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Operação gafanhoto:
Entenda o esquema de desvio de verbas públicas
em Roraima

O Globo
Globonews.com
BRASÍLIA E BOA VISTA - Resultado de uma
investigação conjunta do Ministério Público
Federal e da Polícia Federal que começou durante
as eleições de 2002, a Operação Praga do Egito,
ou Operação Gafanhoto, desbaratou um esquema
envolvendo políticos de Roraima acusados de
desviar cerca de R$ 500 milhões de recursos
públicos. No dia 27 de novembro, a PF prendeu o
ex-governador do estado Neudo Campos e mais 40
pessoas.
Neudo é acusado de chefiar um grupo de
parlamentares, ex-parlamentares e funcionários
públicos que forjaram contratações e estavam
recebendo salários mensais em nome de
aproximadamente seis mil servidores laranjas ou
fantasmas, conhecidos no estado como gafanhotos.
Pelo relatório da PF, cada parlamentar tinha
direito de simular a contratação de servidores
em valores que iam de R$ 21 mil a R$ 48 mil. Na
lista de presos ou procurados estão também
parentes e funcionários de gabinetes de 18 dos
24 deputados estaduais.
Na fase final do golpe, alguns parlamentares
chegaram a receber R$ 250 mil mensais. Os
salários eram sacados, com uso de procurações,
por testas-de-ferro de políticos. Segundo a PF,
os seis mil laranjas que o grupo chegou a
incluir na folha de pagamento representam 2% da
população do estado. Até índios que vivem
reclusos em aldeias foram cooptados pela
organização. O esquema teria funcionado a todo
vapor entre 1988 e 2002.
A Polícia Federal e o Ministério Público Federal
reuniram provas de que os donos da Nsap, empresa
privada encarregada de fazer os pagamentos ao
funcionalismo em Roraima, tinham autorização
para movimentar as contas oficiais do governo do
estado. O esquema, que começou na gestão do
ex-governador Neudo Campos, foi mantido pelo
atual governador, Flamarion Portela (PT). Na
gestão do petista, o secretário de Fazenda,
Jorci Mendes de Almeida, manteve a
irregularidade.
Flamarion Portela já admitiu que sabia do
excesso de funcionários em seu estado durante a
administração do ex-governador Neudo Campos, do
qual ele era vice, mas negou envolvimento na
fraude. Flamarion disse que sabia "de forma
superficial" de que havia algo errado na folha
de pagamento, mas desconhecia a dimensão do
esquema. Flamarion Portela filiou-se ao PT no
dia 18 de março, num ato que teve a presença do
chefe da Casa Civil, José Dirceu, do presidente
da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), do
presidente do PT, José Genoino, e de líderes
partidários.
Jorci de Almeida, exonerado por Flamarion depois
das denúncias, disse que fazia pagamentos de
funcionários em dinheiro para evitar que os
funcionários descontassem CPMF. Flamarion
assegurou que o contrato com a Nsap foi rompido
em abril. Para o delegado Júlio César Baida, da
PF, só a desculpa de sonegação da CPMF já
caracteriza a confissão de um crime fiscal.
Segundo o delegado, o contrato com a Nsap não
foi cancelado em abril de 2003, como disse o
governador, mas apenas no dia 18 de junho.
De acordo com o inquérito, Oscar Maggi e Edson
Hispagnol, donos da Nsap, assinaram cheques para
sacar dinheiro das contas oficiais e pagar
compras em lojas de Boa Vista em valores que
normalmente chegavam a R$ 80 mil ou R$ 100 mil,
sem qualquer comprovação da despesa, sem
processo de licitação ou tomada de preços. Com
um outro cheque, os donos da Nsap - que depois
passou a ser chamar Amazon Service Bank -
sacaram R$ 1,2 milhão da conta oficial do
estado. A explicação oficial é de que a verba
foi usada para pagar a servidores, mas até agora
não foi apresentada comprovação. Os delegados e
os procuradores já sabem que parte dos recursos
desviados pela Nsap era proveniente de repasses
federais para obras no estado.
O ex-governador e os demais acusados tiveram
seus bens bloqueados por ordem do juiz Helder
Barreto, da 2ª Vara Federal de Roraima. Segundo
a PF, o bloqueio é uma medida preventiva para
garantir o ressarcimento dos prejuízos aos
cofres públicos, caso os integrantes da
organização sejam condenados.
Não é a primeira vez que o ex-governador Neudo
Campos é alvo de investigações envolvendo
denúncias de desvio de recursos do estado. Em
1998, então candidato à reeleição, Neudo Campos
teve sua campanha abalada pela divulgação de
escutas telefônicas clandestinas que revelavam
detalhes de como parentes e integrantes do
primeiro escalão de seu governo montaram suposto
esquema para usar dinheiro público na eleição.
O escândalo foi investigado pelo Ministério
Público Federal, mas Neudo Campos acabou
conseguindo se reeleger. O desvio denunciado na
época seria por intermédio da Companhia de
Desenvolvimento de Roraima (Codesaima). Um dos
envolvidos era o então secretário de Fazenda,
Roberto Leonel, e a chefe do Gabinete Civil,
Cilene Salomão, acusada de articular operações
de triangulação e distribuição do dinheiro para
a campanha.
Nove dias antes da prisão de Neudo Campos,
Flamarion Portela mandou carta ao presidente do
Supremo Tribunal Federal (STF), Maurício Corrêa,
dizendo-se vítima de ameaças de morte por parte
de policiais civis. Segundo o Ministério Público
Federal, Flamarion também estaria envolvido no
escândalo dos gafanhotos. Corrêa disse que
remeteu a denúncia do governador ao Ministério
da Justiça. Segundo a carta de Portela a Corrêa,
o motivo das ameaças é o concurso público para a
contratação de nove mil servidores. Cerca de 80
mil pessoas se inscreveram. Policiais que não
passaram no concurso teriam ameaçado o
governador e sua família
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