A
procuradoria da República do Estado do Piauí entrou com uma
ação na Justiça para que homossexuais possam doar sangue.
Num país em que geralmente há carência de doadores em várias
épocas do ano, e onde este ato de altruísmo é restrito a
menos de dois por cento da população, temos um bom debate,
que, todavia, não deveria ocorrer nas barras dos tribunais
porque nem juízes, nem procuradores têm conhecimentos
técnicos para decidir sobre o assunto.
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, o procurador da República
Tranvanvan Feitosa acha discriminatória e inconstitucional –
talvez por ferir o princípio de igualdade, de resto já tão
machucado pelos mais iguais, como nossos políticos – mas a
questão é mais complexa, não mais se resume a grupos de
risco, um conceito ultrapassado. Bissexuais constantemente
transmitem o HIV (AIDS), a hepatite e outras DST (Doenças
sexualmente transmissíveis) a suas mulheres, ou estas a seus
parceiros.
Pelo extenso questionário da ANVISA, a que todo candidato a
doador é submetido, quem socorreu algum acidentado está
temporariamente impedido; e bombeiros, socorristas, o
pessoal do resgate, estão permanentemente impedidos.
Cirurgiões, instrumentadores, enfermeiros, dentistas, também
estão expostos, ainda que minimamente.
Pelo antigo conceito, este seria um grupo de muito maior
risco do que o dos homossexuais e bissexuais ou
heterossexuais.
Dois infectologistas têm opiniões opostas a respeito do
assunto, sendo Caio Rosenthal, pelo que se depreende de suas
declarações, a favor do fim da proibição, enquanto David Uip
é pela manutenção. O que dirá o professor Dalton Chamone,
que preside a Pró-Sangue?
A
discussão teve início com uma representação do grupo GBLT
(Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) haver sido
protocolada no Ministério Público Federal. O procurador pede
o fim das perguntas sobre o comportamento sexual do doador,
mas um contato com prostitutas pode, sim aumentar o risco,
muito mais do que com homossexuais.
Tranvanvan alega que antes da utilização o sangue é
submetido a todos os testes possíveis, não se justificando a
verdadeira devassa feita à vida pessoal do doador. Uma
verdade somada a um exagero retórico, porque o que o
representante do MP talvez não saiba, é que existe a chamada
janela imunológica, um período durante o qual os vários
vírus sexualmente transmissíveis são indetectáveis pelos
atuais exames, variando o lapso de tempo de uma patologia
para outra.
Por
exemplo, quem esteve em local de ocorrência de malária está
temporariamente impedido (ao menos esta pergunta me é feita
todas as vezes que dôo sangue), donde se conclui que nestas
regiões, pelas regras da ANVISA, não pode haver coleta de
sangue, ele teria de ser “importado” de outros Estados.
Como tudo tem um lado bom, esta iniciativa do grupo GBLT é
altamente positiva porque mostra que é um grupo preocupado
em fazer o bem, e deve ser desagradabilíssimo ser impedido
de ajudar a quem precisa tanto; e traz o assunto doação
novamente à tona.
Donde se conclui que este não é um assunto para ser
resolvido por juristas, mas sim por um grupo de
infectologistas. Que, aí sim, poderiam subscrever uma ação
pública contra a resolução da ANVISA. Observe-se que muito
mais que a ANVISA, entende do assunto a fundação Pró-Sangue,
que atende a 300 hospitais e é referência em tecnologia de
hemocentros na América Latina
www.prosangue.sp.gov.br
E
aproveitando o momento, deveria o procurador peticionar à
Justiça para que seja obrigatória a menção do tipo sanguíneo
em todos os documentos oficiais de identidade, como RG,
carteira de motorista, identidades emitidas pelos conselhos
regionais de todas as profissões, identidade funcional de
policiais e militares, etc.
Por
um motivo muito prático: quando um acidentado dá entrada num
pronto-socorro, se não houver tempo de fazer o exame de
tipagem sanguínea, administra-se o tipo universal, que é
raro. Ora, havendo já a identificação do tipo sanguíneo, já
se faz a transfusão do tipo certo, facilitando-se o trabalho
dos médicos e a administração dos bancos de sangue.
Torne-se você também, leitor, um doador habitual.
Luiz Leitão
Articulista e doador há dez anos.