Fraudes
em licitações, desvios e má utilização de recursos do Fundef e uso de
notas fiscais falsas continuam liderando a tipologia de irregularidades
praticadas por gestores municipais e constatadas pela Controladoria-Geral
da União na 15ª edição do Programa de Fiscalização a partir de Sorteios
Públicos, cujos resultados estão sendo divulgados hoje. Nesta edição do
programa foram fiscalizadas 60 unidades municipais de todo o País,
totalizando recursos da ordem de R$ 253,2 milhões.
Um dos
casos mais graves, ocorrido em Boa Vista de Ramos, no Amazonas, envolveu
um saque de R$ 731,5 mil, feito a oito dias do final do mandato do
ex-prefeito municipal (2001-2004), da conta corrente de um convênio
firmado entre o Ministério da Saúde e a prefeitura com o objetivo de
construir uma estação de tratamento de esgotos. A obra não foi sequer
iniciada e a área onde seria construída a estação está ilegalmente ocupada
por cinco residências.
As
irregularidades constadas pela CGU, entretanto, não se restringem às
administrações municipais. Três empreendimentos privados financiados com
recursos do Finor e da Sudam, no valor total aproximado de R$ 10 milhões,
simplesmente não funcionam, apesar de os recursos já terem sido repassados
há pelo menos seis anos. Os empreendimentos ficam nos Estados do Piauí,
Mato Grosso e Minas Gerais (Veja mais detalhes:
R$ 10 milhões em projetos que não funcionam ).
Licitações fraudadas
Em
Guanambi, na Bahia, existem indícios de desvios de recursos do Fundef no
valor de R$ 230,9 mil. Em 2003 e 2004, a prefeitura simulou licitações
para a reforma e construção de escolas. Todos os certames foram fraudados,
pois as participações das empresas eram apenas para compor os processos
licitatórios, como constataram os fiscais da CGU, inclusive junto ao
promotor de Justiça da Comarca.
No
município de Juruti, no Pará, a prefeitura não comprovou a distribuição de
materiais didáticos e de expediente adquiridos no final do mandato do
ex-prefeito e no final do ano letivo, no valor total de R$ 228,8 mil. As
supostas compras foram feitas por meio de quatro licitações, três delas
vencidas pela empresa A.S.G. Castro, no valor total de R$ 151,1 mil. A
empresa vencedora da outra licitação, no valor de R$ 76,5 mil, é a Macomec
Comércio e Representações Ltda. Não consta registro de entrega dos
materiais, o que caracteriza desvio de recursos públicos à conta do
Fundef, e algumas empresas citadas como participantes das licitações não
foram localizadas.
Ainda em
Juruti, a prefeitura não aplicou o mínimo de 60% destinados pelo Fundef
para a remuneração dos profissionais do magistério, deixando de ser
utilizados mais de R$ 1,1 milhão em salários dos professores.
Já em
Poço Redondo , Sergipe, a prefeitura desviou R$ 119,5 mil da Saúde para
cobrir a folha de pagamento de servidores municipais. O dinheiro deveria
ter sido aplicado na ampliação da Unidade Mista de Saúde Dona Zulmira
Soares e na aquisição de equipamentos e materiais permanentes. Em Campo
Novo de Rondônia, Rondônia, a prefeitura sacou R$ 69 mil do convênio nº
45605 para construção de uma unidade básica de saúde antes do início da
obra. Em datas posteriores, repôs à conta do convênio apenas R$ 32,7 mil.
Empréstimo pessoal
Em Casa
Nova , Bahia, a prefeitura quitou prestações de empréstimos de Crédito
Direto ao Consumidor do Banco do Brasil, feito em nome de particulares,
com recursos do Fundef. As despesas indevidas chegam a R$ 478,7 mil.
Também utilizou recursos do Fundef para comprar um imóvel destinado à
instalação de uma unidade de extensão da Universidade do Estado da Bahia
(UNEB). O pagamento de R$ 50 mil refere-se à primeira de um total de dez
parcelas mensais. No mesmo município, a prefeitura não comprovou gastos de
R$ 218 mil do Fundef, feitos em 2003. Os valores foram sacados da conta do
Fundo sem que houvesse qualquer documento ou informação a respeito da sua
destinação.
Empresa de servidor
Em Uauá,
também na Bahia, uma obra para ampliação do sistema de abastecimento de
água, orçada em R$ 2,4 milhões, não atende à população, pois foi executada
com material divergente do previsto no plano de trabalho. A empresa Sane
Engenharia Ltda., contratada para a execução da obra, deveria ter usado
material em ferro fundido na construção da adutora. Entretanto, foram
empregados tubos de material sintético (PEAD), que não resistiram à
pressão e romperam-se.
Constatou-se que a empresa Sane Engenharia Ltda. tem como um dos sócios
Alberto Martins Pires Matos, servidor da Fundação Nacional de Saúde (Funasa).
Alberto Matos também é sócio da empresa Qualitycal Indústria e Comércio
Ltda. Essa empresa recebeu no início de 2004 um alvará do Departamento
Nacional de Produção Mineral para pesquisar calcário por três anos, em uma
área de 900 hectares no distrito de Curundundum.
