28/11/2003
Falta comida no centro de
nutrição
Instituição para desnutridos, que há dez
anos atende carentes em Eunápolis, está com
a despensa quase vazia de alimentos
Maria Eduarda Toralles
EUNÁPOLIS (DA SUCURSAL EXTREMO SUL) –
Com a despensa quase vazia, o Centro de
Recuperação de Desnutridos – SOS Vida, que
há dez anos trabalha na recuperação de
crianças desnutridas na periferia de
Eunápolis, está na iminência de reduzir
drasticamente o número de atendimentos. A
informação é da Irmã Teresa Biasi, fundadora
da instituição, alegando que a crise decorre
do atraso no repasse de verbas de um
convênio com a Prefeitura de Eunápolis.
“No mês passado recebemos metade do valor
referente ao mês de setembro. Os repasses
estão atrasados há dois meses e meio”,
garante a irmã. Pelo convênio com o
município, o centro receberia R$ 7.000
mensais. Para as despesas, no mesmo período,
atualmente são gastos R$ 14 mil, e atende a
52 crianças em regime interno.
A secretária municipal de Desenvolvimento
Social de Eunápolis, Maria Páscoa Pereira,
informou que a prefeitura liberou verbas há
um mês para a instituição. “Não conseguimos
repassar o total do convênio, mas
depositamos a metade, cerca de R$ 3.000.
Realmente estamos com atraso de alguns dias,
mas não de três meses. Como outras
prefeituras, estamos passando por algumas
dificuldades e, dentro do possível, ajudamos
a instituição”, disse Páscoa.
Ela explicou que o convênio do SOS Vida é
com o município (verbas municipais) e não
com o Fundo Nacional de Assistência Social,
que é destinado a creches e a instituições
que trabalham com crianças com necessidades
especiais, “não é o caso do SOS Vida, que
trabalha com desnutridos”, afirmou.
SALVAÇÃO – Nos dez anos de
funcionamento o SOS Vida salvou 3.200
crianças desnutridas. “Antigamente ocorria
um óbito de criança por dia, hoje há um por
ano”, garante ela. “Uma gota de amor também
cura” é a principal filosofia do SOS Vida,
fundado pela Irmã Teresinha, no bairro Juca
Rosa. Enfermeira aposentada, a freira conta
que quando trabalhou numa comunidade local
sentiu necessidade de dar atenção especial
às crianças desnutridas, que não tinham o
tratamento adequado, por falta de condições
das famílias.
“Os médicos indicavam uma dieta alimentar
para a criança que, as vezes, nem tinham o
que comer em casa”, segundo Fátima Milanezi,
voluntária desde o início da instituição,
dando como exemplo o caso do pequeno
Fernando, que encontrou por acaso: “Notei a
mulher carregando uma criança enrolada num
cobertor. Senti o ‘cheiro’ da desnutrição e
pedi para ver. A mãe disse que o menino
tinha acabado de receber alta do hospital”.
Fátima conta que o susto não foi maior, ao
ver o estado da criança, porque já viu
piores”.
A casa onde funciona o SOS Vida foi
construída há dez anos mediante um convênio
com a Comunidade da Ilha de Malta, no Mar
Mediterrâneo, conseguido com apoio do
monsenhor Jorge Crima. Além da Creche da
Irmã Teresinha, a comunidade de Malta ajuda
mais 93 instituições no Brasil. A
instituição conta, também, com um grupo de
associados, cujas contribuições garantem o
pagamento dos 25 funcionários”, garante
Fátima.
Também faz promoções, como a atual rifa de
uma moto, com bilhetes a R$ 5, que estão
promovendo neste fim de ano, para a qual
esperam ter toda colaboração da comunidade.
Com a promoção sua Nota é um Show, a SOS
Vida conseguiu ampliar a área de lazer das
crianças e construir um espaço onde
funcionará um brechó e um pequeno
ambulatório para atender gente da
comunidade. A Creche conta com o trabalho
voluntário de uma nutricionista, quatro
médicos e um dentista.
CARINHO – A maioria das crianças
chega ao SOS Vida desnutridas, fracas,
algumas com feridas causadas pela
desnutrição, barriga inchada, pernas finas,
incapazes de sustentar o peso do corpo, com
manchas escuras que parecem queimaduras. A
pequena Ana Cláudia, de dois anos, que
engatinha entre as outras crianças, quando
chegou, há nove meses, estava em estado
lastimável. As pernas tinham grandes manchas
escuras e em carne viva.
A dedicação e o carinho são tão importantes
quanto a multimistura recomendada pela
nutricionista Aurelina, às crianças. A
pequena Elisandy, de apenas dois meses, que
não pôde ser amamentada por Sandra, a mãe,
vai receber cuidados especiais. Sandra vai
fazer uma cirurgia e, como não tem com quem
deixar a filha, não pensou duas vezes em
levá-la ao Centro. “Eles já cuidaram da
minha outra filha, com desnutrição. Tenho
toda a confiança de deixar Elisandy aqui”,
disse Sandra.
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