Que
palhaçada é essa de todo mundo sair pedindo
desculpas aos moradores do Morro da Providência no
Rio de Janeiro, por causa de um assassinato cometido
por traficantes rivais no Morro da Mineira,
contra
três jovens daquela comunidade, que provavelmente
também tinham ligações com traficantes, depois de
terem sido entregues a seus algozes por meia dúzia
de garotos fardados, não sem justificativa,
revoltados com o desrespeito atrevido e impune de
criminosos a uma instituição como o Exército
Brasileiro?
O comandante do
Exército? O chefe do Estado-Maior do Comando Militar
do Leste? O Congresso Nacional? Todo mundo pedindo
desculpas? Por quê?
Se alguém tem que se
desculpar, não só com aquela gente, embora também
com ela, é o excelentíssimo senhor presidente da
república, Lula da Silva, que, por acaso, só abriu a
boca para classificar o episódio como “abominável” e
para determinar que uma comissão da Secretaria
Especial de Direitos Humanos investigasse o caso.
Abominável, senhor
presidente? Abominável foi o senhor ter dado a ordem
para que o Exército entrasse no morro da Providência
para dar guarida a um projeto eleitoreiro de seu
companheiro de ideais, o senador Marcelo Crivela,
ignorando solenemente todas as recomendações em
contrário, documentadas e devidamente assinadas,
encaminhadas ao senhor, pelo seu Comandante do
Exército, que o senhor deve achar que também chegou
ao ‘poder’ sem muito ter trabalhado e estudado para
isso - portanto, um bobalhão a quem não se precisa
dar ouvidos. Ao agir assim, com plena consciência
dos riscos que a operação representava, o senhor
presidente atraiu todas as responsabilidades sobre
estes riscos para si.
Vai dizer que não
sabia disso, que não sabia de nada, como sempre? É
que honra, dignidade, seriedade, responsabilidade
são coisas que ou se tem ou não se tem dentro de si.
Nada disso pode ser comprado, nem mesmo
secretamente, por meio de cartão corporativo, por
exemplo, não é mesmo?
O Exército tinha que
pedir desculpas mesmo. Mas, não àquela comunidade,
ou pelo menos não somente a ela. O EB está devendo
desculpas e explicações a toda sociedade brasileira,
já faz um longo tempo. E não é por causa desse
negócio de ‘tempos da ditadura’ que colocaram o país
na posição de oitava economia do mundo, não,
inclusive com pleno emprego. A Instituição das FFAA,
portanto incluídas aqui Marinha e Aeronáutica, deve
se desculpar perante a sociedade por estar
desempenhando o papel de muda e de omissa, durante
pelo menos os últimos 20 anos, recolhida à clausura
de seus próprios problemas, chamados
‘militares-técnico-operacionais’, como se estes
problemas não fossem também, e principalmente, os da
própria sociedade, que paga seus impostos para ter
Forças Armadas que lhe garanta soberania,
integridade territorial e segurança.
Somente agora, apenas
para dar um exemplo, quando talvez já seja tarde,
pela voz do General Heleno, que obviamente pôde
contar com o beneplácito da colaboração da imprensa
em destacar a matéria, é que o Brasil inteiro ficou
sabendo do sério risco que corremos de termos que
conviver com ilhas de poder paralelo, compostas por
nações indígenas, entrecortando o território
nacional. Será que, agora, nessa altura do
campeonato, conseguiremos resolver a contento para
os brasileiros esse problemão? Não serão também
responsáveis por esta situação aqueles que dela
sabiam e que, em cargos importantes, talvez pudessem
ter sido ouvidos se tivessem falado a respeito, mas
que preferiram se esconder atrás do conceito
deturpado de disciplina e de hierarquia, para
proteger estes mesmos cargos?
As Forças Armadas
devem desculpas também aos brasileiros por terem
distribuído medalhas da Instituição a pessoas que
delas não faziam, absolutamente, jus.
