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Em Brasília, há dois roteiros que o turista pode
fazer. No primeiro, o cívico, está a praça dos Três Poderes, com os
prédios do Supremo Tribunal Federal, o Congresso Nacional e o
Palácio
do Planalto, sede do Executivo. Tudo muito bonito e limpo.
Já o nosso roteiro é para quem foi atraído pelas denúncias de
corrupção, de caixa 2, malas de dinheiro circulando pelo Plano
Piloto, festas com garotas de programa e pagamentos de mensalão.
Nesse circuito, ficaram de fora a Catedral de
Brasília e sua acústica que faz a alegria das crianças. Ou o Palácio
do Itamaraty, com sua arquitetura que se mantém moderna. Mas se no
nosso circuito falta charme, sobra história – de corrupção,
negociatas e maracutaias. E curiosidades do mundo político na
capital do País.
Garotas – Como a crise não termina, a
cada dia aparece um endereço novo para o circuito. O mais recente é
a QI 01, casa 25, Lago Sul, a famosa mansão (1) da 'República
de Ribeirão Preto', onde as garotas de Jeane Mary Corner entretiam
os rapazes de Ribeirão Preto e os interesses de alguns eram
defendidos, segundo denúncia do agora famoso caseiro.
Tem a sede dos Correios (2) , palco de
recebimento de uma propina de R$ 3 mil que gerou a CPMI dos
Correios. Mais investigações descobriram outros esquemas por lá. O
Aeroporto Internacional de Brasília (3) , onde o ex-assessor
do ministro Antonio Palocci, Vladimir Poletto, chegou com caixas de
bebida que na verdade continham milhões de dólares.
Agora, se der fome, aproveite para conhecer o
restaurante Fiorella (4) , na Câmara dos Deputados, palco do
escândalo do mensalinho, protagonizado pelo ex-presidente da Câmara,
Severino Cavalcanti. Quem tiver pouco tempo deve começar o dia pelo
apartamento funcional (5) do ex-deputado e ex-presidente do
PTB Roberto Jefferson. Lá chegaram, como o próprio titular afirmou,
malas de dinheiro, usado no valerioduto.
Lupicínio – Quando depôs pela segunda vez
na CPMI dos Correios, Jefferson apareceu com o olho esquerdo roxo,
hematomas e pontos cirúrgicos. A culpa teria sido de uma caixa de
CDs de Lupicínio Rodrigues – compositor de Vingança , entre outras
canções. Ao tentar alcançar os CDs, uma enorme estante de sucupira
desabou sobre ele e só não esmagou suas pernas porque uma escadinha
aparou o móvel.
Curiosidade: durante o seu processo de cassação,
Jefferson brindava a imprensa, que dava plantão dia e noite do lado
de fora do prédio de 24 apartamentos, com canções que entoava
durante suas aulas de canto. Jefferson era o único morador.
Mutreta – Outro apartamento (6)
onde muita mutreta política aconteceu foi o do ex-deputado petista
Paulo Rocha. Rocha, depois de renunciar ao mandato – e escapar de um
processo por quebra de decoro parlamentar – devolveu o apartamento.
Atualmente, quem ocupa o lugar, na Asa Sul, é o outro deputado
petista, Devanir Ribeiro (SP).
Tem também a agência do banco Rural, dentro do
Brasília Shopping (7) , que ficou famosa em todo o País por
ser o lugar onde os mensaleiros sacavam dinheiro. Mesmo sem entrar
na agência, é possível refazer parte da rota dos milhões que saía
das empresas do publicitário Marcos Valério direto para o bolso de
políticos e assessores. Às vezes, o dinheiro sacado lá era levado
para quartos de hotéis para ser distribuído a parlamentares da base
aliada.
Diárias – Um destes hotéis, segundo as
denúncias, é o Grand Bittar (8) , no Setor Hoteleiro Sul (SHS,
para os íntimos). Para os interessados, as diárias variam de R$ 220
a R$ 3 mil, de segunda a quinta-feira, e de R$ 160 a R$ 2 mil nos
fins de semana.
Siga para o Lago Norte. Afinal, não poderíamos
deixar de fora um ícone do passado recente da corrupção: a Casa da
Dinda (9) , onde Fernando Collor, o mais jovem presidente
brasileiro, morou. Dizem que, para se eleger, Collor recorreu a
forças sobrenaturais, através de uma vidente, que praticava vodu no
porão da casa. Hoje, um ou outro carro passa pela rua. O caseiro
Antônio, que há 38 anos cuida das propriedades da família, diz que
Collor às vezes aparece por lá. Depois de tantas 'atrações',
aproveite a paisagem às margens do belo Lago Paranoá e descanse.
