O lado satírico de
um Brasil precário
José
Dumont protagoniza "Narradores de
Javé", que estréia amanhã:
história ganhou interferência da
comunidade do interior da Bahia,
onde foi filmado
Paulo Sales
Eliane Caffé
utiliza o humor para contar uma
tragédia popular em "Narradores de
Javé"
Há algo de
burlesco em Narradores de Javé, um
dos filmes brasileiros mais
comentados e elogiados pela
crítica em 2003. Seu personagem
principal, o escrevinhador Biá
(José Dumont), pertence a uma
linhagem de anti-heróis que tem
como ponto de partida o visionário
Dom Quixote de La Mancha, do
espanhol Miguel de Cervantes.
Transposto para o Nordeste
miserável, encarnado na
cidadezinha baiana de Gameleira da
Lapa, esse humor picaresco ganha
em brasilidade e improviso, embora
Narradores de Javé não seja tudo
isso que dele andam falando.
Em cartaz a
partir de amanhã, Narradores de
Javé é uma obra assumidamente
popular, que ganhou forte
interferência da comunidade local
através da interação imprevista
com os atores e com o roteiro
original. Para Eliane, esse fator
foi tão intenso que a história
saiu das suas mãos. "Foi um filme
tomado. Houve toda uma realidade
imprevista que aconteceu a partir
do envolvimento de Gameleira da
Lapa. As pessoas trouxeram
conteúdos que permitiram uma
verossimilhança que eu jamais
imaginaria criar", afirma, em
entrevista ao Folha.
Gameleira da Lapa
é um lugarejo às margens do Rio
São Francisco, no oeste da Bahia.
A estrada que leva à cidade não
continua, ela é o ponto final.
Talvez por isso, seus habitantes
conservem de maneira tão íntegra a
ingenuidade. "Eles foram muito
receptivos, até porque nós éramos
o outro, o estrangeiro que chega e
traz informações de outros
lugares. Lá não existe aquele
código de falar "o que você quer
entrando na minha casa?", "qual a
sua intenção?". Eles vão te
convidando para entrar",
acrescenta.
Beneficiado por
um elenco repleto de gente
talentosa - Nelson Xavier, Rui
Resende, Nelson Dantas, Matheus
Nachtergaele -, Narradores de Javé
conta uma história de resistência:
a luta de um grupo de moradores
para evitar que o município onde
vivem, no fictício Vale do Javé,
seja tomado pelas águas de uma
represa. Partindo do princípio de
que só uma cidade de importância
histórica poderia ser poupada das
águas, eles se reúnem para mostrar
que Javé é importante, e contam as
lendas que falam da origem da
vila. Analfabetos, utilizam o
único letrado da cidade, Antonio
Biá, como escrevinhador.
Mas Biá não é um
tipo confiável: ex-funcionário da
única agência dos Correios na
cidade, que estava para fechar por
falta de correspondências, ele
mantinha o emprego escrevendo
cartas fictícias contando os
podres dos moradores. Acabou
banido da comunidade e mora em um
casebre. Com a necessidade, volta
a ser chamado para ouvir as lendas
e transcrevê-las num caderno. A
trama se concentra basicamente
nesse processo: Biá vai até as
casas dos moradores e registra as
histórias, enquanto briga com
quase todos eles.
"O Zé (Dumont) é
um dos melhores atores que a gente
tem no Brasil e no mundo. Ele
compreende o personagem sempre em
relação ao contexto da história.
Nesse sentido, muitas vezes
interfere na autoria. A cena do
conflito final é um exemplo dessa
interferência. Ele a improvisou
totalmente na hora, e foi um
improviso que mexeu com a
estrutura dramática da cena. Todo
o repertório de xingamentos também
é dele".
Narradores de
Javé é fruto de um rico trabalho
de expedição, empreendido pelo
interior de Minas e da Bahia. "A
inteligência coletiva, na medida
em que você vai aumentando o
repertório, te traz elementos
imaginativos ricos. O processo
criativo do filme foi tão marcante
para mim que eu gostaria de
conservar e repetir esse processo
daqui para a frente", revela.