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Convido
meu amigo para jantar, cautelosamente explico que minha esposa não anda muito
satisfeita com a vida de RAINHA DO LAR, e suplico que apareça sozinho ou no
máximo com sua esposa, porque eu que vou dirigir o fogão. Papo de boteco é uma
maravilha, tomando umas e outras ficamos mais solidário, milionário, mais
bonito, enfim transbordamos de fraternidade. Estou merecidamente escornado no
sofá inaugurando um pijama de seda, anos setenta, quando a campainha toca,
estremeço lembrando que o convite fora feito no torpor etílico. CHEGOU VISITA, o
filho da puta lembrou mesmo do jantar. Meu olhar suplicante para minha
companheira, foi correspondido com um... SE VIRA ANIMAL. Corri pra despensa,
massa falida, lá no canto do armário... um milagre chamado miojo, abracei aquele
pouquinho de massa, e acabei acreditando que existe milagre. Na geladeira, quase
não consigo abrir a porta, porque meus dedos estavam cruzados rogando ao meu
santo protetor SÃO JOÃO DA BARRA, que encontrasse um complemento para a massa do
preguiçoso O MIOJO, aliviado achei duas salsichas, estava com a data de validade
vencida, mas ninguém perceberia, pelo menos enquanto estivesse na minha casa.
Atendi solicito o ¨meu amigo¨ que vinha acompanhado de um casal, pra mim
desconhecido, uma mulher grávida com seu marido com cara e barriga de estivador,
fudeu... Mandei que ficasse a vontade no sofá enquanto providenciava um vinho,
ultima garrafa do meu predileto vinho gato preto chileno, no bar de Junior minha
conta estava estourada, maldita mão aberta sou eu quando estou bebendo, mesmo
assim servi meia dose pra cada um do meu precioso e nunca recuperável vinho, fui
a casa da vizinha tomei emprestado dois pratos e fui providenciar o ¨JANTAR¨,
conseguir um resto de queijo gorgonzola endurecido, dois saquinhos de queijo
parmesão, parecendo pó de serra, rezando para que a fome dos intrusos fossem
pequena. Campainha toca novamente, a mulher com a bunda colada no sofá, olha pra
mim e percebo o seu olhar sorrindo, desgraçada, ainda me paga peste ruim. Atendo
a porta dois elementos perguntam se sou o GERSON, aliviado digo que não, meu
nome é JEFERSSON, eles insistem e por cima do meu ombro enxerga o maldito ¨amigo¨
e me atropelando corre para o abraço. Depois dos efusivos cumprimentos me
pergunta pelas cervejas geladas, chamo ¨meu ¨amigo no canto e desabafo com uma
gentileza assombrosa.
Filho da
puta te convidei para jantar, e você me traz uma grávida, um estivador, e mais
dois desgraçados, pensando que estou dando uma festa. Não estou abrindo nenhuma
filial residencial, é somente um jantar...
Pede-me
desculpas, lamenta pelos excessos de convites, e ainda tem a coragem de dizer
que convidou aqueles dois ex-detentos, por humanidade, afinal eles estavam em
recuperação, nada mais que dois humildes cleptomaníacos. Como eu poderia cuidar
da cozinha e ainda ficar de olho nos meus pertences? |