Você merece.
P.S. O Palácio do Planalto (10) entra em
ambos os roteiros. Faça o circuito cívico para ver se consegue
passar pela salinha do terceiro andar, onde cargos eram
distribuídos.
Distribuição de cargos
Sala do 3º andar do Palácio do Planalto –
Segundo Roberto Jefferson, as reuniões sobre a distribuição dos
cargos aconteciam em uma sala reservada ao então secretário-geral do
PT Silvio Pereira no Palácio do Planalto, ao lado do ex-gabinete de
José Dirceu, na época, chefe da Casa Civil.
Pereira e Dirceu juntariam-se a Delúbio Soares,
ao ex-presidente do PT José Genoino e ao ex-secretário de
Comunicação Marcelo Sereno.
"Noventa por cento das conversas eram no
palácio, numa salinha reservada ao Silvio Pereira. De vez em quando
o Delúbio metia a mão na porta, entrava, sentava, conversava e saía.
O Zé Dirceu também. O Genoino também", afirmou Jefferson.
Reforma – O Palácio do Planalto pretende
fazer uma 'pequena' reforma em suas cozinhas. O governo, mesmo em
crise, encontrou em algum caixa R$ 199 mil para as obras.
Só com o novo piso serão gastos R$ 105 mil.
Visitação do Palácio do Planalto – Todos os
domingos, das 9h30 às 13h30. Telefone: (61) 3411-1221.
Dinehiro em malas 007
Sede da SMP&B Comunicação, agência de
publicidade de Marcos Valério – A ex-secretária de Valério Fernanda
Karina Somaggio confirmou à CPMI dos Correios que o patrão usava
motoboys (identificados como Rapidinho, Marquinhos e Orlando), pelo
menos uma vez por semana, para fazer grandes saques em bancos.
Segundo ela, o dinheiro retirado pelos motoboys
era entregue às funcionárias Simone Vasconcelos e Geisa dos Santos,
que contavam e distribuíam as notas em maletas "tipo 007".
Motoboys – Karina contou que, algumas
vezes, os motoboys encarregados de fazer os saques chegavam com uma
mala grande, que era deixada no departamento financeiro da SMP&B.
A secretária revelou ainda que os motoboys
faziam os saques no início da manhã, antes da abertura das agências
bancárias.
Depois de passar pela SMP&B, o dinheiro era
levado a hotéis usados por Valério e Simone em Brasília para
distribuir o mensalão.
Agenda – Karina trabalhou como secretária
de Valério de abril de 2003 a janeiro de 2004. Ela disse que anotou
em sua agenda todos os encontros entre o empresário e integrantes do
PT, entre eles, o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares.
Inclusive, o nome de Delúbio aparece em sua agenda várias vezes,
segundo a ex-secretária.
Valério move um processo na Justiça de Minas
Gerais contra Karina, acusando-a de chantagem. Além disso, o
empresário cobra uma dívida de R$ 100 milhões do PT na Justiça,
referentes aos empréstimos à legenda. O PT mantém a posição já
anunciada de não reconhecer as dívidas que Valério alega ter
contraído para o PT a partir de acordos não públicos com Delúbio.
Ascensão e queda
9 Casa da Dinda – Residência
oficial de Fernando Collor, presidente entre 1990 e 1992. Por causa
das denúncias de corrupção feitas pelo seu irmão, Pedro, Collor
renunciou, em dezembro de 92, enquanto o seu processo de impeachment
corria no Senado.
O esquema da maracutaia descoberto pela comissão
parlamentar de inquérito instaurada na época revelou que as contas
do presidente eram pagas por seu tesoureiro, Paulo César (PC)
Farias, por meio de uma conta bancária fraudulenta.
Fantasma – Sua titular era Maria Gomes,
na verdade 'fantasma' de Ana Acioli, secretária de Collor. O
dinheiro retirado da conta era entregue por ela ao motorista
Eriberto França, para pagar os funcionários da Casa da Dinda, além
de contas de luz, telefone e despesas eventuais.
A partir do relato do motorista, o esquema foi
sendo revelado. Um dos automóveis do presidente fora comprado com
cheque de um 'laranja' de PC, assim como a reforma da casa, no valor
de US$ 2,5 milhões.
Atitude – O ex-presidente imprimiu uma
série de atitudes características de sua personalidade, que ficou
conhecida como o "jeito Collor de governar".
Era comum assistir a exibições de Collor fazendo
cooper, praticando esportes, dirigindo jato supersônico, subindo a
rampa do Palácio do Planalto, comportamentos que exaltavam suposta
jovialidade e modernidade. Todos expressos em sua notória frase
"Tenho aquilo roxo".
