Desde os anos setenta o Brasil vem
desenvolvendo, sob o nome Proálcool, o álcool carburante automotivo. Durante
este tempo, inúmeras dificuldades, como os problemas da partida a frio, da
corrosão dos componentes dos motores e até a questão da escassez sazonal do
produto foram superadas. Hoje, com os alertas dos cientistas a respeito do
aquecimento global outrora desprezados, somados à instabilidade da maioria
das nações produtoras de petróleo, as atenções se voltam para o Brasil, mas
não necessariamente também as intenções.
Nos EUA, a mistura de etanol na gasolina
atinge 10% (mas o consumo representa só 3%), e Bush, recém-convertido à
ecologia, definiu um decréscimo de 20% no consumo de gasolina até 2017. Em
conseqüência da crescente procura por fontes de energia alternativas o preço
do milho já sobe consideravelmente por lá, e busca-se produzir etanol a
partir de uma série de fontes, especialmente da celulose.
Em sua visita ao Brasil o presidente dos EUA
trouxe na bagagem um “acordo” de parceria em pesquisa de biocombustíveis,
como se o Brasil não fosse líder em matéria de bioenergia e precisasse de
tecnologia norte-americana. Únicos fabricantes de veículos Flex, que
funcionam com até 100% de álcool, queremos, isto sim, fregueses para o nosso
álcool, que não haverão de faltar, pois se a Europa almeja reduzir em 20%
suas emissões de carbono até 2020 e não tem terras suficientes para obter
etanol em quantidade, terá de importar. Além do mais, nossa cana dá de dez
a zero no quesito produtividade.
Nem por isso o álcool se tornará, em tão curto
prazo, a redenção do país. Manchetes eufóricas alardeiam números díspares e
dão pouco destaque aos eventuais inconvenientes que a plantação massiva de
cana poderá causar. As promessas são muitas e soam exageradas, como esta de
se fazer do etanol uma commodity, sob o argumento de que a
padronização facilitará as vendas mundiais. Não são necessárias grandes
elocubrações para se definir o teor de pureza e outras especificações
técnicas, de resto já estabelecidas no Brasil.
Mas um observador atento verá que não se
deseja importar biocombustíveis do Brasil: todos os atores desta novela
sabiam de antemão que as tarifas de US$ 0,54 por galão (3,6l) não cairão
porque nos EUA o Congresso é que decide sobre comércio exterior, e o senador
democrata Barak Obama, possível candidato à sucessão presidencial, foi
enfático ao dizer que as tarifas valem até 2009 e criticou o acordo com o
Brasil, dizendo que “não se pode atrapalhar o desenvolvimento tecnológico de
seu país, nem a produção de biocombustiveis;
substituir
petróleo importado por etanol brasileiro não serve aos interesses de nossa
segurança nacional”.
A Du Pont,
indústria química norte-americana, está trabalhando, em conjunto com a
britânica British Petroleum, no desenvolvimento de outro biocombustível, o
biobutanol, também um álcool, que pode ser adicionado à gasolina em
proporções maiores que o etanol, e tem desempenho superior . Irão
fabricá-lo em volumes comerciais a partir deste ano, tendo por fonte a
beterraba, mas tudo o que pode ser utilizado na produção de etanol serve
para o butanol.
Adicionalmente, a companhia informa que se pode produzir biodiesel até mesmo
de algas marinhas – eis aí um potencial inexplorado, que não requer terras,
adubos ou água doce. Muita criatividade será necessária para se obter
matéria-prima para a produção de biocombustíveis, que, hoje, correspondem a,
no máximo, 2% do consumo mundial de combustíveis.
Não convém,
portanto, confiar nas cifras espetaculares apresentadas pelos especialistas,
não só porque a questão é por demais complexa, mas também por causa dos
enormes e conflitantes interesses envolvidos.