Para
o jornal, “os partidos políticos se converteram em um manto acobertador
de seus militantes em vez de serem atentos e rigorosos vigilantes da
idoneidade política e moral de cada um deles”.
“Aos
eleitores não parece importar muito a decência de seus líderes e assim,
juntando a fome com a vontade de comer, alguns protagonistas máximos da
política se sentem de posse de uma ‘licença para roubar’ equivalente à
‘licença para matar’ que James Bond exibe em seus filmes”, afirma o
editorial.
Outro jornal espanhol, El País, também comentou o resultado
eleitoral em um editorial, afirmando que Lula recebeu “um sério aviso”
das urnas. “O presidente vai ter que mudar muitas coisas em sua
estratégia para assegurar a reeleição neste mês”, diz o texto.
Para
o diário, “como não há diferenças programáticas fundamentais entre ambos
os candidatos (Lula e Geraldo Alckmin), será a credibilidade de um e de
outro a que resolverá finalmente a luta pela Presidência do gigante
íbero-americano”.
O
editorial afirma ainda que “a sensação acumulada durante o último ano e
meio de que tudo valia no Brasil, enquanto não se provasse uma conexão
direta do favorito Lula com a corrupção, se dissipou bruscamente no
domingo”. “As urnas refletiram uma visão mais exigente da ética
política”, avalia o editorial.
Campanha perigosa
Reportagem do diário americano The New York Times diz que Lula
esperava até o último momento uma vitória no primeiro turno, mas “ele
estava equivocado, e agora enfrenta o que promete ser a campanha mais
cansativa e potencialmente perigosa de sua longa carreira, contra um
concorrente que ele e muitos outros menosprezavam”.
O
texto, que em seu título diz que a base de apoio a Lula “pode virar
areia”, diz que o segundo turno, que Lula “nem queria nem esperava”,
“promete ser extraordinariamente disputado e cheio de contrastes”.
“As
diferenças não são tanto de idéias – ambos os partidos vêm lutando pelo
mesmo espaço de centro-esquerda desde que Lula moveu-se para o centro
para ganhar em 2002 -, mas de personalidade e estilo político”, diz o
Times.
O
Wall Street Journal, por sua vez, avalia que no segundo turno Lula
não terá como evitar o confronto, como fez no primeiro turno. “Ele
desprezou os debates com outros candidatos e fez campanha principalmente
dentro de sua base de eleitores de baixa renda, que apoiavam os
programas sociais do governo e a figura de homem comum de Lula.”
O
jornal econômico observa que os mercados financeiros tiveram um dia
positivo no Brasil na segunda-feira, após a votação inesperada de
Alckmin. “Enquanto o esquerdista sr. da Silva se mostrou um responsável
administrador fiscal da economia, o sr. Alckmin é visto pelos
investidores como tendo uma proposta mais clara para encolher o Estado e
estimular o crescimento.”
O
diário francês Le Monde também comenta os efeitos da eleição
sobre os mercados. “Os programas de PT e PSDB não são muito diferentes,
e o desafio eleitoral não parece preocupar os mercados financeiros,
diferentemente de 2002, quando a possibilidade de eleição do antigo
sindicalista provocou uma verdadeira tempestade”, diz o texto.
Para
o jornal, porém, “as quatro semanas de campanha entre o primeiro e o
segundo turnos vão paralisar o governo e aumentar a polarização”.
Kirchner apreensivo
Os
principais jornais argentinos relatam em suas edições desta terça-feira
a apreensão do governo argentino com relação às eleições no Brasil.
Segundo o diário La Nación, “a Casa Rosada (sede do governo
argentino) reagiu ontem com doses iguais de cautela e inquietude sobre o
resultado das eleições no Brasil, mas os principais membros do governo
de Néstor Kirchner confiam que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
ganhará no segundo turno”.
De
acordo com a reportagem, o presidente argentino aposta na vitória de
Lula por considerar que as relações entre os dois países passam por um
bom momento. “Do ponto de vista do governo, a permanência do presidente
brasileiro no poder permitiria afiançar a aliança estratégica da
Argentina com o Brasil em um Mercosul que enfrenta múltiplos
curto-circuitos”, diz o texto.
Segundo o diário Clarín, “Kirchner havia apostado bastante em
Lula, a quem no governo consideram ‘mais previsível’ do que Alckmin”.
“Não é segredo a boa relação entre a Chancelaria e o Itamaraty e, de
fato, a relação entre Kirchner e seu colega brasileiro melhorou muito
desde o fim do ano passado.”
O
jornal diz ainda que alguns oposicionistas argentinos procuraram traçar
paralelos entre a eleição brasileira e o cenário político argentino,
onde Kirchner é favorito para ser reeleito no ano que vem.
O
diário econômico El Cronista Comercial, por sua vez, avalia que
“o destino do Mercosul e da liderança regional estão em jogo no segundo
turno no Brasil”.
O
jornal avalia que o governo Lula mantém seu apoio ao bloco regional e à
Argentina contra a vontade do “establishment industrial” representado
pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo),
considerada mais próxima a Alckmin.
Em
relação à disputa pela liderança regional, o jornal considera que “ainda
que Lula ganhe no segundo turno, a redução de seu cacife político
favorecerá a influência de Hugo Chávez, que com a força dos petrodólares,
de discursos incendiários e da chegada ao poder de aliados como o
presidente boliviano, Evo Morales, foi reduzindo o papel de líder
regional que quase naturalmente ostentam os presidentes do Brasil”.