Um
processo do Tribunal de Contas da União e do Tribunal de Contas dos
Municípios do Estado da Bahia condenou Alberto Matos, em julho de 2004,
por ter acumulado o salário de servidor federal e o de Secretário de Obras
do Município de Juazeiro, Bahia. Matos foi remunerado pelo menos nos anos
de 1999 e 2000 simultaneamente pelo município e pela Funasa, como consta
nos sistemas informatizados da Secretaria da Receita Federal.
Empresa particular
No
município de Marumbi, Paraná, a prefeitura recebeu R$ 48 mil do Ministério
do Desenvolvimento Social e Combate à Fome para a construção de Centro de
Geração de Renda, onde seriam desenvolvidas atividades de confecção,
atendendo inicialmente 50 famílias. No prédio do Centro, funciona uma
empresa particular, fabricante de bancadas de madeira. Trata-se da empresa
SB Indústria e Comércio de Bancadas São Benedito Ltda.
O
proprietário da empresa informou aos fiscais que aquele imóvel lhe
pertence (terreno e construções), pois foi cedido a ele pela prefeitura em
maio de 2002. Ele forneceu cópia da Lei Municipal nº 246/2002, de
14/05/2002, aprovada pela Câmara Municipal de Marumbi e sancionada pelo
então prefeito municipal, Claudiner Feliciano, pela qual fica o Executivo
Municipal autorizado a doar à empresa SB Indústria e Comércio de Bancadas
São Benedito Ltda. a posse do terreno.
Ainda em
Marumbi, a empresa Feliciano Indústria e Comércio de Confecções Ltda., de
propriedade de Adélia Lurdes, esposa do ex-prefeito (2001-2004), utilizou
as máquinas de costura destinadas ao Centro de Geração de Renda. As
máquinas foram adquiridas por R$ 80 mil, recursos do Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome repassados para equipar o Centro
de Geração de Renda. Entretanto, as máquinas estavam sendo usadas em
empresa particular. Adélia Lurdes também era, à época, vereadora e
presidente do Conselho Municipal de Assistência Social.
Notas falsas
Em Bodó,
Rio Grande do Norte, a prefeitura apresentou seis notas fiscais falsas
para comprovar despesas com recursos do Programa de Erradicação ao
Trabalho Infantil (Peti), no valor total de R$ 9 mil. Em Araripina,
Pernambuco, a empresa Edésio Marques de Medeiros emitiu nove notas fiscais
inidôneas, no valor total de R$ 16,1 mil, referentes a fornecimento de
materiais para a manutenção do Programa de Erradicação ao Trabalho
Infantil.
Em Santa
Luzia , Bahia, os fiscais constataram que algumas notas fiscais não foram
reconhecidas pelos representantes das empresas que as teriam emitido. Os
responsáveis por essas empresas declararam que nunca venderam à
prefeitura. As notas somam R$ 45,3 mil e teriam sido pagas com recursos do
Programa de Atenção Básica. A prefeitura não comprovou, ainda, saques da
conta corrente do PAB, no valor de R$ 48,2 mil. Ressalte-se que alguns dos
pagamentos encontravam-se nominais à própria prefeitura e não aos
respectivos credores.
Empresas não-localizadas
No
município de Juquiá, São Paulo, diversas empresas participantes de
licitações para compra de alimentos não foram localizadas nos endereços
indicados nos processos licitatórios. No endereço da empresa Domingos
Batista dos Santos existe um terreno baldio. A empresa teria vendido R$
78,3 mil à prefeitura.
Em Dois
Riachos , Alagoas, no endereço da empresa M.L. da Silva, suposta
fornecedora da prefeitura, existe uma residência. A empresa teria vendido
material de construção no valor de R$ 7,5 mil, destinados a uma obra do
Programa de Erradicação ao Trabalho Infantil (Peti). O programa estava
paralisado na data da emissão da nota fiscal, razão pela qual a despesa
não poderia ser atribuída ao Peti. Além disso, a nota fiscal é inidônea,
conforme informação da Secretaria de Fazenda do Estado de Alagoas.
Ainda em
Dois Riachos , constatou-se a devolução, por insuficiência de fundos, de
nove cheques emitidos pela prefeitura, no valor total de R$ 52,9 mil. Os
cheques são da conta do Fundef. Não foram apresentadas comprovações de
despesas no montante de R$ 295 mil, que teriam sido usadas para pagamento
de pessoal. A prefeitura realizou saques da conta do Fundef, para
pagamentos diversos, sem comprovar as despesas. Os saques foram efetuados
através de cheques nominais “à Prefeitura Municipal de Dois Riachos/AL” e
“ao emitente”. A prefeitura também emitiu, para pessoas físicas, cheques
que somam quase R$ 400 mil, também sem comprovação das despesas.
Urnas funerárias
A
prefeitura de Piraquê, Tocantins, utilizou R$ 2,4 mil do Programa de
Atenção Básica para pagar urnas funerárias e aluguel de imóvel para
enfermeiro, médico e odontólogo. Também gastou R$ 11,9 mil com outras
despesas não-autorizadas, como diárias para o Secretário Municipal da
Saúde (R$ 4,3 mil); diárias para médico; energia elétrica; telefones;
frete de veículos e aquisição de peças para veículo de propriedade da
enfermeira (R$ 7,6 mil).