O esquema de corrupção e tráfico de influência
veio à tona em seu terceiro ano de mandato. O irmão Pedro morreu de
câncer. E PC teria sido assassinado.
Ópera, olho roxo e $$$.
5 Apartamento do ex-deputado Roberto
Jefferson – 'Pai' da crise, Jefferson (abaixo) acusou
congressistas aliados de receber um mensalão de R$ 30 mil. Ele
admitiu ter recebido R$ 4 milhões do PT, dinheiro entregue em seu
apartamento funcional, na Asa Norte, região central.
O líder do PTB na Câmara, José Múcio Monteiro
(PE), revelou ao Conselho de Ética que viu Jefferson cobrar do
ex-presidente do PT José Genoino o pagamento de mais R$ 4 milhões do
total de R$ 20 milhões que tinha sido prometido durante a campanha
eleitoral de 2004.
O pedido foi feito durante um jantar no
apartamento de Jefferson, do qual também participaram o
ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-deputado petista José
Dirceu e o presidente Lula.
Cheque em branco – Na saída, Lula disse a
jornalistas (e depois negou): "Eu sou capaz de dar ao Roberto
Jefferson um cheque em branco e dormir tranqüilo".
Foi do apartamento, por telefone, que Jefferson
deu sua bombástica segunda entrevista. Depois de ter prometido que
ficaria quieto e só falaria na sindicância da Câmara e na CPI, o
ex-deputado rompeu o silêncio.
De acordo com o ex-presidente do PTB, os
recursos para alimentar o esquema vinham de estatais e de empresas
privadas.
Malas – Dinheiro que, segundo ele,
chegava a Brasília "em malas" para ser distribuído em ação comandada
por Delúbio, com a ajuda de "operadores" como o publicitário Marcos
Valério e o deputado José Janene (PP-PR).
Após perder o mandato de deputado, Jefferson
voltou a exercer sua outra profissão, a de advogado criminalista.
O apartamento foi devolvido dentro do prazo (um
mês) e atualmente está vazio.
Aliança de R$ 10 mi, do PT com o PL
6 Apartamento do ex-deputado petista Paulo
Rocha – Segundo o ex-deputado e ex-presidente do PL Valdemar
Costa Neto, foi lá, em junho de 2002, que aconteceu uma reunião com
o candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva e o colega de
chapa José Alencar para acertar um acordo em que José Dirceu e
Delúbio Soares, também presentes, prometeram R$ 10 milhões em troca
do apoio do PL nas eleições presidenciais.
"O Lula e o Alencar ficaram na sala e fomos para
o quarto eu, o Delúbio e o Dirceu. Eu comecei pedindo R$ 20 milhões
para levar uns R$ 15 milhões. Daí, ficou aquela discussão. Uma hora,
o Zé Alencar entrou e falou: 'E aí, já resolveram?'", contou, em
detalhes, Valdemar.
Por dentro – "O Zé Alencar veio junto.
Falei: "Vamos acertar por R$ 10 milhões". Voltamos para a sala e
avisamos: "Está fechado". O Zé Alencar falou "peça tudo por dentro".
Delúbio, então, apresentou Valdemar a Marcos
Valério. Valdemar diz, no entanto, que "só" recebeu R$ 6,5 milhões.
"Recebi dinheiro, sim, mas não os R$ 10,8 milhões que diz o Marcos
Valério. Foram R$ 6,5 milhões do caixa 2 da campanha de Lula." Os
dois deputados renunciaram aos seus mandatos.
Lobby e festinhas
1 Mansão da 'República de Ribeirão Preto'
– Foi lá que ex-assessores do ministro da Fazenda, Antonio Palocci,
faziam lobby, distribuía-se dinheiro e festinhas pra lá de animadas
aconteciam.
De acordo com o caseiro Francenildo dos Santos
Costa, Palocci era freqüentador assíduo. Alugada por Vladimir
Poletto, a mansão era freqüentada por outro ex-assessor, Rogério
Buratti. Segundo o caseiro pelo menos uma vez seu salário foi pago
pela Leão Leão, empresa envolvida em denúncias em Ribeirão Preto,
quando Palocci foi prefeito.
Nildo – como gosta de ser chamado o caseiro –,
por causa da denúncia, teve seu sigilo bancário quebrado. Como se
fosse pouco, de testemunha virou investigado pela Polícia Federal e
pelo Coaf, o órgão que apura movimentações bancárias suspeitas. Já
se sabe que a ordem para a quebra de sigilo veio de dentro da Caixa
Econômica Federal, subordinada ao Ministério da Fazenda.
Jogo politiqueiro – Após 11dias recluso e
despachando numa sala do Palácio do Planalto, ao invés do seu
gabinete no ministério, Palocci apareceu na última sexta-feira para
dizer que não vai responder a "acusações baixas do jogo
politiqueiro".
