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14/05/2005 - Pais investigam os filhos por medo de envolvimento com drogas e crimes

                                                               
 

 

 

Da redação - Sitepopular

 

 

Hilda Badenes - Globo Online

RIO - "Foram 12 anos de luta para tirar minha filha das mãos dos traficantes", desabafa Angela Soares, de 54 anos. Ela subiu o morro, enfrentou bandidos e pôs em risco sua própria vida para salvar a da filha adolescente. A menina tinha abandonado a família, de classe média alta, em Juiz de Fora (MG), para morar numa favela no Rio. A mãe investigou, descobriu o paradeiro da filha e foi atrás dela.

- Foi o momento mais barra pesada. Ela transportava a droga de um morro para o outro e andava armada. Uma vez, levou uma surra da polícia e quase se afogou no mar - conta.

Mãe de outros dois filhos, Ângela diz ter agora a sensação do dever cumprido, mas reconhece:

- Chega a um ponto que a gente fica tão exausta que pede até para o filho morrer. Mas eu não desisti e hoje ela está recuperada.

O medo do envolvimento dos filhos com as drogas e a criminalidade está levando pais e mães, em muitos casos, a recorrer à espionagem. Uns investigam por conta própria, como fez Angela. Outros contratam detetives profissionais. No início de maio, saiu nos jornais a história dramática de uma mãe que rastreou e-mails da filha de 17 anos e instalou aparelhos identificadores de chamadas telefônicas e gravadores em vários cômodos da casa. A adolescente, que consumia ecstasy, tinha fugido de casa, num condomínio de classe média na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, e foi encontrada, com ajuda da polícia, numa festa rave no Cais do Porto.

- Estamos sobrecarregados. Acredito que os últimos episódios alertaram os pais e os encorajaram - conta o detetive particular Gomes, que tem escritório no centro do Rio e diz estar trabalhando bem mais depois da repercussão do caso do Cais do Porto e de outra jovem de Ipanema que abandonou a família para viver com traficantes no Morro do Turano, na zona norte da cidade.

Segundo o detetive, a procura em seu escritório está dez vezes maior. Na grande maioria, são pais e mães de classe média alta que procuram o serviço, uma vez que o custo é elevado. Em troca, recebem a garantia de um trabalho detalhado, com equipamentos de última geração - como microcâmeras, gravadores e rastreadores de chamadas - aliados a profissionais especializados.

Os pais que se utilizam desse expediente não costumam falar sobre isso, por motivos óbvios. Sem citar nomes de clientes, o detetive Gomes conta um pouco de sua experiência.

- A primeira reação (dos pais) é o choque. Aí eles se culpam e se perguntam "onde foi que eu errei?" Na maioria dos casos, o erro está na ausência, na falta de amizade, de carinho - analisa.

A diretora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad), Maria Tereza Aquino, concorda com o diagnóstico. Ela lembra o caso de um pai que a procurou desconfiado de que o filho, de 17 anos, estava fumando maconha. Após uma semana de atenta busca pelos sintomas - olhos vermelhos, boca seca - veio a revelação: "Descobri que meu filho tem olhos verdes, doutora".

- Tem que saber ouvir. Na maioria dos casos, os pais falam, falam, mas não escutam, seja por falta de tempo ou paciência - afirma Maria Tereza.

Para a diretora do Nepad, investigação profissional pode piorar as coisas:

- Colocar um detetive ou a polícia na história só vai aumentar ainda mais a distância.

A médica Stella Taquette, coordenadora do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente, concorda.

- Não pode deixar chegar a esse ponto. Esse é um controle desleal. Relação de pai e filho tem que ser baseada em confiança. Como ele vai te contar alguma coisa se você vasculha a intimidade dele sem ele saber? O ideal é buscar essas informações da boca do próprio filho - recomenda.

Mas e se já for tarde demais para o bate-papo? Nesse caso, aconselha o terapeuta familiar Moisés Groissman, os pais devem investigar a fundo.

- Deve-se pecar pelo excesso e não pela omissão. Se o pai estiver desconfiado, deve usar dos meios que tiver, desde que não sejam violentos, para confirmar. É melhor do que ficar na dúvida, não investigar e lá na frente descobrir. Aí pode ser tarde demais - diz.

Para descobrir a tempo o que tivesse que descobrir, a brasileira Mariane Rios, 48 anos, arregaçou as mangas e se tornou ela mesma um detetive. Hoje residente no estado americano da Flórida, Mariane se orgulha de ter impedido que uma das filhas se tornasse dependente química. Há seis anos, começou a desconfiar da mudança repentina de comportamento da garota, então com 17 anos.

- Ela não estava mais tomando banho, não estava mais se maquiando, se enfeitando como a idade exige. Ela estava comendo muito e dormindo quase todos os dias na casa da melhor amiga - lembra.

Diante dos sintomas, Mariane não perdeu tempo e começou a investigar, a vasculhar o carro e o quarto e a rastrear ligações telefônicas.

- Um dia, com a ajuda de uma amiga, fui atrás dela. Eu a encontrei dentro de um trailer, jogando cartas, bebendo e fumando maconha com os amigos. Tirei-a de lá. Mesmo com ela gritando, peguei pelo braço, coloquei dentro do carro e levei para casa. Pedi ajuda à minha amiga para ir junto, pois meu coração doía, minhas pernas tremiam e eu chorava muito - conta.

Com o publicitário carioca Flávio Feitosa, de 47 anos, não foi diferente. Após receber uma ligação da polícia, avisando que o filho havia sido flagrado com uma ponta de maconha, ele resolveu acompanhar de perto os passos do rapaz:

- Cheguei a me fantasiar de fã de reggae umas duas vezes, com peruca, camiseta do Bob Marley e boné, e fui atrás dele em shows. Fiquei observando de longe, sem que ele percebesse minha presença. Mas não vi nada de comprometedor.

Sempre que houver suspeita, Mariane acha válido investigar:

- Tem que investigar sim, com jeito, sem deixar que o filho saiba. E quando descobrir algo, não caia de pau em cima dele. Com amor, comece a falar sobre o assunto, deixando o filho na dúvida: 'será que ela sabe algo'? - sugere.

Nesse caso, toda prudência é pouca. O detetive Bechara Jalkh alerta que quando os próprios pais resolvem dar uma de detetives com os filhos, correm o risco de colocar os pés pelas mãos:

- Para fazer, tem que fazer bem feito. Mas a maioria se precipita e mistura a emoção com a razão - avalia.

O designer Gerson Lessa, de 40 anos, já vivenciou de perto problemas assim:

- Já tive um caso próximo a mim de um pai que, depois que seu filho de 17 anos resolveu ter uma conversa de homem para homem com ele, contratou um detetive particular para seguir e investigar o filho, numa resposta de traição à atitude aberta, honesta e adulta do filho. Também tem o caso da mãe que organizou uma festa para a filha só para checar com quem ela andava. Isso ficou tão claro para todos que a pobre menina foi permanentemente excluída da turma - relata.

 

 

 
 
 

 

 Fonte:  Sitepopular

 

Os assuntos assinados são de responsabilidade dos  autores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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