Tribo na rede
14/09/2003

Tudo fica mais longe na época de seca nos rios da Amazônia. Uma viagem de
poucas horas se transforma em dias. É como se fosse uma estrada cheia de buracos
e atoleiros.
Os troncos submersos escondem raias venenosas que podem trazer semanas de
febre. Todo o trabalho vai conectar duas tribos da Amazônia à internet. É o
início do projeto "Rede Povos da Floresta" que pretende interligar aldeias
indígenas de todo Brasil pelo computador.
Na aldeia dos Yawanawa, técnicos e especialistas recebem as boas-vindas. O
espírito de equipe dos índios surpreende técnicos e engenheiros do projeto.
Todos ajudam nas tarefas da aldeia.
Baterias solares vão alimentar o computador. Cada dia de sol gera energia
suficiente para quatro horas de eletricidade. Aos poucos, eles montam a antena
que vai conectar o computador à internet.
"Isso daqui vai trazer o sinal que vem do satélite. Aí dali o senhor consegue
falar com todas as aldeias", explica o técnico para o pajé.
Momento de expectativa na aldeia. O computador foi ligado, mas ainda não está
conectado à internet. A pintura não é de guerra, é de festa. Cada menina escolhe
seu par, o que deixou muito homem branco sem graça.
"Para vocês, como técnicos, vejo uma coisa pequena ainda... Inauguramos um
sistema numa comunidade. Mas nós temos um olhar muito maior. Você está dando um
instrumento para o fortalecimento do povo indígena nesse país", observa Ixiúca,
membro da liderança Yawanawa.
Hora de partir. O grupo vai para outra aldeia, pertinho da fronteira com o
Peru. Lá, eles vão instalar a internet em uma tribo de costumes diferentes.
"A navegação no rio está melhor, tem menos madeira...", constata o técnico em
informática Vilarindo Almeida.
Foi só falar e aparece um tronco gigantesco atravessado. No final do dia,
eles chegam à aldeia dos Ashaninka. A recepção não foi das mais calorosas. O
café da manhã é bem reforçado: muita carne de paca e outros bichos bem
conhecidos da floresta.
Povo guerreiro, os Ashaninka são descendentes dos Incas, uma civilização
antiga que vivia na América do Sul. Muitas aldeias Ashaninka estão no lado
peruano. A roupa é feita de algodão que eles mesmos plantam, e leva até três
meses pra ser feita.
A caiçuma, bebida alcoólica feita de mandioca, está sendo preparada em grande
quantidade para comemorar a chegada da internet na aldeia. Quase tudo pronto.
Todos querem ver o momento histórico. Mais um computador ligado, mais uma noite
de festa na aldeia global.
"A gente quer aprender toda essa tecnologia que está chegando à nossa aldeia
para ter esse mundo de comunicação. Porque para nós é muito importante saber o
que está acontecendo lá fora e transmitir o que estamos vivendo aqui também",
diz o membro da liderança Ashaninka, Denki Pinhanta.