O desrespeito a que o amadorismo da
administração pública está submetendo os usuários do transporte aéreo
não tem, além de precedentes, qualquer justificativa. Além de tudo, a
afronta na forma de eufemismo com que o ministro da Defesa, Valdir
Pires, tenta minizar a questão, atinge a inteligência da população. Sua
Excelência tem a desfaçatez de dizer que a crise é de “fundo emocional”,
pedindo ânimo à população, como se estivesse se dirigindo a um time de
jogadores prestes a perder uma partida.
Perdendo os passageiros estão mesmo, a
paciência, as conexões com outros vôos, o direito ao legítimo descanso
num feriado prolongado; os donos de pousadas, hotéis, empresas de táxi
aéreo, agências de turismo e outras empresas do ramo amargando enormes
prejuízos . Há o tempo, que não volta, para aqueles que planejaram uma
viagem com vários meses de antecedência, ou daquela passageira que
perdeu o enterro da mãe porque seu vôo não saiu.
O presidente convoca uma reunião de
emergência – como se questão pudesse ser resolvida em horas ou dias - e
o ministro diz que vai chamar controladores de vôo aposentados, que, com
um breve curso de reciclagem, poderão assumir as funções dos que estão
temporariamente afastados em razão da tragédia do avião da Gol. Duvidosa
essa assertiva a respeito dos controladores aposentados. Há quanto tempo
estarão fora de serviço?
Em 2003 houve um episódio de quase-colisão
nos céus da capital de São Paulo – um, que chegou ao conhecimento geral,
mas não é um acontecimento tão raro – e discutiu-se o problema dos
baixos salários e da sobrecarga de trabalho dos operadores. Não era o
caso de se dizer se iria acontecer uma colisão nos céus, mas sim de
quando isto se daria. Como de costume, certas questões como
criminalidade, acidentes e outras acerca de episódios lamentáveis são
tratadas, no calor do momento, como prioridade máxima, providências são
anunciadas e, geralmente, fica tudo por isso mesmo.
Como podem profissionais que têm sob sua
responsabilidade milhares de vidas, receber salários tão aviltados e ser
submetidos a condições de trabalho estressantes? Talvez agora, neste
caso que, democraticamente, atinge as pessoas “comuns” , os
parlamentares, os juízes e outras autoridades indistintamente, uma
solução possa aparecer.
Houve corte de verbas para o fundo do
setor, que é alimentado com as tarifas que os usuários pagam, embutidas
nos preços das passagens, além da taxa de embarque. Todos os serviços
que a aviação brasileira utiliza, como taxas de pouso, de pernoite, de
fonia ( as comunicações entre aeronaves e torre de controle) e outras,
são cobrados das companhias aéreas pela Infraero e, obviamente,
repassados aos usuários. Donde, incabível que sejam submetidos a esta
situação degradante, pessoas dormindo no saguão dos aeroportos, muitas
famintas, sem poder tomar banho.
E por que o corte, vulgo
contingenciamento, das verbas? Para ajudar a fazer o tal superávit
primário, ou o equilíbiro das contas do governo. Dinheiro que também é
desviado, para o mesmo fim, do controle da saúde do gado, da manutenção
das rodovias e sabe-se lá de que outros setores mais. Todavia, fazer
superávit à custa da segurança aérea parece um pouco demais.
Mas a tese simplista do ministro da Defesa
a respeito do “fundo emocional” da crise não está de todo errada. Que o
digam os viajantes, submetidos a todo tipo de emoções negativas:
angústia, frustração, tristeza, mágoa.
Não, não é tão simples assim. O acidente
na Amazônia se deu por uma conjunção de fatores, e, se é verdade que o
controle de Brasília tentou, por sete minutos, contato a tripulação do
Legacy, por que motivo não fez o mesmo com a do Boeing, dando-lhe ordem
para se desviar do curso ou mudar de altitude?
Se não há apenas um culpado pela tragédia,
por que razão reter os pilotos do avião americano no Brasil até, sabe-se
lá quando, a conclusão das investigações?
Uma coisa é certa: os usuários da aviação
devem gratidão aos controladores pela greve branca, que não se resume a
salários, antes pelo contrário, pois, reclamando da não observância do
período de pausa ou descanso e outras questões, está dirigida à
melhoria da segurança de vôo. O que não torna menos desastrada a atuação
do governo federal, que nesta questão.
Para finalizar, uma pergunta: por que a
aviação civil tem de ser administrada por militares que, por
preconceito, fizeram cancelar, no meio deste ano, um concurso público
para a contratação de pouco mais de uma centena de controladores civis?
luizleitao@ebb.com.br