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Salvador - “Dança gente bem, dança
pau-de-arara, dança gente jovem e velho
qua
qua
qua”, a letra da música
que abre passagem para trio elétrico Armandinho, Dodô e Osmar retrata bem o
carnaval dos descendentes
de Dodô e Osmar, a “dupla elétrica” inventora da guitarra baiana e do trio
elétrico, marcas incontestáveis do carnaval de Salvador. O grupo só toca
para a “pipoca” e se recusa a formar um bloco e fazer um carnaval com cordas
e abadás vendidos. O único abadá é o “abadado” (abadá dado), que é trocado
por leite em pó e distribuído para entidades carentes de Salvador. Com essa
concepção, o que se pôde ver esta madrugada (25) na passagem pelo circuito
que leva o nome de Dodô, na Barra-Ondina, orla da cidade, foi muita
empolgação e nenhuma briga.
“A corda segrega, é por isso que dá briga. Quando não tem corda, não tem
briga”, ressalta Aroldo Macêdo, um dos quatro filhos de Osmar Macêdo, que
toca guitarra baiana com os outros três irmãos: Armandinho, a estrela do
trio, considerado um dos melhores guitarristas do mundo, André, o vocalista
do grupo, e Betinho, baixista. A única experiência com a corda que separa os
integrantes do bloco dos que não compraram abadás ocorreu em 1996 com o
bloco Adrenalina. De tão frustrante, no outro ano, o Adrenalina já deixou de
existir e a turma voltou a tocar para a “pipoca”. “Aprendemos que carnaval é
para sentir alegria, para brincar, ouvir música. Não é para ganhar dinheiro.
Fazer o quê? Fomos educados assim”, ressalta Aroldo. A afirmação faz
sentido, tanto que as duas invenções do patriarca da família de músicos e de
seu amigo Dodô (a guitarra baiana e do trio elétrico) não foram patenteadas
por eles. Em entrevista à Agência Brasil, na madrugada de
hoje, logo depois de arrastar uma multidão pelo circuito Barra-Ondina,
Armandinho disse que seu pai, que era metalúrgico, nunca teve noção da
revolução que causaria no carnaval da cidade ao sair, em 1950, ao lado do
técnico eletrônico Dodô, a bordo da velha fubica, equipada com um
amplificador e fazendo uma festa aberta a todos.
O trio que desfila atualmente é o chamado Fubicão, uma réplica, em tamanho
gigante da velha fubica, que subia a “Montanha” [uma das ladeiras que dá
acesso à parte alta de Salvador] e fazia a festa dos foliões. Só nos
anos 1980, os trios começaram a crescer e ganharam os caminhões.
“Meu pai, quando via, isso já nos anos 1980, 1990, sentado em cima do trio,
olhava aquela loucura que era o encontro de trios e dizia: ‘Meu Deus, nunca
imaginei que aquela brincadeirinha para tomar uma cachacinha e sair
brincando na rua ia dar nisso”, conta Armandinho. Ele comenta que entre as
décadas de 60 e 70 em houve uma estagnação dos trios. "Não aumentava nem
diminuía. Era o Jacaré, o Tapajós, até voltar o Dodô e Osmar com o Caetanave".
Mas hoje, Armandinho considera que o cenário mudou. "São muitos trios, com
artistas e estrelas globais. Virou uma coisa de mídia e o público acaba
ficando sentadinho. Quem não está no camarote fica nas calçadas, junto ao
isopor de cerveja, tomando, porque quer ver todos passarem. Ir atrás de uma
estrela do carnaval,. Se não tiver o abadá, tem que ir na ‘muvuca’, e aí,
tem seus perigos, principalmente para quem não é daqui [de Salvador]”,
criticou.O astral da turma que vai atrás do trio de Armandinho, Dodô e
Osmar, na opinião do próprio músico, tem suas razões na própria qualidade da
música feita pela turma.
“A gente faz uma música mais elaborada, toca clássicos e quem é de briga não
está para curtir essas coisas. Tem gente que não entende nada de música,
quer ir para o carnaval para ver o sucesso, quer ir para brigar. Com a gente
só vai quem realmente curte o som. No carnaval tem muita briga, mas atrás do
nosso trio elétrico essa galera não vem. Pode até passar de vez em quando,
mas a galera que está aqui só quer curtir mesmo o som, tranqüilo. Não tem
corda, é livre”, completou.
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