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Tom
Hanks e Audrey Tautou atuam no filme que especula sobre dogmas da
Igreja Católica e chega às telas cercado de polêmica
Os de
fé mais tradicional não perdem oportunidade de repudiar a obra,
classificada como heresia. Já a Igreja Católica não declara um
boicote oficial, mas adverte sobre o conteúdo extremamente ofensivo.
Enquanto isso, uma quantidade imensa de curiosos mal pode esperar
para assistir à versão cinematográfica do maior best-seller dos
últimos anos, com 46 milhões de exemplares vendidos. É claro que
tanto interesse em torno de O código Da Vinci tem justificativa. O
livro de Dan Brown defende a idéia de que o Santo Graal é, na
verdade, Maria Madalena, esposa de Jesus e mãe de seus herdeiros.
Pois bem, O código Da Vinci, dirigido por Ron Howard, que estréia
hoje no mundo inteiro, tem tudo para dar continuidade ao fenômeno de
popularidade e, quem sabe, desancorar Titanic do posto de filme mais
visto de todos os tempos.
Somente no Brasil, serão 500 cinemas a receber a fita estrelada por
Tom Hanks. A conta é a seguinte: das 2.045 salas do país, uma em
cada quatro estará exibindo o filme, que traz ainda Audrey Tautou,
Ian McKellen, Alfred Molina, Paul Bettany e Jean Reno no elenco.
Fazendo um comparativo em termos de estrondo equivalente no universo
pop, a popularidade do livro de Dan Brown talvez só consiga chegar
perto da trilogia de O Senhor dos Anéis e da série Harry Potter. Os
três são textos de ficção, mas O código Da Vinci possui uma coisa
que os outros não têm - e não é uma questão de qualidade, porque,
neste aspecto, tanto J.R.R. Tolkien quanto J.K. Rowling estão,
guardadas as devidas proporções, à frente.
O
trunfo de Brown está na inserção de doses cavalares de especulação
sobre os rígidos dogmas criados para sustentar a instituição mais
poderosa da Terra, obviamente, a Igreja Católica. E mais: expor uma
suposta verdade, que estimula o questionamento de uma fé que já dura
dois mil anos. Pena que, à essa altura, já não existe nenhum
mistério para a trama apresentada. Afinal, quem não leu o livro
ouviu falar da história. Não se sabe ainda o quanto Ron Howard (A
luta pela esperança e Uma mente brilhante, que lhe deu um Oscar) foi
fiel à obra original, até porque o filme, orçado em US$125 milhões,
está cercado de brumas.
Mas,
pela trajetória competente, porém convencional, do diretor, é de se
esperar que tenha seguido à risca a teia de intrigas proposta pelo
autor e reescrita agora pelo roteirista Akiva Goldsman, com o aval
do próprio Dan Brown. Tudo começa com o enigmático assassinato de
Jacques Saunière (Jean-Pierre Marielle), o curador do Museu do
Louvre, que, antes de morrer, deixa pistas para a neta, a criptóloga
Sophie Neveu (Tautou), e para o professor de "simbologia religiosa"
Robert Langdon (Hanks) sobre os segredos do Priorado de Sião,
entidade da qual era grão-mestre. Por trás do crime, há a presença
do monge Silas (Bettany) e do bispo Aringarosa (Molina), ambos
membros da Opus Dei, organização católica conservadora validada pelo
papa João Paulo II como prelazia pessoal do sumo pontífice,
apresentada por Brown como extremamente perigosa.
Braço
intelectual da Ordem dos Cavaleiros do Templo (mais conhecidos como
Templários) e sem nenhuma comprovação da existência da fraternidade
ainda hoje, o Priorado de Sião seria o zelador do segredo do Graal,
ou seja, guardião do corpo de Maria Madalena, dos documentos que
comprovam sua relação conjugal com Jesus e dos descendentes do
casal. Se for leal ao espírito do livro, o filme tem tudo para ser
um suspense bem feito e veloz, que pega o público com intensidade.
Se o publico vai sair do cinema com a fé abalada, aí já são outros
quinhentos.
Diante do que se lê nas quase quinhentas páginas do livro,
percebe-se que Dan Brown escreveu com nítida intenção de assistir a
sua obra na sala escura. Sua construção é objetiva, com imagens
detalhadas, ritmo constante e perseguições dignas de Hollywood. A
intenção foi confirmada um ano depois após o lançamento, quando, em
2003, Brown vendeu os direitos do livro por US$6 milhões, uma
bagatela se confrontada com a exorbitante quantia que foi parar em
sua conta bancária pouco tempo depois, quando a obra estacionou na
primeira posição dos livros mais vendidos. Bom, difícil não foi
resolver esse problema. O perspicaz escritor, que acaba de ser
inocentado da acusação de plágio, tratou de inserir no contrato uma
cláusula que prevê sua participação nos lucros. Sua fortuna, daqui a
pouco, fará frente aos tesouros dos lendários Cavaleiros da Ordem do
Templo, supostamente os primeiros guardiões do Graal.
