda que “não é possível não termos um
relatório final”.
É possível sim, senador, a CPI do
Mensalão terminou sem relatório e a CPI da Terra teve o seu
rasgado em plenário,
Ora, sem surpresas, já estamos,
nós, eleitores, acostumados e não será nenhuma sandice afirmar
que esta comissão – em que pese a sua longevidade – não apurou
boa parte das tramóias praticadas e indubitavelmente protegeu
muita gente.
Não fosse assim, não haveria esta
vergonhosa reunião de conciliação e negociação da verdade.
Quando este artigo tiver sido
publicado, certamente suas excelências já terão chegado um
acordo, um acordão, melhor dizendo, fruto do qual, entre mortos
e feridos, os figurões salvaram-se quase todos.
Luiz Leitão
Administrador e articulista,
Brasil