Pesquisa realizada pela Interscience e apresentada durante o
1o. Congresso Brasileiro de Pesquisa (março 2003) nos mostra que o
brasileiro tem valores fortes que nem sempre compreendemos (ver abaixo):
O que a população mais valoriza?
78% - Honestidade
77% - Verdade
72% - Confiança
72% - Respeito ao outro
70% - Solidariedade
69% - Diálogo
67% - Empresas éticas e honestas
66% - Limpeza em todos os lugares
65% - Bem-estar, saúde física e mental
Fonte: Interscience – in Meio & Mensagem 29/3/2004
Será realmente verdade que o brasileiro valoriza honestidade, verdade,
confiança, respeito ao outro, limpeza em todos os lugares, por exemplo?
Como antropólogo tenho sido chamado a dar uma "explicação" para esse
fenômeno. Os valores revelados pela pesquisa não condizem com a realidade
percebida por nós no cotidiano. Por quê? Estará a pesquisa errada?
Na minha opinião a pesquisa está corretíssima! A explicação é ao mesmo tempo
simples e complexa e exige um pouco de reflexão sobre o Brasil e a cultura
brasileira.
É preciso que saibamos que nós, brasileiros, não temos os quatro séculos de
tradição escrita de Gutenberg, o inventor da imprensa no século XV. O
brasileiro – eu sempre tentei explicar isso a alunos e clientes – é oral e
auditivo. Sem a tradição escrita que a Europa e por história de colonização,
os Estados Unidos possuem, nos mantivemos "tribais" (no sentido de uma
civilização oral e não visual). Mário de Andrade dizia que "o escritor
brasileiro fala com a pena na mão".
As civilizações letradas pela imprensa de Gutenberg criaram o "indivíduo" e
o individualismo como valor. É preciso lembrar que quando as palavras são
escritas elas se tornam parte do mundo visual, estático. A palavra oral é
sempre dirigida ao "outro". Assim, para ler eu tenho que me isolar. Para
falar e ouvir, tenho que me "reunir" com alguém. É importante lembrar que a
Reforma Protestante só foi possível graças à imprensa de Gutenberg – que
criou a ética Calvinista, o nacionalismo e tornou estáticas as línguas
neo-latinas, por exemplo. O próprio Renascimento só foi possível pelo
advento da imprensa.
Assim, nas sociedades visuais, o indivíduo tem força perante o grupo. Nas
sociedades orais e auditivas a força do grupo sobre o indivíduo é tão forte
que podemos classificá-la, sem exagero, de quase insuperável. Sem o grupo o
indivíduo é socialmente inexistente nas sociedades orais.
E a psicologia dos grupos (ou das massas) explica comportamentos grupais que
são completamente diferentes dos desejados por cada indivíduo do grupo. Tive
um professor nos Estados Unidos que me dizia: "Um brasileiro é um gênio
comportado! Dois brasileiros, dois gênios comportados! Três brasileiros
formam um 'bando' selvagem! Por quê?" perguntava ele indignado, pois que
vários grupos de alunos brasileiros quando se juntavam tinham como
"brincadeira" preferida, disparar o alarme de incêndio da universidade,
esvaziar pneus dos carros dos professores, etc. coisas que individualmente
condenavam.
Assim a força do grupo sufoca os valores individuais no Brasil. E assim,
temos muita dificuldade em emitir comportamentos individuais "certos".
Quem busca fazer as coisas de forma certa, correta, ética, é logo acusado de
"certinho" ou "certinha" e ridicularizado pelo grupo. Alunos que estudam
muito são chamados de "cdf"(sic). Funcionários que atendem prontamente
pedidos de clientes ou dos patrões são logo classificados de
"puxa-sacos". Quem paga impostos é considerado "bobo ou ingênuo". Quem joga
papel no lixo é considerado "o ecológico" e é alvo das famosas gozações dos
colegas....
Portanto, os valores individuais pesquisados são mesmo os revelados pela
pesquisa. Por isso ficamos indignados com a sujeira e quando vemos um lugar
limpo e bem cuidado dizemos "Que coisa linda! Nem parece o Brasil!", ou "Eu
não jogo papel no lixo porque ninguém joga papel no lixo! Quando todo mundo
jogar papel no lixo eu também jogarei papel no lixo. Eu não jogo porque
ninguém joga e eu não quero dar uma de herói e babaca...", etc, etc.
Veja pois, o leitor, que ser "herói" no Brasil é errado e não certo! Herói
no Brasil só pode ser "herói grupal" e não "herói individual!" Para ser
herói tem que ter a aprovação do grupo.
E com esse impedimento de manifestar seus valores individuais, o brasileiro
é complacente com o erro, com a desídia para não ofender o grupo. E essa
complacência reforça nossos comportamentos contrários a nossos valores
individuais. Dou um exemplo: você, como aluno, passou o fim de semana todo
estudando para a prova da 2a. feira. Seu colega não estudou. Pelo contrário.