***
Para
entender `O código Da Vinci´
Santo
Graal - Diz a lenda que seria a taça onde Jesus teria bebido na
última refeição com os apóstolos e que também foi receptáculo de seu
sangue durante o momento da crucificação. De acordo com Dan Brown
(na verdade, a teoria existe há séculos), o Santo Graal seria uma
corruptela de "sangue real", ou seja, Maria Madalena e seus filhos
com Jesus. Sendo ela filha da casa de Benjamim e Cristo descendente
da casa de Davi, sua prole seria legítima herdeira do trono judeu e,
conseqüentemente, do francês, pois, ainda segundo Brown, os
descendentes de Jesus e Maria Madalena deram origem à dinastia
meronvíngia que fundou Paris.
Opus
Dei - Praticamente desconhecida do público até o lançamento de O
código Da Vinci, em 2003, a Opus Dei (literalmente, Obra de Deus em
latim) foi apresentada por Brown como uma espécie de ala xiita da
Igreja, capaz de qualquer coisa para preservar os ensinamentos
originais do cristianismo. Bom, certamente ele exagerou nas tintas,
mas uma instituição que prega o autoflagelo com chicotadas e uso do
cilício não dever ser das mais liberais. A mortificação, incentivada
pelo próprio fundador da ordem, o espanhol Josemaria Escrivá de
Balaguer, em 1928, evoca o sofrimento de Jesus crucificado. "Trata o
teu corpo com caridade, mas não com mais caridade que a que se tem
com um inimigo traidor", teria dito o religioso canonizado pelo papa
João Paulo II, o mesmo que instituiu a Opus Dei como prelazia
pessoal do sumo pontífice, em 1982. O site da Opus Dei no Brasil é
www.opusdei.org.br
Ordem
dos Cavaleiros Templários - Instituída em 1118, originalmente a
ordem era um grupo monástico militar dedicado à proteção dos
peregrinos cristãos que visitavam a Terra Santa. Habitantes de uma
antiga mesquita, cuja crença entre eles dizia que o local tinha sido
um dos templos do rei Salomão, os templários eram soldados da fé que
só reconheciam a autoridade do papado. Diz a lenda, reforçada por
Dan Brown, que os cavaleiros procuravam tesouros e relíquias
sagradas, sendo tão poderosos que contestavam qualquer tipo de
interferência política. As teorias mais comuns afirmam que os
Templários deram origem ao Priorado de Sião, ordem destinada a
guardar o segredo do Santo Graal. Poderosos por quase três séculos,
os cavaleiros foram extintos em 13 de outubro de 1307, quando o rei
Filipe IV da França decretou prisão e morte a todos eles.
Priorado de Sião - Mesmo sem nenhuma comprovação da existência nos
dias atuais, Dan Brown assegura que o Priorado ainda persevera.
Supostamente originados a partir dos cavaleiros templários e
atualmente representada pela Maçonaria, a fraternidade teria sido
criada para guardar o segredo do Graal, mas só foi oficialmente
reconhecida em 1956, por Pierre Plantard. De acordo com ele, a
sociedade teria contado com membros ilustres, como Nicolas Flamel,
Leonardo Da Vinci, Isaac Newton, Claude Debussy, Botticelli e Jean
Cocteau. A história de Plantard foi amplamente rechaçada, até que,
em 1993, ele confessou que fraudou parte das informações para ganhar
publicidade.
Leonardo Da Vinci - Apontado por Dan Brown como um dos grãos-mestres
do Priorado de Sião, o criador renascentista é autor de algumas das
mais célebres obras de arte de todos os tempos - a Mona Lisa, O
Homem Vitruviano e A última ceia são alguns deles, todos citados em
O código Da Vinci como peças-chave para se desvendar o mistério que
envolve Maria Madalena e Jesus Cristo. Considerado por muitos como o
maior gênio da história, por causa da multiplicidade de seus
talentos, Leonardo era também ligado na relação entre ciência e
espírito, aspecto que o tornava pouco querido na corte papal. Tanto
que suas obras são repletas de simbologias, mas nada que possa
respaldar a teoria de Dan Brown. |