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23/07/2005 - Incompetência: Polícia britânica mata brasileiro por engano

                                                               
 

 

 

 Sitepopular.com

Érica Fraga - Folha de São Paulo

Imagem: Reuters

A polícia britânica matou ontem o mineiro Jean Charles de Menezes, 27, na estação de Stockwell, no sul de Londres, após tê-lo confundido com terrorista ligado aos ataques da última quinta-feira na capital britânica.

Ele era natural de Gonzaga, no interior de Minas Gerais, e vivia há cerca de quatro anos em Londres trabalhando como eletricista.

Hoje, a Scotland Yard admitiu o erro e informou que o homem foi atingido cinco vezes na cabeça depois de ter se recusado a obedecer a ordens da polícia de parar dentro de um vagão do metrô.

"Um homem morrer nestas circunstâncias é uma tragédia e a Polícia Metropolitana lamenta", afirmou a Scotland Yard.

Menezes foi morto após supostamente pular as barreiras da estação e entrar em um vagão de trem, sem atender às ordens dos policiais.

Segundo a polícia britânica, o homem tinha saído antes de uma casa que era vigiada pelas forças de ordem por suspeitas de que pudesse ter um vínculo com os atentados de quinta-feira contra três estações do metrô e um ônibus.

Ontem, a polícia britânica liberou um homem preso na semana passada em Leeds (norte da Inglaterra) por suspeita de ligação com os ataques do último dia 7 em Londres --que deixaram 52 mortos, além de quatro suicidas.

Em outra ação, a polícia prendeu um suspeito de envolvimento nas explosões desta semana.

Os ataques desta quinta-feira (21) foram registrados às 12h30 (8h30 em Brasília) nos metrôs Warren Street (centro), Oval (sul) e Shepherd's Bush (oeste). Outro artefato explodiu em um ônibus que estava em Hackney Road, próximo à Columbia Road (leste). Ninguém ficou ferido.

 

 
Testemunhas contam como foi a morte do brasileiro no metrô de Londres

da BBC Brasil

 

O passageiro Mark Whitby estava na estação de metrô de Stockwell quando a polícia atirou no brasileiro Jean Charles de Menezes, na manhã de sexta-feira.

Ele contou à BBC que viu "um homem de aparência asiática" receber cinco tiros de "policiais à paisana" armados.

"Eu vi a arma ser disparada cinco vezes", disse Whitby depois de ser evacuado da estação junto com os demais passageiros do metrô.

"Eu estava no vagão lendo o meu jornal. Ouvi muito barulho e pessoas gritando: Abaixem-se, abaixem-se! Vi um homem de aparência asiática correr pelo trem sendo perseguido por três policiais à paisana. Um deles carregava uma pistola preta, parecia uma automática."

"Os homens jogaram ele no chão, imobilizando-o por cima e disparando cinco tiros nele."

Confusão

Alison Bowditch disse que a confusão ocorreu quando o metrô chegava à estação de Stockwell.

"A gente estava sentado, normalmente, quando começaram vários gritos, barulhos de tiros e pessoas gritando 'saiam, saiam'."

"Alguém certamente foi jogado no chão e ouvi disparos. Deduzi que alguém era o alvo."

Jason Dines, morador do bairro de Brixton, próximo a Stockwell, também estava no trem. "De repente me dei conta de que todo o mundo estava em pânico. Vi pessoas correndo na plataforma em direção à saída".

Ele conta que muita gente começou a bater nas janelas do vagão, implorando para que as deixassem sair.

"O barulho era tão grande que era impossível ouvir o que o condutor do metrô dizia no auto-falante". "O medo é uma coisa contagiosa. Meu coração disparou".

Dines afirma que as portas do trem foram abertas, mas o condutor queria que todo o mundo voltasse para os vagões.

As plataformas, segundo ele, ficaram mais vazias. "Nesse momento, as pessoas falavam de um homem baleado na plataforma oposta a que o meu trem estava."

 
 
Brasileiro desobedeceu polícia porque estava com pressa, diz prima

GABRIELA MANZINI
da Folha Online

 

Para a mineira Vivian Menezes, 21, o primo Jean Charles de Menezes, 27, morto ontem pela polícia britânica em um estação de metrô de Londres, não teria obedecido às ordens de parar porque estava com pressa para chegar ao trabalho.

O crime aconteceu no início da manhã. De acordo com a polícia, Jean pulou as barreiras da estação para entrar em um dos vagões. Após desobedecer as ordens para que parasse, foi morto com cinco tiros.

"Meu primo estava indo para o trabalho e eles disseram que ele teve uma atitude terrorista. Aqui é uma correria daquelas. Às vezes, você corre para pegar o metrô porque, se perder e estiver em cima da hora, só vai pegar outro dali três, quatro, dez minutos. Então ele foi baleado na cabeça, quando estava de costas. Foi uma estupidez muito grande, não tem como explicar", disse Vivian, que morava na mesma residência que o primo em Londres.

Jean atuava como eletricista e estava na capital britânica havia cerca de três anos. Fazia apenas três meses que voltara de sua última visita ao município de Gonzaga (MG), onde vivem seus pais e familiares, para morar com Vivian e mais uma prima. "O objetivo dele era se estabelecer aqui. Ele gostava muito do país, do idioma", conta Vivian.

No dia anterior ao crime, a capital britânica registrou quatro tentativas de explosões que tiveram trens de metrô e ônibus como alvo. Antes, no dia 7 deste mês, três explosões em trens e uma em um ônibus de dois andares deixaram 52 mortos. Outras 700 pessoas ficaram feridas.

