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Acusado de queimar e matar o menino Lucas Terra,
religioso senta no banco dos réus na segunda-feira
GERSON DOS SANTOS
Sílvio Roberto dos Santos Galiza, pastor da Igreja Universal do Reino de
Deus, denunciado há mais de três anos pelo assassinato do adolescente
Lucas Vargas Terra, 14 anos, vai a júri popular nesta segunda-feira. O
pastor é acusado de pedofilia e de ter queimado vivo o adolescente
Lucas, na madrugada do dia 22 de março de 2001.
O julgamento acontece por decisão do juiz Cássio Miranda, da 2ª- Vara do
Júri, após ter recebido do Ministério Público o libelo acusatório –
exposição articulada daquilo que se pretende provar contra um réu – em
que Galiza é acusado de homicídio triplamente qualificado.
O julgamento acontece no Salão do Júri, no Fórum Ruy Barbosa, a partir
das 8h30. Se condenado, Galiza pode cumprir pena de até 30 anos de
prisão em regime fechado, ante a gravidade e circunstância do crime.
Além do motivo torpe, o assassino utilizou o emprego de fogo para
executar o que planejava e impossibilitou a vítima de se defender: antes
de morrer, o garoto foi amarrado e amordaçado.
JUSTIÇA – O pai de Lucas, Carlos Terra, disse que finalmente
agora verá justiça no caso da morte do filho. Alegou que não agüentava
mais sair à rua e cruzar com o assassino. “Por diversas vezes tive de me
conter ante o olhar cínico e de indiferença do assassino do meu filho.
Fazia questão de passar por mim, mostrando uma ar de arrogância em seu
rosto, como se quisesse afirmar que nada lhe aconteceria, apostando na
impunidade”.
“Eles tomaram tudo de mim: casa, carro, emprego, e, por último, meu
filho”. O desabafo foi feito pela empresária Marion Terra, mãe de Lucas,
a qual pode resumir todo o sofrimento da família durante todos esses
anos.
Carlos Terra disse que a mulher perdeu a alegria de viver. “A dor dela
não é menor que a nossa, mas entendemos que a sua perda foi ainda mais
terrível. Foi ela quem o ensinou a dar o primeiro passo, deu-lhe a
primeira mamadeira e o colocou no colo tantas vezes para fazê-lo dormir
ou parar de chorar... a dor da ferida no coração dessa mãe não vai
passar nunca mais”, disse o pai de Lucas.
“Depois da perda de nosso filho, eu e Marion nos tornamos pessoas
amarguradas. Mas o peso do sofrimento dela acabou atingindo toda a
família. Cada dia que passa parece uma eternidade em nossas vidas. A
possibilidade de que a justiça dos homens agora seja feita, retirando-o
para sempre do convívio da sociedade, será um alívio para todos nós”,
acrescentou.
ILUSÃO – A mãe de Lucas, nos poucos momentos que fala sobre o
assunto, conta que freqüentava a Igreja Universal do Reino de Deus no
Rio de Janeiro e que foi iludida, dando tudo que tinha, a título de
dízimos para a “fogueira santa do Monte Sinai” e outras reuniões da
“prosperidade”, realizadas pela igreja.
“De média empresária, fui obrigada a me tornar uma cozinheira no
restaurante de minha amiga na Itália, para tentar sobreviver. Para tomar
esta decisão, praticamente me separei de minha família. Meu marido e
meus filhos vieram morar em Salvador. Estávamos fugidos, diante das
dívidas que constituímos. Quando Lucas foi assassinado estava na
Itália”, disse Marion.
Algumas frases retiradas do diário de Lucas pelo pai revelam a
influência da igreja sobre a mente adolescente do garoto: “Não posso
passar um dia sequer sem evangelizar, preciso ganhar almas para Jesus,
pois, quando Ele voltar não posso estar de mãos vazias”, “Sou feliz
porque tenho Jesus. Vivo para Cristo e morrer por ele é lucro”. O maior
sonho de Lucas, disse o pai, era ser obreiro e pastor. Fato que teria
registrado através de correspondência enviada aos pais.
“Continuo com a minha fé. Sou cristão, mas não participo de nenhuma
Igreja. Minha mulher deixou a Universal. Ela que chegou a vender um
carro para contribuir com essa Igreja e, no momento que mais precisou,
não recebeu nenhuma palavra de apoio. Pelo contrário, todas as vezes que
procuramos a Igreja Universal fomos destratados”, desabafa Carlos Terra.
Galiza, apesar de ter a prisão preventiva decretada, nunca foi preso.
Durante todo tempo negou ter cometido o crime. Após o assassinato, a
igreja se incumbiu de transferi-lo para São Paulo, onde ficou por um
longo período, Retornou a Salvador apostando na impunidade.
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