A Controladoria Geral da
União (CGU) determinou o bloqueio do repasse de recursos públicos a uma
organização não-governamental (ONG) que teria recebido R$ 800 mil do
Ministério da Saúde sem prestar os serviços médicos e odontológicos
previstos. A ONG, no caso, é a Fundação Apropriano Sá, presidida pela mulher
do ex-deputado Múcio Sá (PSB-RN). "Foi constatado que a entidade não presta
nenhum tipo de atendimento", concluiu a CGU, segundo reportagem da
Folha de S. Paulo.
Nos últimos quatro anos, Sá passou parte da atual legislatura como suplente
de deputado federal. Em junho, foi denunciado pelo Ministério Público como
um dos parlamentares que teriam se beneficiado do esquema dos sanguessugas.
Nesse período, Múcio Sá obteve a liberação de R$ 2 milhões para a entidade
que leva o nome de seu avô. Desse total, a CGU conseguiu bloquear os
pagamentos de R$ 1,2 milhão no início do mês, relatam as repórteres Marta
Salomon e Luciana Constantino.
Conforme revelou o
Congresso em Foco em reportagem
publicada em setembro, Múcio contou com a ajuda do líder do governo no
Congresso, o senador Fernando Bezerra (PTB-RN), que destinou expressiva soma
de recursos do orçamento federal para a fundação. Por meio de emenda
individual, o senador incluiu no orçamento de 2004 R$ 1 milhão em favor da
Fundação Aproniano Sá.
A entidade é acusada pelo
Ministério Público de ter recebido da empresa Planam "seis pagamentos
indevidos que variavam entre R$ 5 mil e R$ 15 mil, em razão do exercício de
suas funções de direcionamento de emendas parlamentares", segundo denúncia
apresentada no último dia 1º de junho pelos procuradores da República Mário
Lúcio Avelar e Paulo Gomes Ferreira Filho.
Na análise da proposta orçamentária para 2007, os parlamentares derrubaram
do relatório do Orçamento a regra que impediria o repasse de verbas federais
a entidades privadas comandadas por parentes em até terceiro grau. A votação
aconteceu na noite da última segunda-feira.
A regra proposta pelo relator Valdir Raupp (PMDB-RO) inviabilizaria a
repetição de casos como o da Fundação Aproniano Sá ou da Fundação Cristiano
Varella, da família do deputado Lael Varella (PFL-MG), que administra um
hospital em Muriaé (MG) e já recebeu mais de R$ 30 milhões dos cofres
públicos.
O caso da Fundação Aproniano Sá é mais um exemplo da falta de controle nas
parcerias do governo federal com organizações não-governamentais, destaca a
Folha. A CGU estima que as parcerias
do governo federal com entidades não-governamentais tenham consumido R$ 33,8
bilhões desde 1999.
No domingo passado, reportagem do jornal mostrou que ONGs consideradas
ineptas consumiram 54,5% dos recursos repassados a entidades em 28
convênios, de acordo com auditoria feita pela Controladoria Geral da União.
"A falta de critério da legislação para a escolha das entidades que
receberão os recursos e a falta de transparência na prestação de contas
resulta no inaceitável mecanismo, que hoje prevalece, pelo qual o Estado
distribui recursos sem recorrer a edital público, transformando o caso numa
espécie de "ação entre amigos'", dizia o relatório aprovado pelo TCU.
Nos "Planos de Trabalho" entregues ao Ministério da Saúde, a Aproniano Sá
informou que presta serviços médicos em várias especialidades. A
fiscalização da CGU detectou, porém, que a fundação não é cadastrada como
estabelecimento de saúde e, em sua sede, não possui estrutura para
atendimento médico ou odontológico. Na sexta-feira, a
Folha não conseguiu localizar Múcio
Sá no telefone de sua residência nem no celular.
O repasse de dinheiro público à fundação da família Sá foi autorizado por
meio de emendas parlamentares. No Orçamento de 2007, cada parlamentar terá
direito a uma cota de R$ 6 milhões para emendas.
Governo tem 12 funcionários para fiscalizar 4
mil ONGs
O Ministério da Justiça tem
uma equipe de 12 funcionários para fazer a análise formal das contas anuais
de mais de 4 mil organizações não-governamentais (ONGs) registradas no país,
revela reportagem do jornal O Globo.
Os demais ministérios,
obrigados por lei a fiscalizar a aplicação de cada centavo repassado às ONGs,
não dispõem de equipes específicas para avaliar as prestações de contas, diz
a matéria do repórter Jailton de Carvalho.
Para agravar a situação,
observa a reportagem, a investigação da Controladoria Geral da União e do
Tribunal de Contas da União (TCU) é esporádica e casual. Além disso, as
entidades apenas submetem seus números aos fiscais quando são pegas em
auditorias de grandes programas financiados pelo governo federal.
Um relatório sobre as
falhas do sistema de controle está em poder do secretário-geral da
Presidência, Luiz Dulci. Em função da falta de estrutura, o procurador Lucas
Furtado, chefe do Ministério Público no TCU, diz que "só não desvia dinheiro
hoje quem não quer". O Tribunal de Contas da União estima que o governo
repasse R$ 8 bilhões por ano às ONGs.