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19/05/2006 - Correio/Doris Miranda

Filme mais esperado do ano, `O código Da Vinci´, dirigido por Ron Howard, chega aos cinemas do mundo - Clique aqui e veja o trailer

 

 

Tom Hanks e Audrey Tautou atuam no filme que especula sobre dogmas da Igreja Católica e chega às telas cercado de polêmica

Os de fé mais tradicional não perdem oportunidade de repudiar a obra, classificada como heresia. Já a Igreja Católica não declara um boicote oficial, mas adverte sobre o conteúdo extremamente ofensivo. Enquanto isso, uma quantidade imensa de curiosos mal pode esperar para assistir à versão cinematográfica do maior best-seller dos últimos anos, com 46 milhões de exemplares vendidos. É claro que tanto interesse em torno de O código Da Vinci tem justificativa. O livro de Dan Brown defende a idéia de que o Santo Graal é, na verdade, Maria Madalena, esposa de Jesus e mãe de seus herdeiros. Pois bem, O código Da Vinci, dirigido por Ron Howard, que estréia hoje no mundo inteiro, tem tudo para dar continuidade ao fenômeno de popularidade e, quem sabe, desancorar Titanic do posto de filme mais visto de todos os tempos.

Somente no Brasil, serão 500 cinemas a receber a fita estrelada por Tom Hanks. A conta é a seguinte: das 2.045 salas do país, uma em cada quatro estará exibindo o filme, que traz ainda Audrey Tautou, Ian McKellen, Alfred Molina, Paul Bettany e Jean Reno no elenco. Fazendo um comparativo em termos de estrondo equivalente no universo pop, a popularidade do livro de Dan Brown talvez só consiga chegar perto da trilogia de O Senhor dos Anéis e da série Harry Potter. Os três são textos de ficção, mas O código Da Vinci possui uma coisa que os outros não têm - e não é uma questão de qualidade, porque, neste aspecto, tanto J.R.R. Tolkien quanto J.K. Rowling estão, guardadas as devidas proporções, à frente.

O trunfo de Brown está na inserção de doses cavalares de especulação sobre os rígidos dogmas criados para sustentar a instituição mais poderosa da Terra, obviamente, a Igreja Católica. E mais: expor uma suposta verdade, que estimula o questionamento de uma fé que já dura dois mil anos. Pena que, à essa altura, já não existe nenhum mistério para a trama apresentada. Afinal, quem não leu o livro ouviu falar da história. Não se sabe ainda o quanto Ron Howard (A luta pela esperança e Uma mente brilhante, que lhe deu um Oscar) foi fiel à obra original, até porque o filme, orçado em US$125 milhões, está cercado de brumas.

Mas, pela trajetória competente, porém convencional, do diretor, é de se esperar que tenha seguido à risca a teia de intrigas proposta pelo autor e reescrita agora pelo roteirista Akiva Goldsman, com o aval do próprio Dan Brown. Tudo começa com o enigmático assassinato de Jacques Saunière (Jean-Pierre Marielle), o curador do Museu do Louvre, que, antes de morrer, deixa pistas para a neta, a criptóloga Sophie Neveu (Tautou), e para o professor de "simbologia religiosa" Robert Langdon (Hanks) sobre os segredos do Priorado de Sião, entidade da qual era grão-mestre. Por trás do crime, há a presença do monge Silas (Bettany) e do bispo Aringarosa (Molina), ambos membros da Opus Dei, organização católica conservadora validada pelo papa João Paulo II como prelazia pessoal do sumo pontífice, apresentada por Brown como extremamente perigosa.

Braço intelectual da Ordem dos Cavaleiros do Templo (mais conhecidos como Templários) e sem nenhuma comprovação da existência da fraternidade ainda hoje, o Priorado de Sião seria o zelador do segredo do Graal, ou seja, guardião do corpo de Maria Madalena, dos documentos que comprovam sua relação conjugal com Jesus e dos descendentes do casal. Se for leal ao espírito do livro, o filme tem tudo para ser um suspense bem feito e veloz, que pega o público com intensidade. Se o publico vai sair do cinema com a fé abalada, aí já são outros quinhentos.

