"A Tarde" aplica
calote de quase R$1 milhão em Salvador
Diretores do
jornal não cumprem seus deveres com a
prefeitura porque acham que só pobre
deve pagar impostos
A Empresa
Editora A Tarde está entre os maiores
caloteiros de impostos municipais, de
acordo com levantamento feito pela
Procuradoria Fiscal da prefeitura de
Salvador. De acordo com o relatório da
dívida ativa divulgado ontem, com os
valores consolidados até julho deste
ano, o jornal A Tarde deve à prefeitura,
referentes a Imposto Sobre Serviço (ISS)
e IPTU, nada menos que R$733.415,64.
A dívida
está sendo cobrada judicialmente, com
ações em diversas varas da Fazenda
Pública, mas os processos, por conta de
tráfico de influência e manobras
protelatórias, andam a passos lentos, a
ponto de procuradores municipais terem
pouca esperança de que algum dia a
prefeitura receba os valores devidos.
Segundo
estes mesmos procuradores, o jornal A
Tarde é contumaz sonegador de impostos,
não só municipais, mas estaduais e
também federais. E para evitar que a
prefeitura consiga na Justiça a penhora
de bens, para serem levados a leilão de
modo a saldar a dívida, sempre recorre
ao parcelamento previsto em lei, mas
nunca honra o pagamento das parcelas. O
calote vem sendo aplicado há anos e,
embora sempre haja o reconhecimento da
dívida e o pedido de parcelamento para
evitar a penhora, as parcelas nunca são
honradas. Há parcelas de financiamento
de dívida até do valor irrisório de
R$571,85, que A Tarde não paga desde
1999.
O mais
grave, segundo os procuradores, é que A
Tarde pratica o crime de apropriação
indébita, pois, ao prestar o serviço,
cobra do cliente o ISS e embolsa o
dinheiro, em vez de recolher os valores
aos cofres municipais. Só por conta de
débitos com o ISS, A Tarde responde a
pelo menos seis ações de execução nas
diversas varas da Fazenda da Justiça
baiana.
"Devo, não
nego, e não pago, ao que parece é o lema
de A Tarde quando se trata de impostos.
O jornal, que se arvora defensor da
cidadania, da moralidade, da justiça
social, e que cobra ações dos órgãos
públicos para melhorar a qualidade de
vida na cidade, não cumpre o mais
comezinho dos deveres para com a cidade
e a cidadania, que é pagar os impostos
devidos, de modo a que os órgãos possam
funcionar e os servidores públicos sejam
remunerados devidamente. Nem mesmo o
Imposto Predial e Territorial Urbano, o
IPTU, que é cobrado até do mais simples
dos cidadãos, A Tarde paga.
Pelo menos
desde o dia 20 de abril de 1999, A Tarde
não paga uma parcela sequer do IPTU. E
utiliza toda a sua força de persuasão,
seja na Justiça, seja nas negociações,
para evitar o pagamento. "As informações
que temos é de que o problema não ocorre
apenas com relação aos impostos
municipais. Os débitos de A Tarde com
impostos, principalmente impostos
federais, chega a R$20 milhões. Só com o
INSS são mais de R$6,3 milhões, mas tem
se livrado da cobrança por conta da
prestação de serviço a petistas e
peemedebistas", informou um procurador
que, para evitar perseguição, pediu para
que não seja publicado o seu nome.
Segundo ele, o jornal recorreu ao Refis,
não pagou em dia as parcelas previstas,
foi excluído e agora, ao que se informa,
aderiu ao Refis II. Não se sabe se tem
honrado o parcelamento.
O procurador
explicou que, da dívida de R$733.415,64,
um total de R$353.203,74 são de parcelas
já vencidas, e o restante, R$380.211,90,
são valores a vencer, e que o jornal não
revela intenção de pagar. Segundo ele,
50% do total da dívida se encontra em
cobrança judicial, com ações nas varas
da Fazenda Pública. Todas as parcelas -
explicou - estão em atraso, algumas
delas com até 13 meses (processos 1.103,
1.104, com dois parcelamentos).
A estratégia
utilizada por A Tarde para dar calote e
impedir a penhora e o leilão de bens,
segundo o procurador, é sempre a mesma:
reconhece a dívida e pede o parcelamento
no máximo de parcelas permitido em lei -
48 parcelas. E há casos em que sequer
paga a primeira prestação.
Indignado
com o falso moralismo de A Tarde,
lamenta que os herdeiros do jornalista e
educador Simões Filho não passem hoje de
meros sonegadores, que não cumprem o que
se exige de qualquer cidadão íntegro,
que pague seus impostos. "O caloteiro do
Sílvio Simões, com sua pose de
aristocrata, deve achar que quem paga
imposto é pobre", desabafou o
procurador. |