Por Bob Fernandes
SUPLEMENTO COMEMORATIVO DO GOLPE DE 64
– CAPÍTULO 1 –
NO BRASIL E NO MUNDO, O FBI & CIA.
Confira na edição impressa a entrevista completa com Carlos Costa
Almada, do outro lado do rio Tejo e de Lisboa, duas horas da
madrugada de 31 de março de 1968. No segundo andar de sua mansão,
Antonio da Fonseca Costa, chefe da temível Polícia Internacional da
Defesa do Estado, a PIDE, do ditador António de Oliveira Salazar,
sacode o filho:
– Acorda, Carlos, acorda, rápido!
Órfão da espanhola Faustina Luengo Mendez, morta por uma leucemia
aos 47 anos quando o filho mal chegara aos 7, Carlos Alberto Costa
se levanta às pressas, assustado.
Carlos não entende por que o pai recolhe alguns poucos pertences
familiares e os amontoa com roupas em duas malas; junto a uma dúzia
de garrafas de vinho do Porto de mais de 100 anos. Com um militar
amigo ao lado, o chefe da PIDE e o filho partem para o aeroporto de
Lisboa. De lá, num avião militar, embarcam para Madri.
Trinta e seis anos depois, na sacada do Iate Clube, em frente à Baía
de Todos os Santos, dia nublado no verão de Salvador, Carlos Costa
recorda-se da última madrugada da sua infância em Portugal, e dos
condutores da fuga:
– Acho que foi a CIA quem nos ajudou até Madri, dias depois fomos
para os Estados Unidos...
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No Palácio do
Planalto.
Em 2002, com o presidente
interino, Mello, do STF |
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O chefe da PIDE havia se tornado um dissidente. Antonio Costa,
que recebia o ditador Salazar para almoços e jantares em Almada ou
em sua casa de campo em Palmela, vizinha a Setúbal, antevia que os
tempos mudariam; não seria possível prosseguir por muito tempo com
seqüestros e prisões a cada vez que um vizinho acusasse outro de ser
comunista ou antigoverno.
Quatro anos depois, em Cumberland, Rhode Island, Estados Unidos,
Antonio da Fonseca Costa morria de câncer, e exaustão; turnos de 12
horas, noites e madrugadas adentro em fábricas de vergalhões, sempre
fumando. Morreu paupérrimo. O filho, Carlos, trabalhou dos 18 aos 20
anos até pagar, ao mesmo tempo em que custeava os estudos, US$ 5 mil
das despesas do funeral.
Por seis meses, no café da manhã, almoço e jantar, Carlos Costa
faria suas refeições à base de um único prato: Corn Flakes e
leite.
Carlos Costa tem hoje os mesmos 49 anos que tinha o pai quando
deixou a PIDE e Portugal. Carlos acaba de se aposentar. De 1999 ao
fim de 2003, foi o poderoso chefe do FBI no Brasil. Como o pai, ao
recusar-se a obedecer a toda e qualquer ordem ele construiu uma
dissidência, agora revelada.
Em 2001, num jantar no restaurante Antiquarius, em São Paulo,
marcado a seu convite e com uma testemunha, Carlos assim se
apresentou:
— Sou o chefe do FBI aqui. Sei o que você tem escrito sobre os
nossos serviços secretos no Brasil, mas saiba que estamos aqui
oficialmente e não vamos agir à margem da lei...
As leis no Brasil, como veremos na devastadora entrevista que se
segue, tornam-se inacreditavelmente elásticas, complacentes, a
partir da ação, ou omissão, por vezes criminosa, do próprio Estado.
Em 16 de dezembro último, procurado por CartaCapital, Carlos
concedeu a primeira de uma série de entrevistas que totalizam oito
horas, a se contarem apenas as gravações, feitas em São Paulo,
Salvador e Brasília.
Em trechos dessa longa conversa, além do surpreendente e raro fato
em si mesmo de um agente de um serviço secreto dos EUA abrir a boca
– ainda mais um chefe do FBI com acesso a documentos classificados
no mais alto nível –, Carlos Costa atira para dentro e para fora do
Brasil.
