Inconformado com a série de vaias iniciada na abertura dos jogos
Panamericanos, às quais não soube reagir adequadamente, com galhardia, Lula
não esperava recebê-las no nordeste, seu destino preferencial desde que se
iniciou a presente onda de manifestações de insatisfação com o desempenho da
administração federal, da qual ele é o ícone maior. Lula acusou o golpe
nesta terça-feira, em Cuiabá (MT), quando disse aos que "querem brincar com
a democracia" que "ninguém neste país sabe colocar mais gente nas ruas do
que eu".
Lula
afirma não ter medo de vaias, mas o fato é que sua reação, em um discurso de
dez minutos acerca do tema, demonstra que esse tipo de manifestação popular
é demais para sua onipotência. O presidente não está acostumado com o
contraditório, e não há nada mais adverso do que apupos. Lula sofisma a
respeito do sentido de democracia, que pressupõe a livre manifestação de
opiniões, e exercer esse direito não é brincar com a democracia.
Quem tem
feito pouco da democracia são nossos insignes parlamentares, que, exceções
de praxe, não honram seus mandatos, e participam ativamente do aparelhamento
das empresas estatais e dos órgãos de Estado; são culpados em primeira e
última instância pela falência dos serviços públicos. Os protestos dirigidos
a Lula valem para todos os que conduziram o Brasil ao presente caos, não só
nesta administração. Mas ele é a bola da vez, são dele os auxiliares
trapalhões que não souberam – e não sabem – dar cabo da situação.
É mesmo de
se vaiar ministros que anunciam um novo aeroporto para São Paulo há dez
dias, desmentem a informação na manhã de terça-feira e a reafirmam ao cair
da tarde, como fez a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef,
desobedecendo ao presidente, que determinara a exclusividade do ministro da
Defesa para falar a respeito desta questão.
Certos
estavam os céticos, que viram com ressalvas aquele intempestivo anúncio da
apresentação, em noventa dias, dos planos para a construção do novo
aeroporto, e convém manter a atitude descrente porque, ao que se ouviu de
especialistas, a terceira pista do aeroporto de Guarulhos não será tudo isso
que se espera. A eventual nova pista será tão ou mais curta do que a
principal de Congonhas, terá entre 1.800 e 2.000 metros de extensão e,
pasmem, não poderá operar simultaneamente às duas já existentes, porque
estará situada à esquerda delas onde há, mais adiante, a serra da
Cantareira, o que obrigará os aviões que decolam a fazer uma curva à
direita, interferindo com o tráfego das pistas originais.
Na linha
das providências impensadas, está ainda a venda de parte do capital da
Infraero, mantendo-se o controle com o governo federal. A ninguém ocorreu
que eventuais investidores pensarão mais de duas vezes para adquirir ações
de uma empresa acusada de corrupção, com nada menos do que oitenta processos
na Controladoria Geral da União (CGU), o que sugere a existência, com o
perdão do termo, de uma verdadeira caixa-preta. Não é difícil imaginar o
eventual passivo que poderá surgir se e quando for feita uma investigação
séria na estatal. Se o Congresso, democraticamente, permitir.
Talvez a
moda das vaias ao presidente seja passageira, ações orquestradas, como uns
gostam de dizer, armação da imprensa e das elites, mas não convém acreditar
nisso, porque a incúria na administração dos problemas nacionais tende a
continuar pondo à prova a paciência dos que podem e devem protestar.
O caminho
até o exercício mais pleno possível da cidadania passa obrigatoriamente
pelos protestos, em suas mais variadas formas, entre elas as vaias. Fazem
parte do jogo, assim como aplausos ou como ganhar e perder.