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04-05-2004 - Carne de jumento deve virar comida na Europa e Ásia

 


Da Agência Folha

Após ter sido substituído, pelo sertanejo, por bicicletas e motos, o jumento também vai virar comida de estrangeiros. Um frigorífico instalado no interior do Ceará aguarda apenas uma autorização do Ministério da Agricultura para começar a abater e exportar a carne do animal para cinco países da Europa e da Ásia.

Segundo um dos donos da Pampa Agro-industrial, Elimárcio de Bastos Belchior, 28, nada do que for abatido ficará no país. "Não é da cultura do brasileiro comer carne de jumento. Se você for na minha casa, mesmo, eu vou servir carne de gado ou de porco, porque, como todo brasileiro, não fui acostumado a comer outro tipo de carne. Mas em países como Japão e Bélgica a carne de eqüino é muito bem aceita."

Belchior afirma que não terá um criatório de jumentos para o abate. Os animais serão os apreendidos na beira de estradas nos Estados do Nordeste. Só no Ceará, o Dert (Departamento de Edificações, Rodovias e Transportes) apreende entre 800 e mil jumentos por mês. A capacidade do frigorífico, instalado no município de Santa Quitéria (250 km de Fortaleza), é de 3.000 animais por mês.

O frigorífico já foi inspecionado pelo Ministério da Agricultura, como informou nesta terça-feira (4) a Delegacia Federal da Agricultura no Ceará, e o registro no SIF (Serviço de Inspeção Federal) deve sair ainda neste mês.

Com isso, todo o abate terá o acompanhamento permanente de um veterinário do ministério, que fará a inspeção desde a chegada dos animais. O Centro de Zoonozes do Estado também deverá fazer a inspeção dos jumentos apreendidos.

MASSACRE - Há um ano, a Comissão do Meio Ambiente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) do Ceará e a Uipa (União Internacional Protetora dos Animais) denunciaram a tortura e o massacre de jumentos apreendidos pelo Dert, no interior do Estado.

Segundo publicado na Folha de S.Paulo no ano passado, os animais seriam enterrados ainda vivos, depois de passar uma semana sem comer nem beber nada. O Dert negou as acusações, na época.

Foi ao saber do massacre de jumentos que Belchior teve a idéia de tirar sua empresa de Minas Gerais, onde já atuava no abate de eqüinos há dois anos, e se transferir para o Ceará, o que ficou ainda mais atraente pelos incentivos fiscais e pelo apoio oferecidos.

O abate de eqüinos no Brasil para exportação não é novidade. Empresas no Rio Grande do Sul e no Paraná atuam na área, mas o cavalo era o animal até então mais usado. A principal utilização da carne de jumento é na fabricação de embutidos, como salsichas, lingüiças e mortadelas, mas também pode ser preparada como a carne bovina, cozida, em filé ou assada. "O sabor é um pouco diferente, mais adocicado", disse o empresário.

Em termos nutricionais, Belchior afirma que o jumento não é uma carne "light" e que não apresenta vantagens em relação ao boi. "O teor de gordura é equivalente." Duas nutricionistas procuradas pela reportagem não souberam falar sobre esse tipo de carne, por não ser comum nos hábitos alimentares do Brasil.

Culto Se, por um lado, o jumento vem sendo desprezado pela sua falta de utilização no cotidiano do sertanejo no Nordeste, por outro, o culto ao animal ainda existe em alguns locais.

Um exemplo acontece na cidade de Panelas, na região do agreste de Pernambuco. Conhecido na cidade como jericó, o jumento é homenageado há 30 anos em um festival, que acontece todos os anos. Até um "jericódromo" é montado, na principal avenida do município, para a corrida de jumentos, que chegam a 80 quilômetros por hora.

A mais famosa homenagem ao jumento, porém, foi feita no Ceará pelo padre Antônio Vieira, morto em 2002. O padre escreveu o livro "O Jumento, Nosso Irmão", que chegou a ser traduzido para o inglês, e criou o Clube Mundial do Jumento.

 

Fonte: Agência Folha

Os assuntos assinados são de responsabilidade dos  autores.

   

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