O Brasil se prepara para receber o papa Bento XVI; em São Paulo, até mendigos são removidos dos locais por onde passará Sua Santidade, uma atitude tola, essa de esterilizar a paisagem, mas enfim, viva o provincianismo, já demonstrado quando da visita de Bush. Maior nação católica, segundo o Vaticano, o Brasil que o acolhe será palco de protestos de grupos gays em todo o território. Os manifestantes irão radicalizar, queimando retratos do pontífice, certamente por conta de sua condenação do homossexualismo.
Extremismos à parte, as pessoas têm todo o direito de defender suas opções, ou melhor, sua natureza, porque é disso que se trata. Ninguém acorda um belo dia e diz: decidi ser gay! Não, é algo intrínseco, que está presente em outras espécies. Aliás, deixando-se de lado o fato de que ninguém deve se meter na vida dos outros, porque é que se tenta obrigar as pessoas a negar ou ir contra sua natureza? Possivelmente não só, mas principalmente pela dificuldade em se conviver e aceitar as diferenças, numa sociedade tão estereotipada, e, ainda que subliminarmente, conservadora.
Se a tantos faltam boas regras de conduta, não se pode dizer que a pregação católica seja uma ode à compaixão e à compreensão, ao menos no que diz respeito aos gays. É fácil ser contra o uso de preservativos quando não se tem o encargo de cuidar dos que contraem AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis; é cômodo dizer-se contra o aborto e o uso de células-tronco embrionárias em nome da vida; não importa quantas crianças nasçam sem ser desejadas, quando não se tem de cuidar delas e prover-lhes sustento.
Mas todos, inclusive os que aprovam certas censuras, ignoram olimpicamente a contradição em que caem quando não se insurgem contra a permissão legal do aborto em caso de estupro. Ora, mas para o nascituro que diferença faz a circunstância em que foi concebido? Ah, sim, mas não é bom defender uma proibição tão radical assim, pois a vítima pode ser uma filha, uma neta... Aborto clandestino, inseguro, é coisa de pobre, coisa das incontáveis mulheres que morrem por infecções ou de outras complicações posteriores ao procedimento, quando não se tornam estéreis.
A Igreja, nesta sua inquisição moderna, imola a ciência em seus altares, e com ela, a esperança de cura de milhões. E depois, seus insignes dirigentes lamentam a evasão de fiéis... Não era este o pensamento de Cristo, nem de Gandhi. O mundo carece de líderes que não imponham julgamentos baseados em parcialidades, mas que, ao invés da condenação sumária de comportamentos, dêem preferência ao diálogo. É disso que as pessoas precisam, de ouvidos, mais que de atitudes solenes - e vazias.
Tempos estranhos estes, em que um deputado federal, Paulo Pereira da Silva, do PDT, diz que ecologia era coisa de "veado". Quer dizer então que as pessoas só valem se satisfazem as expectativas dos donos da verdade?
Ser ou estar minimamente feliz é exatamente não ter qualquer compromisso com a expectativa gerada pelo egoísmo dos circunstantes, como quando se ignora que há poucos meses um homossexual foi barbaramente espancado, perdendo um rim em conseqüência das agressões de um destes grupos radicais que são contra gays, negros, judeus e nordestinos. Mas não se vêem, no dia-a-dia, exceto uma ou outra, muitas opiniões condenando tais selvagerias. Essa intolerância não deixa de ser, de forma mais disfarçada e guardadas as proporções, parecida com a que a Igreja vê o comportamento dos que contrariam seus preciosos paradigmas.
Homofobia e misoginia, embutida na não-ordenação de mulheres, são radicalismos; portanto, tão cruéis quanto outras formas de discriminação. Está no Congresso o projeto PLC 122/06 que torna crime, delito de opinião, atitudes homofóbicas, e Marcelo Crivella, o valente senador da Igreja Universal, já empunha sua lança para combatê-lo. Talvez não como um quixote, pois certamente terá a companhia de muita gente que não admite comportamentos fora do seu padrão - e que, muitas vezes, valem só para os demais, na base do "faça o que eu digo, mas não o que eu faço"- , o único admissível, nem que para defendê-lo precisem usar o nome de Deus.
No mundo real, alheias à paquidérmica insensibilidade dos devaneios comportamentais da Igreja, as pessoas continuam refazendo suas vidas afetivas, seja formalmente recasadas ou vivendo juntas, inclusive as “diferentes”, buscando a felicidade.