|
Iniciar um choro é ter a mais elevada das coragens, é ser
translúcido na mais pura clarabóia da alma, é finalmente transformar o
sentimento do abstrato no concreto, é o mais puro discurso elucidativo de
todos os sentimentos... chorar é a forma mais nobre de demonstração
humana que exemplifica o direito natural, chorar é exclusividade humana,
somente os semelhantes do divino tem o privilégio maior de demonstrar essa
coragem.
Chorei quando descobrir que estava amando as genitoras dos
meus filhos.
Chorei quando descobrir que a partida delas era como
dissecar a alma.
Chorei no crepúsculo da chegada da prole
Chorei na saída do meu saudoso pai
Continuo chorando de saudades do meu querido 64, do jogo de
gude, do chafariz na Praça da Lavoura, do mangueiro onde hoje é o Banco do
Brasil, dos gritos malucos de titia doida, do abraço fatídico na cerca de
arame farpado de Chico boca lascada, do corte de cabelo de tenente
ribeiro, das poesias bêbadas proferidas pela boca espumosa do poeta
Wanderlei, dos banhos na presa, brincadeira de vuca, salva vida, cair no
poço, caçada na matinha, curral de Erondino, descascadeira de arroz do
véio Demetrio, a brincadeira no cipó, da preocupação onde pisar no caga
fácil, da confusão no buraco do cego, os vícios do beco da arrelia, a
ladeira da bica, os carotes, a mula segredo do vice-prefeito, do cine
Mara, também conhecido cine poeira, o colégio Wilson Lins e a hora do
recreio e da merenda de Jonas empunhando uma lata de salsinha sem poder
abrir, do apelido de fatada, mariposa, frango d’água, bel três cabeça,
Josemar gambá, chêra tudo, Paulo Bezerra, pombo, tirrani, cavaquinho,
louro mistral, bonitinho, sabão de mula, querosene, vê se eu tô, João
palavrão, das balas de marfim de Dona Zebinha, das balas de atum do pai de
galadinho, do James Wrigth e Professor Raimundo, do CPE e frei Ubaldo, da
época do jacarandá e do vascaíno Argimirão, do Carambola Bar de Ciridião,
de Geraldo Podim, do Trompete de Zeildo cantando concerto para o verão, da
banda marcial de Bolão e sua risada gaitada, do jeito de colocar o pé no
peito pra tirar um dente do Dentista Liderico, do primeiro pão sovado da
padaria de João Paulino, do primeiro gole do refrigerante xodó da Bahia,
das goiabas surrupiadas do Hospital Maternidade, dos coice de mula na
bandeja de bolo, das promessas nunca cumprida á pé roxa, dos festejos no
clube social na Maria Quitéria, do Bar de Miguel e os chicletes tremendão,
do morre sem vela de Galdino, da Toca da Onça da véia Jozefinha, do teco
teco do seu Alberto aviador, do simca azul e branco rabo de peixe do
saudoso Tena, da boite mexicana onde as cubas libres eram servidas com
limão galego, do vizinho Tição Bar de Nezito antes de perder a orelha.
Caio Cezar disse, VINI, VIDI, e VITI, vim, vi, e venci,
depois chorou.
Jesus Cristo também chorou,
Roberto Carlos também chora,
Para respirar a vida, é necessário chorar...
Ria e o mundo dará risadas contigo, chore e chorarás
sozinho.
"Por medo de chorar, deixamos de sorrir"
Com tantas lágrimas, estou mais constrangido que PADRE EM
PUTEIRO.
Liderico
Meira dos Santos
|