Durante bom tempo os ecologistas mais ativos
ou radicais eram chamados de ecochatos pelos que viam com desdém os
constantes alertas sobre o aquecimento planetário, e, hoje, as manchetes
anunciam, em tom apocalíptico, a conclusão de 2.500 cientistas a respeito do
que aguarda a humanidade dentro dos próximos cem anos, um tempo
relativamente curto, levando-se em conta a idade da Terra, coisa de 4,6
bilhões de anos.
A Revolução Industrial trouxe
a substituição da ferramenta pela máquina, e esse momento revolucionário, de
passagem da energia humana e animal para motriz, acelerou uma evolução
tecnológica, social, e econômica, que se iniciara na Europa durante a Baixa
Idade Média (séculos XIII ao XV).O
que a humanidade demorou para descobrir é que o preço a pagar pelo progresso
seria alto demais.
Até duas ou
três décadas atrás, falava-se somente em poluição atmosférica, real e
palpável no ar denso das grandes cidades, para a qual a técnica trouxe
algumas soluções, como os filtros industriais e os catalizadores nos
escapamentos dos automóveis. Começou também a reciclagem de materiais como
papel, vidro e metais, o que ajudou a propagação do conceito de ecologia com
relativo sucesso, porque até aí, as ações em benefício do meio-ambiente não
exigiam grandes sacrifícios pessoais, e havia tempo de sobra. Houve
engajamento geral na substituição do gás Clorofluorcarbono (CFC), que
prejudica a camada de ozônio da atmosfera.
Hoje, o Efeito
Estufa, ameaça outrora sutil e longínqua, se apresenta na forma de fenômenos
naturais exacerbados, fora de hora e lugar.
Lidar com o
aquecimento global é desconcertante, porque exigirá renúncia, e nem todos
estarão dispostos a, por exemplo, deixar o carro em casa, e nem há
transporte público adequado e suficiente para tanta gente.
Que
consequências poderão advir das profundas mudanças de comportamento – tudo
em meio a um angustiante sentimento de urgência - e, principalmente,
econômicas que a adaptação à nova realidade trará?
Em que medida
as pessoas estarão dispostas a mudar seu dia-a-dia sabendo que nada do que
for feito poderá modificar as coisas senão daqui a um século? Governos e
sociedade se preparavam para uma transição mais ou menos tranqüila, a
substituição gradativa dos combustíveis fósseis por variadas fontes de
energia alternativas e renováveis, nem todas absolutamente não-poluentes.
A realidade e os planos para o médio prazo
ainda contemplam o uso de combustíveis fósseis: o Brasil planeja a operação
de termoelétricas em 2009, todas à base de gás natural, carvão ou diesel; as
empresas petrolíferas, a todo o vapor, chegam a enfrentar escassez de
mão-de-obra especializada; novas refinarias são construídas. Haverá terras
suficientes para a agropecuária e a agroenergética?
Além da enorme dificuldade de se contrariar os
interesses da poderosa indústria petrolífera, é de se perguntar o que poderá
acontecer com os países que cujas economias dependem fundamentalmente dos
hidrocarbonetos.
A idéia de “crescimento sustentável” soa algo
estranha num mundo de recursos finitos e população crescente; nenhum
crescimento é indefinidamente sustentável, e um dia a humanidade haverá de
se deparar com o insolúvel teorema: não se pode parar de crescer, porque a
dinâmica da economia não funciona na estagnação. Mas há um limite para tudo,
e para o planeta, está cada vez mais próximo. Exagero? Em apenas 30 anos a
população do Brasil dobrou, na Copa do Mundo de 1970 éramos 90 milhões em
ação, como dizia a letra do hino da Copa.
Como fará a China, com sua mais de uma centena
de fábricas de automóveis, produzindo sete milhões de veículos por ano; com
uma cidade chamada Shenzen, que cresce, há duas décadas, à absurda média de
28% ao ano; com sua matriz energética que utiliza 70% de carvão?
Talvez a questão fundamental seja: em que
medida as pessoas, empresas e governos estarão dispostos a sacrificar o
agora em benefício de um amanhã que elas mesmas nem sequer verão?