Vivian disse estar "indignada" e afirma que as informações fornecidas pela polícia "deixam muito a desejar", apesar do apoio prestado. "Meu primo foi vítima da incompetência, da injustiça. Ele era completamente inocente."

 
 
Morte de brasileiro foi 'tragédia grotesca', diz 'Sunday Telegraph'
BBC-BR

A morte do brasileiro Jean Charles de Menezes é destaque neste domingo na primeira página de todos os principais jornais britânicos, que pedem que o caso seja investigado com rigor.

Em um editorial intitulado "Não entre em pânico, adapte-se", o The Sunday Telegraph diz que a morte do brasileiro foi uma "tragédia grotesca", mas afirma que é muito cedo para condenar a conduta dos policiais responsáveis pelo ocorrido.

"Neste clima volátil, a polícia é sujeita a pressões insuportáveis quando se deparam com um homem que eles acreditam ser um ativista suicida – e que se recusa a parar –, correndo para dentro de um vagão de metrô lotado."

O The Sunday Times, que estampa a manchete "Polícia matou homem errado", diz em que "as notícias da morte a tiros do homem na sexta-feira (...) destacaram até que ponto um rubicão foi cruzado na luta contra o terrorismo".

"Um homem inocente (...) foi, indiretamente, a vítima de dois ataques terroristas em Londres no espaço de duas semanas e do clima de paranóia que eles geraram. Diretamente, porém, ele foi vítima de uma falha da polícia."

Revolta possível

O The Mail on Sunday lembra que esta não é a primeira vez que a polícia britânica comete o mesmo erro. "A polícia mais uma vez matou o homem errado. Em vez de ele ser um terrorista, o homem morto em Stockwell parece ser um brasileiro inocente."

"Este é apenas mais um exemplo de erro humano? Ou ele reflete uma séria ameaça à vida civil, se a polícia vai começar a atirar primeiro e perguntar depois?", questiona o tablóide.

O jornal lembra pelo menos dois exemplos em que a polícia matou pessoas inocentes, em 1983 e em 1985. No caso de 85, a morte da vítima, uma mulher negra chamada Cherry Groce, levou a uma revolta de rua num bairro do sul de Londres onde vive uma numerosa comunidade negra, Brixton.

"O mesmo pode acontecer entre os muçulmanos, se mais erros do tipo forem cometidos."

Transparência

"Palavras de conforto não substituem os fatos e o governo, a polícia e os serviços de segurança tem uma obrigação de lidar honesta e abertamente com o público", diz o editorial do The Observer, intitulado "Nós estamos mais seguros se sabemos a verdade".

"O incidente de sexta-feira em que um homem inocente foi morto a queima-roupa em uma estação de metrô é um bom lugar para se começar. Ninguém duvida que a polícia está sob intensa pressão e enfrenta grande risco em sua busca pelos possíveis homens-bomba que estão entre nós. Por isso, eles não devem ter nada a temer ao divulgar o que aconteceu em Stockwell e em quais circunstâncias a polícia armada está autorizada a usar suas armas."

O The Independent também vai pela mesma linha, chamando a atenção para a necessidade de transparência da polícia no assunto.

"A confiança (na polícia) não aumentou após as explicações contraditórias do incidente pela polícia", diz um artigo no jornal.

"Imediatamente depois do ocorrido, a polícia metropolitana disse que o homem (Jean Charles de Menezes) passou a ser vigiado depois de ele 'ter saído de uma casa que estava estava sendo observada'. Sua 'roupa e seu comportamento' na estação fez aumentarem as suspeitas da polícia e ele foi morto depois de fugir dos policiais à paisana quando eles o confrontaram."

 
 

Corpo de brasileiro morto em Londres é recebido com emoção na cidade natal

 

Globo Minas

GONZAGA (MG) - Enrolado na bandeira nacional, o caixão com o corpo do mineiro Jean Charles de Menezes, Reutersmorto pela polícia em Londres, foi recebido com emoção, ao som do Hino Nacional, em sua cidade natal, Gonzaga, no leste do estado.

O corpo de Jean Charles de Menezes chegou no começo da tarde desta quinta-feira, por volta das 13h30m, à Praça da Matriz de Gonzaga, no leste mineiro. Na sexta-feira passada, ele foi assassinado com oito tiros por agentes à paisana da polícia londrina, que o confundiram com um suspeito de terrorismo.

Ao ver o caixão, no alto do carro do Corpo de Bombeiros e coberto com a bandeira do Brasil, os moradores de Gonzaga soltaram balões nas cores nacionais. Os pais, que chegaram cedo à Igreja da Matriz,onde é realizado o velório, receberam o corpo do filho com desolação.

Em Gonzaga, hoje é ponto facultativo e amanhã, dia do enterro, será feriado. Nesta sexta-feira, às 13h, será realizada a missa de corpo presente e, às 15h, o corpo do eletricista será enterrado no cemitério da cidade. O secretário-nacional dos Direitos Humanos, Mário Mamede, representa o presidente Lula no funeral.

A Polícia Militar mobilizou mais de 60 homens para garantir a segurança da despedida. Segundo informações da PM em Gonzaga, mais de mil pessoas estavam nesta tarde na Praça da Matriz. Os policiais organizam a fila de amigos e parentes que querem dar o último adeus a Jean Charles.
 

 

Fonte:  Sitepopular / agências internacionais

 

Os assuntos assinados são de responsabilidade dos  autores

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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