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Letícia Belém
As águas minerais subterrâneas extraídas e
engarrafadas em Dias d’Ávila, a sete quilômetros do Pólo Petroquímico de
Camaçari, não sofrem análise especializada para garantir que estão livres
de contaminação industrial por resíduos petroquímicos, substâncias
orgânicas, clorados e ácidos.
Tanto a Vigilância Sanitária da Secretaria Estadual de Saúde quanto o
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) se preocupam em analisar
periodicamente
apenas
possíveis contaminações por bactérias, coliformes fecais e totais,
características naturais da água (cálcio, sódio, etc.) e potabilidade,
como ph, turbidez, temperatura e dureza, conforme determinam o Código de
Águas Minerais (Lei 7.841/45) e as normas da Vigilância Sanitária para
alimentos (Lei 3.982/81).
Segundo Lauro de Oliveira, químico responsável pelo laboratório
especializado de análises de águas subterrâneas minerais de todo o País (Lamim),
contratado pelo DNPM, a checagem destes parâmetros são essenciais, já que
há um risco iminente e uma grave suspeita de que as águas minerais
consumidas no Estado estejam também contaminadas.
“Os órgãos de saúde deveriam estar fiscalizando isto severamente, porque
envolve saúde pública, mas o controle é muito precário e os custos são
muito altos”, explicou o químico. O Lamim coleta amostras das águas
minerais de Dias d’Ávila apenas para a análise química que é vista nos
rótulos, mas nada de contaminação industrial.
Estudos geofísicos realizados em parceria com a Universidade Federal da
Bahia e com a Cetrel (Empresa de Proteção Ambiental do Pólo) indicaram que
o maior reservatório de água doce subterrânea do Estado contém extensas
manchas poluentes, em alguns lugares com a profundidade de 100 metros.
Entre os contaminantes estão 35 substâncias químicas despejadas sem
controle pelas indústrias desde a implantação do Pólo, em 1977, que não
podem ser ingeridas por ser perigosas para a saúde e cancerígenas, com
efeitos a longo prazo. O superintendente da Cetrel, Carlos Eugênio,
garante que a contaminação está confinada na área do Pólo e que nenhuma
gota desta água está sendo consumida.
“Está na hora de o governo do Estado se preocupar”
“A gente bebe sem saber o que está bebendo porque não há órgãos que
analisem esta água e nem uma legislação que exija. A gente não pode ficar
fingindo o tempo todo que não há riscos”, comentou a doutora em engenharia
ambiental da Ufba Iara Brandão
O hidrogeólogo Francisco Negrão enfatiza que cabe à sociedade cobrar o
acesso às informações para poder cobrar soluções. “Está na hora de o
governo do Estado se preocupar em fiscalizar o problema de forma
responsável e divulgar os resultados para a sociedade”.
O diretor de controle ambiental do Centro de Recursos Ambientais (CRA),
Ronaldo Martins, admitiu que não tem como garantir que a remediação feita
pela Cetrel é suficiente para contaminar as camadas mais profundas do solo
e nem as águas de Dias d’Ávila. A Cetrel não divulga os relatórios anuais
de monitoramento do aqüífero “porque estes dados pertencem às empresas do
Pólo”.
O QUE É FEITO – Segundo a diretora da Vigilância Sanitária da Sesab,
Raylene Logrado, o monitoramento das águas minerais é feito por meio de
coleta do material na fonte, que é analisado no Laboratório Central do
Estado (Lacem), que não analisa a presença de metais pesados, ácidos ou
organoclorados, presentes no lençol freático contaminado pelo Pólo. “Todas
as engarrafadoras de água mineral estão na região metropolitana próximo ao
Pólo Petroquímico, com alvará sanitário atualizado, com boas condições de
higiene e nenhuma delas apresentou indícios de contaminação comprovados
por qualquer substância”, afirmou.
O geólogo Antônio Rodrigues, do DNPM, órgão federal que dá a autorização
para exploração de água subterrânea, explicou que o controle de qualidade
das águas minerais é feito pela própria engarrafadora, com uma
contra-prova feita por outro laboratório. O monitoramento feito pelo DNPM
é através do Lamim, que só analisa características de potabilidade,
bacteriológicas, físico-químicos, mas nada de contaminação industrial.
O chefe substituto do DNPM, José Admário, avalia que as indústrias não
deveriam ter sido instaladas sobre um manancial que poderia abastecer
Salvador e afirma que os maiores poluidores de mananciais são os postos de
gasolina, aterros sanitários e lixões, indústrias e falta de saneamento
básico.
Engarrafadoras dizem ter controle
O responsável pelo laboratório Senai/Cetin (Centro de Tecnologia
Industrial), Edvaldo Queiroz, afirmou que recebe amostras de fornecedores
para fazer análise de água dentro dos parâmetros relacionados à
potabilidade pedidos pelo cliente. Eles analisam dados microbiológicos,
metais, inorgânicos, mas não avaliam organoclorados, ácidos e solventes.
Todas as engarrafadoras de água mineral informaram que possuem um controle
de qualidade feito em laboratório próprio e todas as amostras são
analisadas também fora do Estado, com análises fisico-químicas e
microbiológicas, e que as águas não oferecem qualquer perigo à saúde.
A Ambev, situada no Pólo, produtora das cervejas e refrigerantes
Antarctica, Brahma, Skol, Bohemia, Gatorade, Sukita, Pepsi, Guaraná
Antarctica e Ice Tea, informou que retira a água a dez quilômetros de
distância do Pólo, no distrito de Monte Gordo, a 400 metros de
profundidade, e analisa periodicamente em laboratório próprio e envia
também para um em Jacaraí, São Paulo.
O responsável pelo escritório operacional da Embasa em Camaçari, Reginaldo
Pereira, informou que a exploração das águas que abastecem a sede do
município é feita através de cinco poços a uma profundidade de 300 metros
no Espaço Alpha, a dez quilômetros do Pólo. O abastecimento da orla, de
Catu de Abrantes a Arembepe, é feito em quatro poços em Machadinho, a 16
quilômetros do Pólo.
Em Dias d’Ávila, a Embasa explora através de quatro poços na Praça do
Balneário, a oito quilômetros do Pólo. Antes de chegar às torneiras, a
água passa na estação de tratamento para receber flúor e cloro.
A química do laboratório da Embasa Márcia Qualrk informa que faz a análise
integral conforme exige a Portaria 518 do Ministério da Saúde, ou seja,
microbiológica, hidrobiológica, físico-química e os metais pesados,
orgânicos e ácidos e nenhum traço de contaminação foi encontrado. “A
análise é feita mensalmente e é excelente”, informou, sem disponibilizar
os dados.
O prefeito de Camaçari, Luiz Caetano (PT), e a prefeita de Dias d’Ávila,
Andréa Cajado (PFL), mostraram-se muito preocupados com a possível
contaminação das águas minerais. Caetano solicitou uma audiência com a
ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, na próxima quarta-feira e irá
pedir uma comissão técnica do governo federal para avaliar os riscos de
perto e marcou uma reunião com a Cetrel, o CRA e o Ibama para solicitar
informações.
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