Rural: saques e "fama"
7 Agência do banco Rural – Os saques para
pagamento do mensalão foram efetuados na única agência do banco na
capital federal, localizada no 9º andar do Brasília Shopping. O uso
da agência seria uma alternativa ao pagamento feito por meio de
malas de dinheiro, que, segundo Roberto Jefferson, seria mais
difícil de operar.
O deputado João Paulo Cunha (PT-SP),
ex-presidente da Câmara, foi beneficiado em R$ 50 mil. Já o deputado
baiano Josias Gomes (PT) sacou R$ 100 mil e ainda apresentou a sua
carteira de parlamentar para se identificar. João Paulo – cujo
processo de cassação deve ir a plenário para votação em breve –
chegou a dizer que sua mulher teria ido à agência para pagar uma
conta da TVA.
"Eu recebi a informação que, depois da denúncia
do mensalão, assessores de parlamentares têm ido lá pegar R$ 30 mil,
R$ 40 mil, desde que as malas pararam de chegar", denunciou
Jefferson, em julho do ano passado. Um desses assessores foi João
Cláudio Genu, chefe de gabinete do deputado José Janene (PP-PR). Nos
documentos do Rural, há quatro pagamentos da SMP&B para pessoas
próximas ao deputado João Magno (PT-MG), ele inclusive. Um assessor
recebeu R$ 10 mil, um irmão do deputado obteve outros R$ 25,915 mil,
e o próprio deputado recebeu outros dois pagamentos que totalizam R$
41 mil.
Absolvido – Apesar de admitir que o
dinheiro não contabilizado foi usado para pagar dívidas de sua
campanha à prefeitura de Ipatinga, Magno conseguiu escapar da
cassação na Câmara. A deputada petista Ângela Guadagnin sambou a
dança da pizza para comemorar.
Propina de R$ 3 mil na fita
2 Correios – O ex-chefe de departamento
dos Correios Maurício Marinho foi pego recebendo propina de um
empresário. A gravação foi exibida nos principais telejornais
brasileiros.
Marinho foi indicado para o cargo na cota do
PTB, de Roberto Jefferson, que, segundo o ex-chefe, "comandava com
mão-de-ferro" o esquema de arrecadação de dinheiro nos Correios para
o partido.
O episódio deu origem à CPMI dos Correios. A
Presidência da República recebeu um relatório oficial com os
resultados apurados em 40 departamentos dos Correios por equipes da
auditoria interna da estatal, Secretaria Federal de Controle
Interno, Tribunal de Contas da União (TCU) e Controladoria-Geral da
União.
Foram constatados 525 tipos de irregularidades
graves, a maior parte delas "de alto risco" para os cofres públicos.
Outra investigação da CPMI dos Correios
descobriu irregularidades no serviço de correio aéreo noturno que
também causaram prejuízos aos cofres públicos. Marinho foi despedido
da estatal por justa causa.
Mensalinho no cardápio
4 Restaurante Fiorella – Sebastião Buani,
concessionário do restaurante localizado no 10º andar da Câmara dos
Deputados, pagou mensalinho ao então presidente da Casa, deputado
Severino Cavalcanti (PP-PE).
A propina mensal, de R$ 10 mil, foi em troca de
um documento, assinado por Severino, em abril de 2002, prorrogando a
concessão de Buani até 2005. O deputado, apesar de negar a denúncia,
renunciou ao mandato e à presidência da Câmara.
O contrato de concessão venceu. Mais tarde,
Buani se disse admirador de Roberto Jefferson. "Dou muito valor ao
Roberto Jefferson porque sei o que passei."
A propina só pôde ser provada porque Buani
conseguiu cópia de um dos cheques com o banco.
Mensalão em hotel
8 Hotel Grand Bittar – Em setembro e
outubro de 2003, Marcos Valério reservou suítes no mesmo dia ou na
véspera de fazer saques em dinheiro vivo, no total de R$ 1,135
milhão, na conta da SMP&B no banco Rural.
A reserva de suítes aparece anotada na agenda da
ex-secretária Fernanda Karina, entregue à Polícia Federal.
Na agenda consta a anotação "Suíte VIP – 15º
andar no Gran (sic) Bittar", no dia 30 de setembro de 2003. Um dia
antes foram realizados dois saques no total de R$ 550 mil na conta
da SMP&B, no banco Rural.
Marcos Valério era acompanhado no hotel pela sua
ex-gerente-financeira Simone Vasconcelos. Karina contou que Simone
reclamou uma vez de cansaço de tanto "contar dinheiro" no quarto.
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