Diante do que se lê nas quase quinhentas páginas do livro, percebe-se que Dan Brown escreveu com nítida intenção de assistir a sua obra na sala escura. Sua construção é objetiva, com imagens detalhadas, ritmo constante e perseguições dignas de Hollywood. A intenção foi confirmada um ano depois após o lançamento, quando, em 2003, Brown vendeu os direitos do livro por US$6 milhões, uma bagatela se confrontada com a exorbitante quantia que foi parar em sua conta bancária pouco tempo depois, quando a obra estacionou na primeira posição dos livros mais vendidos. Bom, difícil não foi resolver esse problema. O perspicaz escritor, que acaba de ser inocentado da acusação de plágio, tratou de inserir no contrato uma cláusula que prevê sua participação nos lucros. Sua fortuna, daqui a pouco, fará frente aos tesouros dos lendários Cavaleiros da Ordem do Templo, supostamente os primeiros guardiões do Graal.

***

Para entender `O código Da Vinci´

Santo Graal - Diz a lenda que seria a taça onde Jesus teria bebido na última refeição com os apóstolos e que também foi receptáculo de seu sangue durante o momento da crucificação. De acordo com Dan Brown (na verdade, a teoria existe há séculos), o Santo Graal seria uma corruptela de "sangue real", ou seja, Maria Madalena e seus filhos com Jesus. Sendo ela filha da casa de Benjamim e Cristo descendente da casa de Davi, sua prole seria legítima herdeira do trono judeu e, conseqüentemente, do francês, pois, ainda segundo Brown, os descendentes de Jesus e Maria Madalena deram origem à dinastia meronvíngia que fundou Paris.

Opus Dei - Praticamente desconhecida do público até o lançamento de O código Da Vinci, em 2003, a Opus Dei (literalmente, Obra de Deus em latim) foi apresentada por Brown como uma espécie de ala xiita da Igreja, capaz de qualquer coisa para preservar os ensinamentos originais do cristianismo. Bom, certamente ele exagerou nas tintas, mas uma instituição que prega o autoflagelo com chicotadas e uso do cilício não dever ser das mais liberais. A mortificação, incentivada pelo próprio fundador da ordem, o espanhol Josemaria Escrivá de Balaguer, em 1928, evoca o sofrimento de Jesus crucificado. "Trata o teu corpo com caridade, mas não com mais caridade que a que se tem com um inimigo traidor", teria dito o religioso canonizado pelo papa João Paulo II, o mesmo que instituiu a Opus Dei como prelazia pessoal do sumo pontífice, em 1982. O site da Opus Dei no Brasil é www.opusdei.org.br

Ordem dos Cavaleiros Templários - Instituída em 1118, originalmente a ordem era um grupo monástico militar dedicado à proteção dos peregrinos cristãos que visitavam a Terra Santa. Habitantes de uma antiga mesquita, cuja crença entre eles dizia que o local tinha sido um dos templos do rei Salomão, os templários eram soldados da fé que só reconheciam a autoridade do papado. Diz a lenda, reforçada por Dan Brown, que os cavaleiros procuravam tesouros e relíquias sagradas, sendo tão poderosos que contestavam qualquer tipo de interferência política. As teorias mais comuns afirmam que os Templários deram origem ao Priorado de Sião, ordem destinada a guardar o segredo do Santo Graal. Poderosos por quase três séculos, os cavaleiros foram extintos em 13 de outubro de 1307, quando o rei Filipe IV da França decretou prisão e morte a todos eles.

Priorado de Sião - Mesmo sem nenhuma comprovação da existência nos dias atuais, Dan Brown assegura que o Priorado ainda persevera. Supostamente originados a partir dos cavaleiros templários e atualmente representada pela Maçonaria, a fraternidade teria sido criada para guardar o segredo do Graal, mas só foi oficialmente reconhecida em 1956, por Pierre Plantard. De acordo com ele, a sociedade teria contado com membros ilustres, como Nicolas Flamel, Leonardo Da Vinci, Isaac Newton, Claude Debussy, Botticelli e Jean Cocteau. A história de Plantard foi amplamente rechaçada, até que, em 1993, ele confessou que fraudou parte das informações para ganhar publicidade.

Leonardo Da Vinci - Apontado por Dan Brown como um dos grãos-mestres do Priorado de Sião, o criador renascentista é autor de algumas das mais célebres obras de arte de todos os tempos - a Mona Lisa, O Homem Vitruviano e A última ceia são alguns deles, todos citados em O código Da Vinci como peças-chave para se desvendar o mistério que envolve Maria Madalena e Jesus Cristo. Considerado por muitos como o maior gênio da história, por causa da multiplicidade de seus talentos, Leonardo era também ligado na relação entre ciência e espírito, aspecto que o tornava pouco querido na corte papal. Tanto que suas obras são repletas de simbologias, mas nada que possa respaldar a teoria de Dan Brown.

 

         

 

 
 
 
 
 

 

 
 
 
 

 

 

 

 

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