Luiz Leitão

 

 
Luiz Leitão - Colunista e colaborador do Sitepopular
luizleitao@ebb.com.br

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Coluna

04/12/07 - Sitepopular /Luiz Leitão/Colaborador

Vitória de pirro

 

Uma apertada maioria de 51% pôs cobro às pretensões de poder perene e quase absoluto do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Talvez seja exagero dizer que a democracia venceu, porque Chávez ainda controla expressiva parcela do obeso Estado venezuelano, desde a Suprema Corte, passando pela gigantesca petrolífera PDVSA, transformada em seu caixa eletrônico, cujas receitas ultrapassam 60 bilhões de dólares anuais, até a Assembléia Nacional.

Mas sem dúvida, o freio imposto ao tal socialismo do século 21 veio em boa hora para mostrar que o populismo não resiste à ação do tempo; medidas como gasolina subsidiada, a sete centavos de dólar o litro, controle de preços e manipulação do índice de inflação são agrados efêmeros a populações ingênuas, e a fatura do almoço grátis acaba sendo cobrada de outra maneira.

O custo da aventura chavista se expressa de maneira visível para a o povo na escassez de gêneros alimentícios, no desemprego e na violência, e mais sutilmente na obsolescência da PDVSA, cuja produção, oficialmente declarada de 3,3 milhões de barris diários, é estimada pela OPEP em meros 2,4 milhões.

O câmbio oficial é estipulado em 2,15 bolívares para um dólar, enquanto no mercado paralelo as trocas são feitas à razão de 6,10 bolívares por dólar.

Hugo Chávez, que sofreu sua primeira derrota eleitoral desde 1998, tem ainda cinco anos pela frente no poder, e a julgar pela maneira tresloucada como vem administrando a economia deverá enfrentar graves manifestações de insatisfação popular até o final deste seu, quem sabe, último mandato.

Pode ser que ele tenha razão quando atribui a vitória do não à massiva abstenção de 44%, mas o fato é que a incipiente oposição está adquirindo musculatura e as manifestações estudantis, duramente reprimidas, foram essenciais para o resultado desfavorável à reforma constitucional absolutista que se pretendia implantar no país.

Existe em seu caminho, no entanto, o fator econômico, aquelas adversidades tão óbvias que sempre acabam surgindo quando se dá aos governados muitos direitos e escassos deveres, quando se tenta passar a ilusão de que o Estado tudo pode e resolve.

Os que apóiam o governo Chávez, e há muitos deles no Brasil, dirão que o resultado das urnas é a demonstração sonora da sua índole democrata, mas é preciso dar tempo ao tempo, porque só com enorme boa vontade pode-se acreditar que ele aceitará placidamente o fim do seu longamente acalentado sonho do sociobolivarianismo – “foi uma vitória de Pirro”, disse ele ao comentar o resultado do referendo. Talvez, mas também se pode considerar um vexame para quem obteve, há um ano, sete milhões de votos e, ontem, apenas quatro milhões.

Convém assinalar que a segunda Lei Habilitante, aprovada em janeiro de 2007, que Chávez soube obter sem grande esforço de um Legislativo literalmente sem oposição, já lhe dera superpoderes, como o de governar por decreto durante 18 meses, com autorização para legislar em 11 áreas, conforme seus objetivos políticos.

Para quem está no poder, cinco anos é pouco tempo, mas para os governados pode ser demais. Principalmente quando o governante de turno dá declarações delirantes, como “A revolução bolivariana transformou a Venezuela numa potência mundial”, ou “Hoje, do que ocorre na Venezuela depende a salvação do mundo.”

O lado sinistro dessa história é que de um presidente capaz de dizer tais barbaridades pode-se esperar o pior, especialmente quando dispõe de forças armadas bem equipadas e uma milícia com quase um milhão de integrantes que lhe é absolutamente fiel.

 
 

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