Mal escapou à cassação de seu
mandato, o honrado deputado José Mentor já se envolve –
ou é envolvido – em outra confusão; desta
vez
bem mais substanciosa, o dobro dos 120 mil, digamos aí,
num arredondamento camarada.
José Mentor (PT-SP)
teria recebido R$ 300.000 para tirar o nome do doleiro
Richard Andrew de Mol Van Otterloo do relatório final da
CPMI do Banestado. Mentor foi o relator dessa CPI, que
não concluiu, logo, (nosso) dinheiro jogado no lixo,
certo?
Aí deve passar pela
cabeça da leitora, como passa pela minha, que se houve
um acobertamento, até barato, pelos padrões, pela tabela
de preços vigente no mercado da corrupção, há de ter
havido vários outros, incontáveis, dada a enormidade de
valores envolvidos nesta momentosa CPI : US$ 150 bilhões
(bilhões, repito).
E por que as coisas
são assim; acaso nós, brasileiros somos coniventes? Não!
Preguiçosos ou desorientados, talvez.
Todos sabemos que suas
excelências praticamente só legislam em causa própria ou
de terceiros. Mas isto quer dizer que somos seus reféns?
O que precisamos fazer
para que um deputado, senador, vereador, qualquer
brasileiro detentor de poder político sofra as
conseqüências de seus malfeitos, como ocorreu com o
ex-deputado americano Randy Cunninhgaham, acusado e
condenado a oito anos e quatro meses de prisão pelo
crime de recebimento de propinas no valor de 2,4 milhões
ao longo que quinze longos anos. Aliás, vai ter de
pagar imposto de renda pelos “proventos” recebidos.
Saiu da Corte
diretamente para a prisão, tendo-lhe sido negado o
pedido de ver sua mãe de 91 anos. Randy sofre de câncer
na próstata, mas lá não é o Brasil, onde um apiedado
ministro do STF mandou soltar Paulo Maluf, que “estava
doente” – e logo depois foi visto tomando cerveja em
Campos de Jordão-SP.
Lá nos EUA as leis são
cumpridas, não há espaço para Mentores, Malufs,
Quércias e tantos outros que enojam a nossa política. Lá
impera a lei, com suas imperfeições, as pessoas podem
portar armas, mas se matarem sem ser em legítima defesa,
é pena de morte, sem conversa, a depender da unidade da
federação. Ou isto, a prisão perpétua.
E por que estes
picaretas que dizem nos representar não vão presos? Por
que pagam advogados milionários, influentes – isto não
funciona nos EUA – e porque fazem as leis à sua imagem e
semelhança.
Quão difícil é mudar
este estado de coisas? Refundar o Estado? Exigir, como
disse o ministro do STF, que se acabe com o foro
privilegiado, bem como com a imunidade parlamentar, ao
menos para crimes ditos “comuns”.
Os três poderes estão
podres, exalam o mau cheiro da corrupção, do
acobertamento e da conivência. Há dois Brasis: o dos
poderosos e o dos eleitores, que ironicamente lhes
conferem o poder do qual abusam ser qualquer cerimônia.
Não queremos um Brasil
Orwelliano (referência ao livro A Revolução dos Bichos,
de George Orwell, onde o autor chega à conclusão de que
todos são iguais, porém, uns são mais “iguais” que os
outros). Nos EUA até pode ser um pouco assim, mas não
neste nível.
O ponto ao qual
chegamos parece de não-retorno, mas isto não existe,
sempre há um caminho de volta, basta girar 180 graus e
retorna-se ao ponto que se desejar.
Donde a leitora
cogitará: qual é forma mágica deste cara? União, talvez.
Repúdio, Inconformismo, adesivos nos carros, marchas,
como em Paris, onde o governo voltou atrás.
Parlamentares precisam
aprender, nem que seja a ferro e fogo, que trabalha,
quando o fazem, em benefício de todos, não podem advogar
para si, seus parentes, doadores de campanha e amigos.
Talvez eu esteja até
exagerando aqui em relação aos EUA, mas que as coisas
são bem mais duras por lá, isto são. No dia em que um
poderoso político for em cana por 8 anos, poderemos
dizer que o país mudou.