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Sánchez de
Lozada resiste a pedidos de renúncia em meio à mais grave crise
de seu governo

LA PAZ - Acossado por protestos por sua renúncia, pelo massacre
de manifestantes e por um racha em seu governo, o presidente da
Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, disse nesta segunda-feira
que não deixará o cargo e prometeu debelar a revolta.
O presidente afirmou ainda que há uma conspiração internacional
contra seu país por trás da escalada da violência social - a
mais grave desde a retomada da democracia na Bolívia, em 1982.
Em quatro semanas, ao menos 42 pessoas morreram e 150 ficaram
feridas.
Enquanto Sánchez de Lozada falava à nação, o caos se espalhava
de El Alto, região metropolitana de La Paz, para o coração da
capital. Dois civis morreram em choques com a polícia na cidade,
onde milhares de manifestantes saquearam e incendiaram lojas à
medida que avançavam para bairros residenciais.
Em El Alto, mais cinco pessoas morreram em confrontos com o
Exército, um dia depois do massacre de quase 30 manifestantes
por soldados no local. A cidade foi o epicentro dos protestos
pela renúncia de Sánchez de Lozada e palco, semana passada, da
convocação de uma greve geral contra um controverso projeto do
governo de exportar gás natural para os EUA e para o México.
Apesar da pressão incessante, o presidente afirmou em
pronunciamento à nação por rádio e TV que "derrotará os
revoltosos" e prometeu "restaurar a ordem no país".
- É importante dizer ao povo da Bolívia que não renunciarei. A
Bolívia está em perigo. Há um grande projeto subversivo
organizado e financiado do exterior - disse o presidente, sem
esclarecer que país ou organização estaria por trás da tentativa
de desestabilizar seu governo de 14 meses. - Há uma conspiração
que quer destruir a Bolívia e manchar de sangue a democracia.
Não renunciarei - afirmou.
Minutos após seu pronunciamento, o Alto Comando das Forças
Armadas emitiu um comunicado apoiando o presidente e advertindo
os manifestantes que o Exército "preservará a ordem e a
tranqüilidade em todo o território do país". O governo já havia
acusado líderes da oposição de tramar um golpe de Estado e
afirmado que o deputado e líder do movimento dos plantadores de
coca, Evo Morales, era o artífice das manifestações. A mensagem
foi divulgada minutos após uma reunião de emergência de Sánchez
de Lozada com seu gabinete e a cúpula militar, realizada em meio
a baixas políticas cada vez maiores no governo. O ministro de
Desenvolvimento Econômico, Jorge Torres Obleas, pediu demissão
na tarde desta segunda-feira em protesto pela forma com que o
presidente administra a crise, pouco depois de o
vice-presidente, Carlos Mesa, ter anunciado que retirava seu
apoio a Sánchez de Lozada, sem renunciar.
Além disso, o partido Nova Força Republicana, que integra a
coalizão de governo, anunciou que estuda a retirada de três
ministros que representam o grupo na coalizão. O ministro da
Fazenda, Javier Comboni, tentou minimizar o impacto das baixas
afirmando que 'o presidente conta com o apoio de seus
ministros", das Forças Armadas e da polícia.
A reunião de emergência foi convocada menos de 24 horas depois
de 26 manifestantes terem morrido em El Alto, no domingo. Nesta
segunda-feira, a Assembléia Permanente dos Direitos Humanos, que
tenta mediar a crise juntamente com a Igreja Católica, condenou
a ação do Exército em El Alto e disse que "não se tratava de
choques e sim de um massacre". O vice Carlos Mesa, de 53 anos,
ex-jornalista e neófito na política, afirmou:
- Como ser humano, como vice-presidente e homem de valores
éticos não posso aceitar a quantidade de mortes sucessivas e
initerruptas que esse conflito está provocando - disse Mesa. -
Não posso aceitar que o governo responda pela imposição da
autoridade, sem se importar com o custo em vidas humanas -
afirmou Mesa, esclarecendo que não pretende renunciar.
Desencadeados há quatro semanas com uma barricada erguida por
camponeses nas estradas de El Alto, os protestos na Bolívia
terminaram paralisando quase por completo La Paz nesta
segunda-feira, interrompendo o abastecimento de alimentos e
gasolina para o centro do poder boliviano.
Sánchez de Lozada decretou lei marcial na madrugada desta
segunda-feira em El Alto e suspendeu um projeto controverso de
exportação de gás natural para os EUA e o México - pavio dos
distúrbios. Sánchez de Lozada estuda vender gás das reservas
bolivianas na região de Tarija, Sul do país, num negócio que
geraria US$ 1,5 bilhão para a Bolívia. Mas líderes sindicais e
indígenas - que acusam o governo de não conseguir lidar com a
pobreza endêmica - afirmam que não serão beneficiados.
O presidente afirmou que nenhum novo acordo de exportação de gás
será feito até que a sociedade se pronuncie através de
'consultas e debates' que deverão ser concluídas em dezembro.
A crise boliviana repercutiu na Casa Branca e levou a assessora
de Segurança Nacional dos EUA, Condoleezza Rice, a pedir que a
comunidade internacional dê "total apoio à ordem constitucional"
no país e encontre uma solução pacífica para a crise. Numa
referência indireta à possibilidade de um golpe de Estado, o
secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA),
César Gaviria, afirmou que "qualquer governo surgido de forma
antidemocrática é absolutamente inaceitável para as Américas".
Gaviria rechaçou com veemência os atos violentos ocorridos em
várias regiões bolivianas, incluindo a capital, La Paz.
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