Foi ao jogo, ao cinema e ainda debochou de você e chamou você de "certinho"
por "perder um final de semana estudando". Chega a hora da prova. O seu
colega (que não estudou) pede para você lhe ensinar as respostas que ele,
por não ter estudado, não sabe....
Qual o seu comportamento e da maioria de nós, brasileiros? Chama o professor
e denuncia a tentativa do colega de pedir a resposta? Diz a ele – você não
estudou, agora tire nota baixa e assuma seus atos!?
Não! O que todos fazemos é passar as respostas ao colega relapso. E em
seguida quase morremos de raiva e indignação ao vermos que a nota dele foi
igual à nossa.... Qual será nosso comportamento na próxima prova? É claro
que será o de "não perder o final de semana" e preparar uma boa "cola"....
Da mesma forma é a desmotivadora atitude de patrões, chefes, gerentes e
supervisores que vêm a desídia e fingem não enxergá-la. Convivem com o
descomprometimento de seus subordinados, não exigem o cumprimento dos prazos
e metas solenemente prometidos. "Quem poupa os maus ofende os bons" diz um
ditado latino. Qual a "vantagem" em ser bom, perguntou-me um funcionário. No
final todos ganham e quem faz certo é sempre o mais prejudicado!
E o que dizer das famosas "anistias fiscais". Trata-se de um verdadeiro
escárnio para quem pagou em dia os impostos ver os que não pagaram sendo
anistiados....
Justamente porque os valores individuais do brasileiro são fortes é que
ficamos tão indignados com a corrupção, com a falta de ética e com a
sujeira, por exemplo. E essa indignação individual só antecede a nossa
consciência de total incapacidade de denunciar os outros, de ofender o grupo
– mesmo desconhecido. Essa sensação ou "certeza" da impunidade pela força
dos grupos é tão grande que nos sentimos totalmente impotentes e
desmotivados para fazer o certo.
Se quisermos mudar essa realidade e ter o direito de manifestar e de "viver"
os nossos valores individuais no Brasil, teremos que fazer uma verdadeira
cruzada, tão difícil quanto necessária.
Mas é preciso que acreditemos que quando o ambiente "permite" que esses
valores sejam manifestados, o brasileiro sente-se feliz e orgulhoso. Um
exemplo é o Metrô de São Paulo. Há 30 anos ele é orgulhosamente mantido pela
mesma população que destrói os orelhões, quebra os bancos das praças e picha
os muros da cidade. Por quê?
Simplesmente porque o Metrô conseguiu criar um ambiente onde o valor
"lugares limpos e bem cuidados" pudesse ser manifestado todos os dias. Não
há nada quebrado, nada sujo. O quebrado é imediatamente retirado. A sujeira
imediatamente limpa. E todo brasileiro se orgulha do Metrô de São Paulo!
E para poder vencer a força do grupo, o brasileiro precisa criar uma
"entidade mítica" que os antropólogos tão bem conhecem. Algum "ser
superior", mítico, que diga o certo e o errado.
Isso explica o porquê de todo brasileiro que trabalha numa multinacional
usar o crachá, o uniforme, manter limpos os ambientes, cumprir rigidamente
as regras de segurança e de respeito ao meio-ambiente, etc. Por que só fazem
isso numa multinacional?
Porque existe um "ser" estrangeiro – um quase-deus, mítico – que nos dá as
regras, nos obriga, e todos fazemos, felizes, o que, de fato, gostaríamos de
fazer em todos os lugares, todos os dias. E aí o grupo local não tem voz,
nem vez. O "deus" mandou fazer assim... e ele sabe o que é certo!
E o que é mais importante: esse "deus" não é complacente com o erro. Se o
desobedecermos, iremos para o "inferno" (do desemprego). Podem reparar os
leitores que toda a ordem numa multinacional é referida impessoalmente como
"a matriz"; "os homens de lá...", reforçando a dicotomia terrivelmente
brasileira de que "lá fora" tudo é bom e "aqui dentro" tudo ruim. "Lá fora
as coisas funcionam..." lamenta o brasileiro.
Na verdade, do ponto de vista de um antropólogo, queremos um deus de "lá de
fora" que venha nos salvar das barbáries do "aqui de dentro". Esse "deus" é
a "matriz".
O que fazer?
Minha sugestão é a de que passemos a criar, em nossas famílias, em nossas
escolas, em nossas empresas, ambientes que permitam a manifestação dos
nossos valores individuais.
Para isso temos que punir a impunidade. Valorizar o valor. Dar crédito aos
críveis. Referendar o certo e repreender severamente o erro. É preciso dar
ao brasileiro o direito de ser "certo" ou "certa". Eis aí uma tarefa para
cada um de nós – pais, professores, empresários, políticos, líderes em
geral.
Acredite: os valores do homem brasileiro são os revelados pela pesquisa.
Nossa tarefa como indivíduos, como povo e como nação é a de permitir que
eles sejam manifestos sem constrangimento.
E aí teremos o País que tanto sonhamos. E aí seremos felizes e orgulhosos do
Brasil.
Pense nisso!