Personalidades, indivíduos, fardados ou não, podem
lá puxar o saco de quem bem entenderem. Cada um que
se coloque o próprio preço. Mas, usar honras
institucionais das FFAA para dar vazão a conceitos
subjetivos de mérito, baseados em escolhas de
caráter pessoal, ignorando as especificidades
meritórias bem definidas, inclusive por escrito,
destas medalhas, é atitude de quem não consegue
distinguir o público do privado – de quem acha que
‘tomar posse’ em cargo de chefia de instituição é o
mesmo que tomar posse da própria instituição.
Como é que as FFAA se
permitiram chegar nesse estágio de sucateamento, de
aviltamento salarial, de se deixar humilhar
publicamente, muitas vezes sob acusações mentirosas
sobre elas? Quem é que vai se desculpar perante os
brasileiros diante das nefastas conseqüências que
essa situação vem produzindo na vida nacional?
E o Congresso
Nacional, então, pedindo suas desculpas à comunidade
no Morro da Providência? O que significa isso? Uma
piada? Um deboche?
Não me lembro de ter
visto movimentação no sentido de pedir desculpas,
por exemplo, aos familiares das vítimas do avião da
TAM que se acidentou em Congonhas no ano passado,
matando 199 pessoas. Por que o Congresso deveria ter
se desculpado? Ora, por que foi este quem homologou
as indicações desastrosas da presidência da
república para a diretoria da Anac, uma diretoria
escolhida política e não tecnicamente, que foi a
agência responsável por passar documentos de
conteúdo inverídico ao Ministério Público, que, por
sua vez, com base nestes documentos, acabou por
autorizar pousos e decolagens de aeronaves pesadas,
também em dias de chuva, no aeroporto de Congonhas.
Onde estava, então, a patrulha dos Direitos Humanos?
Ah! A patrulha dos
Direitos Humanos estava mobilizada para
ridicularizar os movimentos pacíficos surgidos pelo
país contra o governo de Lula e contra o caos aéreo
e a corrupção. A patrulha quer ter o monopólio sobre
as manifestações e sobre seus conteúdos. Parte da
mídia cooptada aderiu à ridicularizarão destes
movimentos surgidos legitimamente. Prestou um grande
desfavor. Mas, como também não saiu se desculpando
aos moradores da Providência, embora lhes dê espaço
e voz, sob pretexto de ‘isenção’, vou deixá-la de
fora desse discurso.
O Congresso Nacional
deve muitas desculpas, com certeza, porém a todos os
brasileiros. A casa deve desculpas pelo ‘mensalão’,
caso que vai acabar prescrevendo na Justiça e não
colocará ninguém na cadeia nem fará também com que
os prejuízos sejam ressarcidos aos cofres públicos.
O Congresso deve desculpas pelo corporativismo que
faz com que criminosos se protejam entre si naquela
casa. O Congresso deve desculpas aos brasileiros
pela produção intensiva de pizzas, numa CPI atrás da
outra, por causa de conchavos, de dispositivos
legais usados para bombardear todas as chances da
boa apuração do que quer que seja. O Congresso deve
desculpas por ter recriado a CPMF, que era para ser
provisória, tendo durado mais tempo do que deveria,
com outro nome. Há tanto para se desculpar ao povo
brasileiro que não dá para citar tudo num simples
artigo.
Então qual o motivo de
todo esse festival de hipocrisia? Desacreditar as
FFAA perante a opinião pública? Por quê? Medo de
insurreição popular? Ora, já não se viu que as ruas
do país são monopólio do crime organizado e dos
arruaceiros dos chamados movimentos sociais – todos
sustentados com verbas governamentais e outras ainda
vindas do exterior, sob forma de doação? Medo de
insurreição eleitoral? Com urnas eletrônicas sem
voto impresso e com a permissão de que se minta
descaradamente nos palanques eleitorais espalhados
pelo país, sem falar no festival milionário de
propaganda oficial do governo? Só pode ser
brincadeira.
Chega de desculpas!
Pedir desculpas não exime ninguém de crime que se
tenha cometido. E muitos crimes, de toda a espécie,
têm sido cometidos contra o país, contra a população
brasileira. Para o crime, pode haver explicação, mas
não desculpas. Para o crime, não se quer desculpas,
mas punição.