13/10/2003

                                  

         

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Presidente da Bolívia resiste a renúncia.


 

 
 
 
 


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Sánchez de Lozada resiste a pedidos de renúncia em meio à mais grave crise de seu governo







LA PAZ - Acossado por protestos por sua renúncia, pelo massacre de manifestantes e por um racha em seu governo, o presidente da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, disse nesta segunda-feira que não deixará o cargo e prometeu debelar a revolta.

O presidente afirmou ainda que há uma conspiração internacional contra seu país por trás da escalada da violência social - a mais grave desde a retomada da democracia na Bolívia, em 1982. Em quatro semanas, ao menos 42 pessoas morreram e 150 ficaram feridas.

Enquanto Sánchez de Lozada falava à nação, o caos se espalhava de El Alto, região metropolitana de La Paz, para o coração da capital. Dois civis morreram em choques com a polícia na cidade, onde milhares de manifestantes saquearam e incendiaram lojas à medida que avançavam para bairros residenciais.

Em El Alto, mais cinco pessoas morreram em confrontos com o Exército, um dia depois do massacre de quase 30 manifestantes por soldados no local. A cidade foi o epicentro dos protestos pela renúncia de Sánchez de Lozada e palco, semana passada, da convocação de uma greve geral contra um controverso projeto do governo de exportar gás natural para os EUA e para o México.

Apesar da pressão incessante, o presidente afirmou em pronunciamento à nação por rádio e TV que "derrotará os revoltosos" e prometeu "restaurar a ordem no país".

- É importante dizer ao povo da Bolívia que não renunciarei. A Bolívia está em perigo. Há um grande projeto subversivo organizado e financiado do exterior - disse o presidente, sem esclarecer que país ou organização estaria por trás da tentativa de desestabilizar seu governo de 14 meses. - Há uma conspiração que quer destruir a Bolívia e manchar de sangue a democracia. Não renunciarei - afirmou.

Minutos após seu pronunciamento, o Alto Comando das Forças Armadas emitiu um comunicado apoiando o presidente e advertindo os manifestantes que o Exército "preservará a ordem e a tranqüilidade em todo o território do país". O governo já havia acusado líderes da oposição de tramar um golpe de Estado e afirmado que o deputado e líder do movimento dos plantadores de coca, Evo Morales, era o artífice das manifestações. A mensagem foi divulgada minutos após uma reunião de emergência de Sánchez de Lozada com seu gabinete e a cúpula militar, realizada em meio a baixas políticas cada vez maiores no governo. O ministro de Desenvolvimento Econômico, Jorge Torres Obleas, pediu demissão na tarde desta segunda-feira em protesto pela forma com que o presidente administra a crise, pouco depois de o vice-presidente, Carlos Mesa, ter anunciado que retirava seu apoio a Sánchez de Lozada, sem renunciar.

Além disso, o partido Nova Força Republicana, que integra a coalizão de governo, anunciou que estuda a retirada de três ministros que representam o grupo na coalizão. O ministro da Fazenda, Javier Comboni, tentou minimizar o impacto das baixas afirmando que 'o presidente conta com o apoio de seus ministros", das Forças Armadas e da polícia.

A reunião de emergência foi convocada menos de 24 horas depois de 26 manifestantes terem morrido em El Alto, no domingo. Nesta segunda-feira, a Assembléia Permanente dos Direitos Humanos, que tenta mediar a crise juntamente com a Igreja Católica, condenou a ação do Exército em El Alto e disse que "não se tratava de choques e sim de um massacre". O vice Carlos Mesa, de 53 anos, ex-jornalista e neófito na política, afirmou:

- Como ser humano, como vice-presidente e homem de valores éticos não posso aceitar a quantidade de mortes sucessivas e initerruptas que esse conflito está provocando - disse Mesa. - Não posso aceitar que o governo responda pela imposição da autoridade, sem se importar com o custo em vidas humanas - afirmou Mesa, esclarecendo que não pretende renunciar.

Desencadeados há quatro semanas com uma barricada erguida por camponeses nas estradas de El Alto, os protestos na Bolívia terminaram paralisando quase por completo La Paz nesta segunda-feira, interrompendo o abastecimento de alimentos e gasolina para o centro do poder boliviano.





Sánchez de Lozada decretou lei marcial na madrugada desta segunda-feira em El Alto e suspendeu um projeto controverso de exportação de gás natural para os EUA e o México - pavio dos distúrbios. Sánchez de Lozada estuda vender gás das reservas bolivianas na região de Tarija, Sul do país, num negócio que geraria US$ 1,5 bilhão para a Bolívia. Mas líderes sindicais e indígenas - que acusam o governo de não conseguir lidar com a pobreza endêmica - afirmam que não serão beneficiados.

O presidente afirmou que nenhum novo acordo de exportação de gás será feito até que a sociedade se pronuncie através de 'consultas e debates' que deverão ser concluídas em dezembro.

A crise boliviana repercutiu na Casa Branca e levou a assessora de Segurança Nacional dos EUA, Condoleezza Rice, a pedir que a comunidade internacional dê "total apoio à ordem constitucional" no país e encontre uma solução pacífica para a crise. Numa referência indireta à possibilidade de um golpe de Estado, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gaviria, afirmou que "qualquer governo surgido de forma antidemocrática é absolutamente inaceitável para as Américas". Gaviria rechaçou com veemência os atos violentos ocorridos em várias regiões bolivianas, incluindo a capital, La Paz.
             

                    

 Fonte: oglobo