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O
senador José Sarney, presidente do Poder Legislativo brasileiro, fez de
seu discurso em homenagem ao Dia Internacional da Democracia uma
coletânea de ataques à mídia, rodeados por extenso enaltecimento à
democracia.
Sarney, que é também escritor, disse que "a mídia passou a ser inimiga
do Congresso, das instituições representativas".
A
depender de seu juízo de "representação", ele pode estar coberto de
razão.
Para
o senador, existe um conflito sobre quem é o representante do povo: o
parlamento ou a mídia. A mídia, qualquer que seja a concepção se lhe
atribua, nunca foi nem será representante da sociedade. Mídia é um
anglicismo aportuguesado, vem de "media", tanto que no português d’além
mar se fala "os media".
Segundo o dicionário da Universidade de Oxford, “media”, plural
de “medium” (médio, meio) são os principais meios através dos
quais grandes quantidades de pessoas recebem informações e
entretenimento, a televisão, o rádio, os jornais e a internet. Então,
mídia é, literalmente, o plural de meio, no sentido de intermediação, ao
qual a TV Senado, por exemplo, se encaixa.
A
mídia, portanto, é apenas a intermediária entre a população e as
instituições, empresas e outras organizações. Mas, estrategicamente
omitindo a minúcia, Sarney diz, em alusão à internet (que é mídia) que
"com as transformações da informática", é possível "vislumbrar um voto
virtual" - ali, ele estava, necessariamente, se referindo à internet- ,
que "reduziria a intermediação da imprensa na relação entre eleitores e
parlamentares e reforçaria a democracia direta".
"O
voto virtual", postulou, "teria a segurança dos sites de bancos (disse
isso talvez com a convicção de que as profusas notícias sobre fraudes
bancárias na internet são mera invenção da tal mídia).E será apenas o
prenúncio de uma nova democracia, não mais inteiramente representativa,
mas feita em parte de representantes, em parte da decisão direta do
cidadão."
"Del dicho al hecho hay gran trecho", reza o
cânone no idioma de Cervantes. Como se daria essa decisão direta
do cidadão, o ilustrado parlamentar não explica...
Tudo
isso não passaria de uma discussão de mesa de bar, não fosse o fato de o
senador ser, ainda que indiretamente, um grande empresário da mídia, não
necessariamente da mesma estirpe, que ele não se pejou de execrar. E não
apenas ele, com o Grupo Mirante, permissionário da Rede Globo, de
emissoras de rádio e dono do jornal O Estado do Maranhão.
Parcela considerável de seus pares, na Câmara e no Senado, ostensiva ou
disfarçadamente, por interpostas pessoas, é composta por empresários da
mídia. Meios de comunicação, em português castiço.
Um
debate intelectualmente honesto a respeito dos defeitos e virtudes
dessas duas entidades que, na pitoresca e delirante concepção do
presidente do Congresso, - "quem representa o povo? diz a mídia: somos
nós. E dizemos nós, representantes do povo: somos nós." - disputam a
representação popular, não poderia deixar de lado uma verdade solar:
enquanto aqueles a quem o autor da cambaleante tese chama de "nós" são
virtualmente inimputáveis, a mídia responde judicialmente por seus
erros, e até por alguns acertos. Tanto a boa quanto a chamada imprensa
marrom - conceda-se uma exceção à imprensa, ou mídia, "chapa- branca" -,
quando fora da tutela da censura antecipada, será chamada à
responsabilidade por seus pecados, que os há.
Mas
não só o diabo mora nos detalhes. Quantos jornais concedem generosas
parcelas de seus sempre exíguos espaços à publicação de artigos ou
entrevistas de gente, políticos ou não, dos mais variados matizes?
O
Estadão mesmo, "A vanguarda do atraso" na concepção do ex-ministro
José Dirceu, publicava com regularidade textos da lavra do ex-presidente
do Partido dos Trabalhadores, deputado José Genoíno, e até mesmo alguns
do presidente Lula, pouco dado ao ofício da escrita; há pouco, deu em
sua página dois, com cerca de generosos seis mil caracteres, um artigo
do ex-ministro da Fazenda, Antônio Palocci (PT-SP).
Dirceu e o atual presidente do PT, Ricardo Berzoini, também foram
recentemente acolhidos nas páginas da Folha de S. Paulo.
Mas
sempre haverá quem diga que o Brasil não é só o Sul Maravilha. Pois bem,
a Folha do Estado, de Cuiabá, tem entre seus colaboradores
regulares ninguém menos que o escritor maranhense José Sarney...
O
Blog do Noblat deu voz a Dirceu, a revista Veja entrevistou,
entre outros, os senadores Tião Viana (PT-AC), que disse alhos e
bugalhos do próprio partido, de Lula e do Senado; e Marina Silva
(PV-AC).
Ora,
mas não se pode esquecer de coroar o bolo com a cereja: mais de uma
centena de jornais brasileiros anunciaram, não tem muito tempo, a
estréia de um curioso colunista que dizia não ler jornais porque que lhe
causam azia, mas é verdade que escrever é bem diferente de ler. O
escriba novato atende pelo nome de Luiz Inácio Lula da Silva. |