Ele, que por três anos no governo Fernando Henrique e dez meses no
governo Lula comandou o FBI, e na embaixada dos Estados Unidos
acompanhou ações dos colegas da Drug Enforcement Administration (DEA),
Central Intelligence Agency (CIA), US Customs, NAS e outros
“Serviços”, como se autodenominam os agentes secretos, começa por
dizer, sem meias palavras:
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Black-tie.
Na limusine, em Washington, a
caminho da posse de Bush Jr. com o então prefeito de
Miami, Joe Carollo, e o governador Garotinho. |
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— A vossa Polícia Federal é nossa, trabalha para nós há anos.
(...) Foi comprada por alguns milhões de dólares. (...) Os Estados
Unidos compraram a Polícia Federal...
Carlos, cidadão norte-americano nascido em Portugal, fluente em
inglês e espanhol, fala português com sotaque lusitano. Fonética,
sintaxe e a lógica exata dos portugueses.
Tome-se essa informação em conta na leitura das respostas às
perguntas de CartaCapital sobre a instrução, ordem de
Washington, para que serviços secretos grampeassem o Palácio da
Alvorada e o Itamaraty.
Pela primeira e única vez em muitas horas e dias de conversa, Carlos
Costa, sempre bem-humorado, relaxado, fica tenso. Pára, pensa e,
visivelmente surpreso, responde com uma pergunta:
— Me diga o que você sabe, como soube disso?
A informação é segura. Os Palácios da Alvorada e Itamaraty foram
grampeados a partir de tais ordens. A data, imprecisa, poderia ser
confirmada pelo entrevistado. A tentativa é inútil. Irritado, Carlos
Costa repete:
— Como você soube? O que você sabe sobre isso?
– Da ordem, e do grampeamento feito nos Palácios da Alvorada e
Itamaraty...
Nesse instante, Carlos, com a exatidão lusa e a objetividade
norte-americana, levanta-se da cadeira e dá por encerrada a conversa
naquela noite:
— (...) Não confirmo nem desminto... Sem comentários (...) Não
toco nesse assunto... Ponto final!
Uma última tentativa:
– Foi você quem executou essa ordem? Quando?
— Como você ainda verá na nossa conversa daqui por diante, me
recusei a cumprir ordens bem menos graves do que essa. Boa noite!
Algumas das ordens ele se recusou a cumprir. Sobre uma delas, também
grave, falou claramente, sem rodeios:
— Houve uma determinação de Washington para que eu “monitorasse”
todas as mesquitas, xeques, aiatolás e líderes da comunidade
muçulmana no Brasil e fizesse “listas”. Recusei-me, há ocasiões em
que uma pessoa deve se recusar a cumprir ordens inconstitucionais.
Por outro lado, assegura ele que os atentados contra alvos
israelenses em Buenos Aires, na primeira metade dos anos 90, foram
tramados “dentro do território brasileiro”.
Carlos Costa é um agente secreto com amplíssima e eclética formação.
Na Flórida, na Southeast University, fez um MBA em Gerenciamento de
Empresas, com Especialização em Gestão de Negócios Internacionais.
Em Washington, DC, no Foreign Service Institute (FSI),
especializou-se em assuntos econômicos e sociais de países
latino-americanos. Formado em Ciências Políticas e Relações
Exteriores pela University of Rhode Island, Carlos Costa entrou no
FBI em 1982, numa disputa com 56 mil candidatos por vaga.
No Federal Bureau of Investigation (FBI), como agente especial,
serviu nos escritórios de Boston, Pittsburgh e Miami. Na sede do
FBI, em Washington, foi também chefe de seção de Contra-Inteligência
e Espionagem Industrial Internacional.
No Brasil, ao rastrear ações dos serviços secretos dos Estados
Unidos ao longo dos últimos anos, CartaCapital deparou-se com
a movimentação do então chefe do FBI em reluzentes palácios e
salões.
Como se vê em foto na página ao lado, Carlos Costa esteve na sala do
presidente da República – ao menos quando lá se encontrava,
interinamente, o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Marco
Aurélio de Mello.
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Memória e poder.
Carlos em 82, ao entrar no FBI. |
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No Distrito Federal, Rio de Janeiro, Bahia, Santa Catarina, São
Paulo, Amazonas, Paraná... País afora o chefe do FBI avistava-se com
governadores, ministros, secretários de Estado, comandantes de
polícias militares, secretários de Segurança Pública. Treinou
centenas de homens, mandou dezenas deles aos Estados Unidos, à sede
do FBI, levou Anthony Garotinho – único político brasileiro – à
posse de Bush Júnior.
