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22-01-2004

O lado satírico de um Brasil precário
José Dumont protagoniza "Narradores de Javé", que estréia amanhã: história ganhou interferência da comunidade do interior da Bahia, onde foi filmado
Paulo Sales

Eliane Caffé utiliza o humor para contar uma tragédia popular em "Narradores de Javé"

Há algo de burlesco em Narradores de Javé, um dos filmes brasileiros mais comentados e elogiados pela crítica em 2003. Seu personagem principal, o escrevinhador Biá (José Dumont), pertence a uma linhagem de anti-heróis que tem como ponto de partida o visionário Dom Quixote de La Mancha, do espanhol Miguel de Cervantes. Transposto para o Nordeste miserável, encarnado na cidadezinha baiana de Gameleira da Lapa, esse humor picaresco ganha em brasilidade e improviso, embora Narradores de Javé não seja tudo isso que dele andam falando.

Em cartaz a partir de amanhã, Narradores de Javé é uma obra assumidamente popular, que ganhou forte interferência da comunidade local através da interação imprevista com os atores e com o roteiro original. Para Eliane, esse fator foi tão intenso que a história saiu das suas mãos. "Foi um filme tomado. Houve toda uma realidade imprevista que aconteceu a partir do envolvimento de Gameleira da Lapa. As pessoas trouxeram conteúdos que permitiram uma verossimilhança que eu jamais imaginaria criar", afirma, em entrevista ao Folha.

Gameleira da Lapa é um lugarejo às margens do Rio São Francisco, no oeste da Bahia. A estrada que leva à cidade não continua, ela é o ponto final. Talvez por isso, seus habitantes conservem de maneira tão íntegra a ingenuidade. "Eles foram muito receptivos, até porque nós éramos o outro, o estrangeiro que chega e traz informações de outros lugares. Lá não existe aquele código de falar "o que você quer entrando na minha casa?", "qual a sua intenção?". Eles vão te convidando para entrar", acrescenta.

Beneficiado por um elenco repleto de gente talentosa - Nelson Xavier, Rui Resende, Nelson Dantas, Matheus Nachtergaele -, Narradores de Javé conta uma história de resistência: a luta de um grupo de moradores para evitar que o município onde vivem, no fictício Vale do Javé, seja tomado pelas águas de uma represa. Partindo do princípio de que só uma cidade de importância histórica poderia ser poupada das águas, eles se reúnem para mostrar que Javé é importante, e contam as lendas que falam da origem da vila. Analfabetos, utilizam o único letrado da cidade, Antonio Biá, como escrevinhador.

Mas Biá não é um tipo confiável: ex-funcionário da única agência dos Correios na cidade, que estava para fechar por falta de correspondências, ele mantinha o emprego escrevendo cartas fictícias contando os podres dos moradores. Acabou banido da comunidade e mora em um casebre. Com a necessidade, volta a ser chamado para ouvir as lendas e transcrevê-las num caderno. A trama se concentra basicamente nesse processo: Biá vai até as casas dos moradores e registra as histórias, enquanto briga com quase todos eles.

"O Zé (Dumont) é um dos melhores atores que a gente tem no Brasil e no mundo. Ele compreende o personagem sempre em relação ao contexto da história. Nesse sentido, muitas vezes interfere na autoria. A cena do conflito final é um exemplo dessa interferência. Ele a improvisou totalmente na hora, e foi um improviso que mexeu com a estrutura dramática da cena. Todo o repertório de xingamentos também é dele".

Narradores de Javé é fruto de um rico trabalho de expedição, empreendido pelo interior de Minas e da Bahia. "A inteligência coletiva, na medida em que você vai aumentando o repertório, te traz elementos imaginativos ricos. O processo criativo do filme foi tão marcante para mim que eu gostaria de conservar e repetir esse processo daqui para a frente", revela.

 

 
 
 

Fonte:Correio da Bahia                                         Sitepopular

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