BRASÍLIA - A convocação
extraordinária do Congresso em janeiro
continua trazendo novos gastos
extraordinários para o bolso do
contribuinte. Em apenas dez dias úteis de
sessão - seis deles efetivamente
trabalhados -, houve deputado que chegou a
gastar R$ 16,9 mil apenas em combustível.
A revelação foi publicada no site da
Câmara, que inaugurou ontem um novo
serviço de prestação de contas, a dos
gastos de cada parlamentar com ''verbas
indenizatórias''.
Durante a convocação,
cada parlamentar recebe R$ 25 mil de
salário. Além disso, por mês, o deputado
pode gastar até R$ 12 mil de ''verba
indenizatória'', onde se inclui
consultoria, divulgação, material,
combustível e escritório de apoio à
''atividade parlamentar''. Quem extrapola
os gastos em um mês ou não usa a verba em
sua totalidade, pode compensar as
diferenças nos meses seguintes de um mesmo
semestre.
O recordista em gastos
com combustíveis é o deputado Osvaldo
Biolchi, do PMDB, do Rio Grande do Sul. Os
R$ 16.973,85 que ele apresentou como
gastos com combustíveis e lubrificantes em
janeiro são suficientes para comprar 8.486
litros de gasolina. Dá para rodar cerca de
85 mil quilômetros de carro, mais de duas
voltas à Terra, 42 viagens de carro entre
Brasília e Porto Alegre, ou ainda dirigir
por 1.062 horas e 30 minutos (45 dias)
ininterruptamente, à velocidade de 80
km/h, sem uma paradinha sequer ao
banheiro. O deputado Biolchi justifica os
gastos.
- Eu não vou para o Rio
Grande do Sul para coçar a minha barriga,
para não dizer outra coisa. O ano inteiro
tenho contato com as bases. Tenho cinco
assessores no Estado - diz Biolchi.
Também contaram com
''verbas indenizatórias'', os preparativos
da festa de 20 anos do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra também, em
São Miguel do Iguaçu, no Paraná, perto da
fronteira com o Paraguai. O deputado
federal Adão Pretto disse, sem
constrangimentos, que gastou parte dos R$
8 mil com o transporte de faixas e
bandeiras do MST e ferramentas, feito
através de uma caminhonete.
- Neste fim de ano,
fizemos duas viagens, ida e volta, entre
Porto Alegre e São Miguel do Iguaçu.
Tivemos que percorrer 3 Estados - disse.
Outro recordista de
gastos com combustíveis é o deputados
Elimar Máximo (Prona-SP), que apresentou
fatura de R$ 15,1 mil em janeiro. Ele não
retornou o telefonema. O deputado João
Hermann Neto (PPS-SP) gastou R$ 14,3 mil,
também com combustível. Hermann afirmou
que o mês em que mais trabalha é janeiro,
quando tem congresso do PPS. Perguntado se
acha ético a sociedade pagar combustível
para congresso de partido, o parlamentar
respondeu que sim.
- A menos que o meu
partido fosse clandestino. Agora estou na
legalidade e é a coisa mais legítima do
mundo. Eu cubro todo o Estado de São
Paulo, em cada lugar tenho um responsável.
Toda a minha verba, só faço em combustível
- diz Hermann.
Mesmo com o dinheiro
ganho com a convocação extraordinária do
Congresso, Neto considera vergonhosa as
condições de trabalho dos parlamentares
brasileiros, pois acaba tendo que tirar
dinheiro do próprio bolso. Segundo ele,
suas oito equipes que atuam no Estado
consomem cerca de R$ 38 mil, por mês, sem
contar gastos com pessoal.
- Esse proselitismo são
os tentáculos do exercício da atividade
parlamentar. Você precisa colar as
ventosas na terra do povo - declarou.
O deputado Paulo
Pimenta (PT-RS) gastou R$ 11 mil em
janeiro. O deputado Adão Pretto, também do
PT do Rio Grande do Sul, justificou R$ 8
mil de gastos com combustível. Do mesmo
partido, do mesmo Estado, o deputado
Henrique Fontana gastou R$ 379.
A proximidade da cidade
do parlamentar com Brasília não significa
redução de gastos para o contribuinte. O
deputado Tatico, do PPB do Distrito
Federal, gastou R$ 7,3 mil em combustíveis
e a deputada Maninha (PT-DF) gastou R$ 3,6
mil. O deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF),
apresentou fatura mais modesta à Câmara,
com R$ 636 de despesas com combustível.
Modesto mesmo foi o deputado Vadinho Baião
(PT-MG), que só gastou R$ 98,19 de toda a
verba indenizatória, também com
combustível.
A Câmara informou que o
parlamentar só pode gastar R$ 12 mil por
mês, incluindo todas as despesas. Se
quiser gastar tudo em gasolina, o
parlamentar não terá outras despesas
ressarcidas.
A matogrossense Celcita
Pinheiro (PFL) foi uma das campeãs no
ressarcimento dos gastos de gasolina, com
R$ 9.600, equivalente a 4,8 mil litros.
Assessores de Celcita alegam que Mato
Grosso é muito grande. Do mesmo Estado,
Pedro Henry (PP) solicitou ressarcimento
de R$ 15.117,76. O deputado não se
manifestou sobre os gastos.
A deputada
matogrossense Celcita Pinheiro (PFL) foi
uma das campeãs no ressarcimento dos
gastos de gasolina, com R$ 9.600,
equivalente a 4,8 mil litros. Assessores
de Celcita alegam que o Estado do Mato
Grosso é muito grande.