O ex-chefe do FBI pagava as contas, da mesma forma que, revela ele
em estarrecedoras páginas adiante, a US Customs, DEA, NAS, CIA,
outros “Serviços” e o próprio FBI pagam contas das polícias do
Brasil.
Direto como pode ser um norte-americano, Carlos Costa relata: a
Agência Brasileira de Inteligência (Abin) é uma “pedinte”, e não
apenas dos Estados Unidos.
O Estado brasileiro? Assistiu, assiste, como se tudo corresse na
maior normalidade. É preciso cortar gastos, contingenciar. Então,
que mal há se os Estados Unidos, em troca de acesso total e
controle, “doam” alguns milhões de dólares para as polícias e
instituições verde-amarelas a cada ano?
— E depois vocês querem ser levados a sério? –, pergunta e
responde ao mesmo tempo o ex-chefe do FBI.
Quando atira para fora, Carlos Costa mira na administração Bush. Com
a autoridade de quem chegava a ler e manusear, em média, por semana,
mais de 300 documentos, relatórios e informes Secret e Top
Secret, produzidos mundo e Brasil afora, inclusive pela CIA,
aquele que foi um dos únicos 45 chefes do FBI além das fronteiras
dos EUA assegura:
— Jamais li documento secreto que indicasse a existência de armas
de destruição em massa no Iraque. O que li assegurava o contrário.
Discuti com colegas do FBI e da CIA de qualquer parte do mundo e
concordamos que Bush e Blair buscavam uma justificativa para a
guerra.
Ele fala ainda de outros tempos. De como, nos anos Reagan, os EUA
entregaram o antraz para Saddam Hussein. Conta como, na Guerra das
Malvinas, os Estados Unidos forneciam aos ingleses informações dos
satélites sobre as tropas argentinas enquanto repassavam aos
argentinos a localização de navios ingleses que seriam destruídos.
De passagem, com a lógica exata de sua língua-mãe, e pitadas de
humor britânico, aborda o recente episódio da espionagem a Kofi
Annan, na ONU, e ações também de espionagem contra o governo de Tony
Blair.
Provocado, o ex-chefe do FBI expõe, em detalhes, a interrupção da
ação de terroristas que, há dois anos, trabalhavam para explodir uma
bomba atômica em Washington:
— (...) iam explodir uma bomba suja. (...) não se fez alarde,
isso, se revelado em toda a sua extensão, provocaria pânico na
população americana...
Carlos Costa sabe os riscos que corre ao falar. Enquanto prepara
capítulos de um livro sobre o FBI e sua vida como agente secreto,
toma precauções contra uma “gripe súbita”. E mortal.
Em alguns lugares, com algumas pessoas, estão gravações de, segundo
ele, “muito, muito mais do que falamos, ou deixamos de falar aqui,
fatos que levariam a uma enorme repercussão internacional”. Com o
que já se descortina nas páginas seguintes, é de se imaginar o que
ainda poderia estar por vir.
Às vésperas do 31 de março brasileiro, marco dos 40 anos do golpe
militar e instalação da ditadura que em 21 anos moldou um país ainda
hoje em busca de cacos, e do qual o que se revela nesta entrevista é
uma irretocável alegoria sob diversos pontos de vista, Carlos
Alberto Costa prepara-se para o seu 31 de março.
Como o pai, num 31 de março há 36 anos, ele agora se aparta da
comunidade dos agentes secretos. Deixa os bastidores o treinadíssimo
espião que administrava milhões de dólares no escritório do FBI, um
hábil negociador, e entra em cena o palestrante, consultor em
relações e comércio internacional, em Inteligência e Segurança.
Casado com uma brasileira, pai de um filho brasileiro, o homem que
chefiou o FBI no Brasil por quatro anos, depois de 22 anos como
agente secreto, abre a alma para poder conseguir mudar de vida. Se
assim o “Animal” que ele tão bem conhece – os “Serviços” – o
permitir. Será uma longa, árdua e perigosíssima batalha. Mas há algo
que Carlos Costa nunca mais fez e, jura, jamais voltará a fazer na
vida. Ele nunca mais comerá Corn Flakes.