Gripe do frango em aves
migratórias preocupa o Brasil

Denize Bacoccina
de São
Paulo
O
governo brasileiro está preocupado com a
possível entrada da gripe do frango –
influenza aviária – no país por meio de aves
migratórias.
"Temos
uma costa muito grande, e aves migratórias
são um dos principais veículos desse vírus",
disse o gerente do Programa Nacional de
Sanidade Avícola do Ministério da
Agricultura, Egon Vieira da Silva.
Vieira
da Silva disse que é possível garantir, no
entanto, que as aves das granjas são seguras
e totalmente livres da doença. "O que a
gente pode falar é que o frango brasileiro é
seguro para a população", afirma o
veterinário.
O risco
das aves migratórias, segundo ele, é que
elas saem do Ártico no inverno do hemisfério
norte e migram para regiões mais quentes,
como a América do Sul ou a Ásia. Quando
voltam para o Ártico, na época de
reprodução, podem se contaminar e trazer a
doença para o Brasil da próxima vez.
Controle
A
transmissão para os aviários também
preocupa, mas é mais fácil de controlar, na
avaliação de Vieira da Silva. "Impossível
(que a doença entre no país) não é, mas
estamos tomando os cuidados e as medidas
necessárias para prevenir", afirmou.
"Mesmo
aves de fundo de quintal passam a ser um
risco", afirma o gerente do Programa
Nacional de Sanidade Avícola.
O Brasil
já suspendeu, desde a semana passada, a
importação de aves vivas, produtos e
subprodutos de frango dos países onde a
doença já foi registrada. Até esta
segunda-feira, eram oito países – Japão,
Coréia do Sul, Vietnã, Tailândia, Cambodja,
Taiwan, Hong Kong e Indonésia.
O
Paquistão, onde a doença foi encontrada
nesta segunda-feira, também deve entrar na
lista. Segundo Vieira da Silva, a proibição
é automática à medida em que a notificação
de presença da doença no país é feita à
Organização Internacional de Saúde Animal.
A
criação de uma rede de informações e a
mobilização de todos os produtores a
qualquer suspeita é fundamental para o
controle rápido da doença, caso ela apareça,
na avaliação do presidente da Associação
Brasileira dos Exportadores de Frango (Abef),
Julio Cardoso.
"Esse
foi o problema da Tailândia. Eles tentaram
negar e a doença fugiu do controle",
criticou. Mas Cardoso não acredita que isso
possa acontecer no Brasil. "O Ministério da
Saúde está atento e inclusive aumentou os
recursos para esse setor", afirmou.
O
Ministério está realizando, desde novembro
do ano passado, um programa de um ano que
vai colher amostras em aviários de todo o
país, que serão testadas para a doença. "Até
agora não encontramos nada", diz Vieira da
Silva.
O Brasil
nunca teve casos da influenza aviária. Já
teve surtos de outra doença igualmente
perigosa, a doença de Newcastle, também de
notificação internacional compulsória. Um no
Rio de Janeiro, em 2000, e outro no norte de
Goiás em 2001, mas já conseguiu os
certificados de que o país está livre da
doença.
Produtores
Os
produtores brasileiros estão menos
preocupados com a possível chegada da doença
ao país. "A doença está restrita ao Extremo
Oriente", diz o presidente da União
Brasileira de Avicultura (UBA), Zoé Silveira
D'Avila.
Ele
lembra que uma lista enviada pelo Ministério
da Agricultura cita o Chile como o único
país da América do Sul que já teve a doença.
"Mas eles têm ligação com o Oriente pelo
Pacífico. A nossa ligação com aqueles países
é muito pequena", afirma.
Entre as
medidas recomendadas pelo Ministério da
Saúde e divulgadas pela UBA aos associados
estão que se evite a visita de pessoas que
estiveram nos países com surto da doença aos
aviários brasileiros. "Estamos recomendando
até que evitem as visitas de modo geral",
diz D'Avila.
Apesar
de também adotar medidas para evitar a
entrada da doença no país, os produtores
brasileiros esperam ganhar com a epidemia
que atinge os países asiáticos. A Abef refez
a previsão de queda de 7%, por causa do
sistema de cotas estabelecido pela Rússia,
que deixou o país de fora, para um aumento
de 10% este ano.
"O
Brasil é um fornecedor alternativo
importante, porque a nossa carne é segura",
diz o presidente da Abef, Julio Cardoso. Ele
diz que aumentou a procura de compradores da
Ásia e da Europa, que compravam dos
produtores asiáticos que agora tiveram a
exportação proibida.
Exportação
O Brasil
se tornou no ano passado o maior exportador
do mundo em volume financeiro, ultrapassando
os Estados Unidos. Em volume físico, é o
segundo, depois dos americanos, seguido da
União Européia e da Tailândia.
A
exportação brasileira cresceu 20% em volume
físico e 27% em volume financeiro, com
expansão maior da venda de cortes, com maior
valor agregado.
Cardoso,
que também é executivo do frigorífico Seara,
o terceiro maior produtor de frango do país,
diz que a procura aumentou a partir da
divulgação de casos do mal da vaca louca nos
Estados Unidos, em 24 de dezembro do ano
passado.
Ele não
teme, no entanto, uma redução do consumo
interno ou mesmo internacional por causa da
gripe do frango. "Até agora, o que se falou
foi da transmissão via contato com o animal
doente, e não com o consumo da carne", diz.
O Brasil
é o quinto país com maior consumo de carne
de frango per capita, com 33,8 quilos por
pessoa. O maior consumidor é Hong Kong, com
uma média anual por pessoa de 43,5
quilos.
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