|
Com o
título Repostas a questões relativas a alguns aspectos da doutrina
sobre a Igreja, o texto da Santa Sé procura esclarecer o que
considera como “interpretações desviantes e em descontinuidade com a
doutrina católica tradicional sobre a natureza da igreja”, que ocorreram
depois da publicação do documento Iumem Gentium ("A luz das
nações"), do Concílio Vaticano 2º (1962-1965), dizendo que a única
Igreja de Cristo "subsiste" na Igreja Católica.
“Cristo constituiu sobre a terra uma única Igreja e instituiu-a como
grupo visível e comunidade espiritual, que desde a sua origem e no curso
da história sempre existe e existirá”, diz o texto. “Esta Igreja, como
sociedade constituída e organizada neste mundo, subsiste na Igreja
Católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos bispos em comunhão
com ele.”
A nova publicação assinada pela Congregação para a Doutrina da Fé,
responsável por promover e tutelar a doutrina da fé e a moral no mundo
católico, diz que “com a palavra ‘subsistir’ o Concílio queria exprimir
a singularidade e não a multiplicabilidade da Igreja de Cristo: a Igreja
existe como único sujeito na realidade histórica”.
“Contrariamente a tantas interpretações sem fundamento, não significa
que a Igreja Católica abandone a convicção de ser a única verdadeira
Igreja de Cristo, mas simplesmente significa uma maior abertura à
particular exigência do ecumenismo de reconhecer o caráter e dimensão
realmente eclesiais das comunidades cristãs não em plena comunhão com a
Igreja Católica”, diz o documento.
Leonardo Boff
O
tema já foi desmentido em inúmeras ocasiões pelos papas que comandaram o
Vaticano antes de Bento 16. Entre elas, em 1973, com a declaração
Mysterium Ecclesiae de Paulo 6º e, em 2000, com a Dominus Iesus,
aprovada por João Paulo 2º.
No
texto publicado nesta terça-feira pelo Vaticano é lembrada também a
notificação de 1985 da Congregação para a Doutrina da Fé sobre os
escritos do teólogo Leonardo Boff, segundo o qual a única Igreja de
Cristo “pode também subsistir noutras igrejas cristãs”.
Naquela ocasião, a Congregação puniu o brasileiro pelo que considerou um
equívoco e disse que o Concílio adotou a palavra subsiste, precisamente
para esclarecer que existe uma só “subsistência” da verdadeira Igreja.
Críticas e mal-estar
Outras considerações importantes do documento devem gerar novos
protestos das outras igrejas cristãs, como ocorreram anteriormente,
principalmente a afirmação de que somente a Igreja Católica dispõe de
todos os meios de salvação e de que, fora dela, existem apenas
“comunidades eclesiais”.
“Embora estas claras afirmações tenham criado mal-estar nas comunidades
interessadas e também no campo católico, não se vê, por outro lado, como
se possa atribuir a essas comunidades o título de Igreja, uma vez que
não aceitam o conceito teológico de Igreja no sentido católico e
faltam-lhes elementos considerados eclesiais pela Igreja Católica”, diz
o texto.
Segundo o vaticanista Andrea Tornielli, o objetivo da nova declaração é
combater o que o papa Bento 16 considera como ‘relativismo eclesiológico’,
segundo o qual todas as igrejas que dizem fazer parte do cristianismo
têm o mesmo nível de verdade ou que cada uma delas não têm mais que uma
parte desta verdade.
A
divulgação do documento ocorre três dias depois de o papa Bento 16 ter
assinado decreto que dá mais liberdade para os sacerdotes celebrarem
missas em latim, uma concessão aos tradicionalistas.
Em
uma carta aos bispos de todo o mundo, no último sábado, o pontífice
rejeitou as críticas de que sua atitude poderia dividir os católicos.
No
entanto, o documento gerou mal-estar e, segundo especialistas, poderá
ameaçar também o diálogo entre cristãos e judeus. |