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Observo a figura de Bento XVI e não vejo em seu olhar a bondade e a
compaixão pregadas por Cristo. Não é todavia a expressão dura que me
subtrai a simpatia que seria natural sentir pelo representante máximo da
Igreja Católica, mas a sua incansável peroração contra a tolerância e a
aceitação das diferenças, e o anacronismo de seu discurso.
Papas
outros o precederam, e nenhum deles ergueu a voz a altura suficiente
para conter os abusos cometidos por sacerdotes que deveriam acolher,
compreender, e mitigar as aflições humanas.
Não é
possível que 35 mil crianças tenham sido abusadas por padres pedófilos
sem a conivência de instâncias superiores, do Estado, inclusive. De
fato, e para surpresa de ninguém, a Igreja Católica fez de tudo para
obstar a publicação de uma comissão de inquérito irlandesa sobre abuso
infantil, que ouviu os depoimentos de milhares de ex-estudantes de mais
de 250 instituições dirigidas pela igreja.
Ora,
se até os piores criminosos condenam o estupro e a violência contra
crianças, como pôde o governo irlandês propor a indecência de oferecer
indenizações às vítimas sob a condição de não processarem a Igreja e o
Estado? A compra, pelo Poder Público (e religioso) da impunidade!
E o
que diz o papa de os autores dos mais abjetos crimes contra a inocência
serem sistematicamente protegidos por seus pares? Sessenta anos de
abusos, somente na Irlanda! Centenas de padres católicos, psicopatas
acusados de maus tratos e abusos sexuais contra milhares de crianças de
que deveriam cuidar e proteger. A Casa Pia de Lisboa, os índios do
Alasca, os milhares de outros casos nos Estados Unidos...
Quando irá a Igreja compreender que casos como o do seminal ex-bispo
paraguaio Fernando Lugo e o do frei Maurice Dillane, que aos 73 anos
teve um filho com sua namorada, de 31 anos, escancaram a impossibilidade
de o celibato refrear tão poderoso instinto, e aceitar a
homossexualidade, quando o bispo dissidente Pat Buckley comprova que até
40% dos clérigos católicos na Irlanda são homossexuais e sexualmente
ativos?
O
ex-arcebispo Rembert Weakland disse que os bispos e o Vaticano se
importam mais com os direitos dos padres abusadores do que com suas
vítimas. É asqueirosa a prática de transferir padres
abusadores para outras paróquias em vez de destituí-los da batina e
denunciá-los à polícia. Homossexual, Weakland é um dos maiores
críticos da política de celibato e ordenamento somente de homens.
Em
que pesem as indenizações e uma ou outra condenação criminal, nada
poderá resgatar a inocência perdida e a integridade física e psicológica
dessas crianças, estraçalhadas pelo instinto animal descontrolado de
quem delas deveria cuidar, prover e proteger.
Abusar de uma criança, ou mesmo de uma mulher, é invadir-lhes o corpo e
a alma, uma brutalidade imperdoável que será lembrada pelo resto da
vida, destruindo-lhes a sexualidade, aquela mesma que seus agressores
perderam a chance de um dia conhecer quando violaram a intimidade
alheia.
As
evidências extraídas desses episódios de virar o estômago demonstram que
nossas crianças, celebradas por Cristo na memorável frase “Deixai vir a
mim as criançinhas”, não são adequadamente protegidas pelo Estado nem
pela Igreja. |