Luiz Leitão

 
Luiz Leitão - Colunista e colaborador do Sitepopular
luizleitao@ebb.com.br

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Coluna

12/03/07 - Sitepopular /Luiz Leitão/Colaborador

A euforia do álcool

 

Desde os anos setenta o Brasil vem desenvolvendo, sob o nome Proálcool, o álcool carburante automotivo. Durante este tempo, inúmeras dificuldades, como os problemas da partida a frio, da corrosão dos componentes dos motores e até a questão da escassez sazonal do produto foram superadas. Hoje, com os alertas dos cientistas a respeito  do aquecimento global outrora desprezados,  somados à instabilidade  da maioria das nações  produtoras de petróleo, as atenções se voltam para o Brasil, mas não necessariamente também as intenções.

Nos EUA, a mistura de etanol na gasolina atinge 10% (mas o consumo representa só 3%), e Bush, recém-convertido à ecologia, definiu um decréscimo  de 20% no consumo de gasolina até 2017. Em conseqüência da crescente procura por fontes de energia alternativas o preço do milho já sobe consideravelmente por lá, e busca-se produzir etanol a partir de uma série de fontes, especialmente da celulose.

Em sua visita ao Brasil o presidente dos EUA trouxe na bagagem um “acordo” de parceria em pesquisa de biocombustíveis, como se o Brasil não fosse líder em matéria de bioenergia e precisasse de tecnologia norte-americana. Únicos fabricantes de veículos Flex, que funcionam com até 100% de álcool, queremos, isto sim, fregueses para o nosso álcool, que não haverão de faltar, pois se a Europa almeja reduzir em 20% suas emissões de carbono até 2020 e não tem terras suficientes para obter etanol  em quantidade, terá de importar. Além do mais, nossa cana dá de dez a zero  no quesito produtividade.

Nem por isso o álcool se tornará, em tão curto prazo, a redenção do país. Manchetes eufóricas alardeiam números díspares e dão pouco destaque aos eventuais inconvenientes que a plantação massiva de cana poderá causar. As promessas são muitas  e soam exageradas, como esta de se fazer do etanol uma commodity, sob o argumento de que a padronização facilitará as vendas mundiais. Não são necessárias grandes elocubrações para se definir o teor de pureza e outras especificações técnicas, de resto já estabelecidas no Brasil.

Mas um observador atento verá que não se deseja importar biocombustíveis do Brasil: todos os atores desta novela sabiam de antemão que as tarifas de US$ 0,54 por galão (3,6l) não cairão porque nos EUA o Congresso é que decide sobre comércio exterior, e o senador democrata Barak Obama, possível candidato à sucessão presidencial, foi enfático ao dizer que as tarifas valem até 2009 e criticou o acordo com o Brasil, dizendo que “não se pode atrapalhar o desenvolvimento tecnológico de seu país, nem a produção de biocombustiveis; substituir petróleo importado por etanol brasileiro não serve aos interesses de nossa segurança nacional”.

A Du Pont, indústria química  norte-americana, está trabalhando, em conjunto com a britânica British Petroleum, no desenvolvimento de outro biocombustível, o biobutanol, também um álcool, que pode ser adicionado à gasolina em proporções  maiores que o etanol, e tem desempenho superior . Irão fabricá-lo em volumes comerciais a partir deste ano, tendo por fonte a beterraba, mas tudo o que pode ser utilizado na produção de etanol  serve para o butanol.

Adicionalmente, a companhia informa que se pode produzir biodiesel até mesmo de algas marinhas – eis aí um potencial inexplorado, que não requer terras, adubos ou água doce. Muita criatividade será necessária para se obter matéria-prima para a produção de biocombustíveis, que, hoje, correspondem a, no máximo,  2% do consumo mundial de combustíveis.

Não convém, portanto, confiar nas cifras espetaculares apresentadas pelos especialistas, não só porque a questão é por demais complexa, mas também por causa dos enormes e conflitantes interesses envolvidos.

 
 

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